Lago na Antártica pode revelar evolução e novas vidas

Cientistas russos afirmaram nesta quinta-feira que uma sonda enviada a um lago primitivo sob o gelo da Antártica pode fazer revelações

Moscou – Cientistas russos afirmaram nesta quinta-feira que uma sonda enviada a um lago primitivo sob o gelo da Antártica pode fazer revelações sobre a evolução do planeta e até mesmo novas formas de vida.

Uma equipe russa fez uma perfuração até a superfície do lago Vostok, que, acredita-se, foi coberto por gelo durante milhões de anos, em um avanço anunciado oficialmente pelo Instituto do Ártico e da Antártica.

Cientistas afirmaram que as amostras de água que serão retiradas do lago até o fim deste ano podem revelar novas formas de vida, apesar das condições extremas.

“Esperamos encontrar vida lá como nenhuma outra que exista na Terra”, explicou Sergei Bulat, um biólogo molecular do Instituto de Física Nuclear de São Petersburgo, à AFP.

“Se houver vida lá, será uma forma de vida que é desconhecida para a ciência. Nesse caso, estamos falando de uma descoberta fundamental, uma nova página em nossa compreensão científica da vida”.

“Descobrimos um novo assunto para a ciência, ninguém nunca viu nada como isso”, acrescentou Vladimir Syvorotkin, um especialista em geologia e mineralogia da Universidade Estatal de Moscou.

“Os biólogos provavelmente encontrarão alguma bactéria desconhecida que se adaptou a estas condições”, disse à AFP.

Os sedimentos do lago também revelarão mudanças na Terra e em seu clima nos últimos 20 milhões de anos, afirmou German Leichenkov, do Instituto de Geologia e Recursos Minerais do Oceano em São Petersburgo.

“Para os geólogos, é importante perfurar e trazer de volta os sedimentos. Eles contêm informações sobre alterações no meio ambiente, o clima nos últimos 15 a 20 milhões de anos”, disse à AFP.


“Nós temos muito pouca informação sobre isso na Antártica e esta poderia ser uma fonte única de informação”.

Trabalhando em condições extremas no leste da Antártica, onde a temperatura média é de cerca de menos 50 graus Celsius, a expedição implantou uma sonda através do gelo por muitos meses, utilizando querosene como anticongelante.

“Esta é nossa vitória técnica. Perfuração nestas condições climáticas complexas é difícil, além dos fatores da alta altitude e do gelo forte”, explicou Leichenkov.

“É uma vitória técnica e psicológica importante. É importante parabenizá-los com isso, especialmente porque não existem outras vitórias. Essas pessoas são heroínas”, disse Syvorotkin, da Universidade Estatal de Moscou.

O líder da expedição, Valery Lukin, comparou orgulhosamente o sucesso do projeto de longa duração com o primeiro voo ao espaço.

Em um sinal da importância que o governo russo atribui à descoberta, o ministro dos Recursos Naturais e Ecologia, Yury Trutnev, visitou o local no início deste mês.

Os cientistas por trás da expedição afirmaram que a sonda não iria contaminar a água devido às técnicas empregadas, que utilizaram água pressurizada para puxar o fluido de perfuração menos denso para fora do poço.

No entanto, um especialista do Greenpeace alertou para o risco de poluição na perfuração, citando cientistas internacionais.

“Muitos cientistas dizem que têm dúvidas e que o líquido para perfurar pode atingir este lago único com flora e fauna desconhecidas. É um risco”, disse Vladimir Chuprov, chefe da equipe de energia do Greenpeace na Rússia.

O professor Martin Siegert, chefe da escola de geociências da Universidade de Edimburgo, afirmou à AFP nesta semana que o método de perfuração utilizando anticongelante significava um potencial para contaminação.

“É muito difícil para eles convencer (outros) de que seu experimento será limpo, quando você tem essencialmente duas milhas (3,5 quilômetros) de querosene para atravessar antes de chegar à superfície do lago”.

A difícil tarefa de atingir os sedimentos do lago também exigirá um método seguro de perfuração, explicou o geólogo Leichenkov.

“Este problema já está sendo solucionado, temos especialistas muito bons trabalhando nisso”, completou.