Mistura de remédios faz crianças desenvolverem “síndrome de lobisomem”

Recém-nascidos foram identificados com hipertricose, anomalia genética que causa crescimento excessivo de pelos

São Paulo – A Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS) confirmou que cerca de 13 bebês nascidos na Espanha desenvolveram, na metade do ano passado, uma condição popularmente conhecida como “síndrome do lobisomem”. A doença também afetou bebês recém-nascidos nas regiões autônomas de Cantábria, Andaluzia e Valência, aumentando o número de indivíduos afetados para 17, segundo o jornal espanhol El País.

A hipertricose, nome clínico da condição, é caracterizada por fazer com que o ser humano tenha um crescimento capilar anormal por todo o seu corpo. Apesar de alguns casos serem considerado leves – como crescimento de pelos excessivos em locais como braços e pernas -, existem pessoas que acabam tendo a sua pele inteira coberta, exceto a região das mãos e dos pés. O apelido “síndrome de lobisomem” se dá pelo fato de que alguns pacientes chegam a ter, inclusive, a região da face inteiramente coberta de cabelos em excesso.

Ainda que não se saiba muito sobre o que faz com que o ser humano tenha a doença, sabe-se que se trata de uma mutação genética, muitas vezes de caráter hereditário. No caso destes bebês, porém, o que fez com que a anomalia se apresentasse foi um xarope. O medicamento, segundo especialistas, continha doses de omeprazol e minoxidil em sua composição. O primeiro é responsável por diminuir a quantidade de ácido existente no estômago, enquanto o segundo é utilizado para tratar a calvície masculina, estimulando o crescimento de cabelo.

Os bebês afetados, entretanto, não apresentaram outros sintomas, além do crescimento de pelos. Documentos da AEMPS revelam que cerca de 22 lotes de medicamentos contaminados da Smilax Laboratories Limited, na Índia, foram enviados para a empresa farmacêutica Farma-Química Sur, em Málaga, cidade espanhola. Uma fonte da Agência informou para o El País que houve uma confusão com as informações trocadas entre a farmácia e o laboratório indiano. Segundo ela, a farmácia não interpretou corretamente o medicamento e o comercializou com uma descrição errada. Além disso, os frascos que continham os medicamentos foram enviados sem embalagem protetora adequada.

Existem poucos casos de hipertricose registrados no mundo inteiro, o que torna a doença uma condição rara, e muitos dos pacientes entram em profunda depressão. No passado, pessoas que tinham tal anomalia eram frequentemente vistas em circos com o tema “show de horrores”, como a estadunidense Alice Elizabeth Doherty (1887-1933). A causa da doença não é clara, visto que já foi associada a alterações genéticas, desnutrição, consequências de um tumor ou, como aconteceu agora, efeitos colaterais de alguma droga.

Não existe uma cura para a hipertricose. Porém, alguns pacientes e médicos consideram que a depilação a laser, que consiste na remoção de pelos corporais por meio da exposição contínua a um aparelho de laser, seria a forma mais duradoura e eficaz de conter o crescimento de pelos e cabelos de forma exacerbada.