Conheça Roger Schank, o inimigo das aulas chatas

Para o especialista americano crítico do modelo tradicional de educação, o verdadeiro aprendizado vem da prática, não de teorias explicadas em sala de aula

São Paulo – As pessoas só aprendem com os próprios erros. É o que pensa Roger Schank, especialista em ciência cognitiva que coleciona polêmicas pregando contra a rigidez das escolas. Do ensino básico à pós-graduação, o ex-professor das universidades Stanford e Yale considera as aulas chatas demais.

Em visita ao Brasil, ele falou sobre o conceito de “aprender fazendo” que aplica em cursos corporativos em empresas como a IBM e em programas de pós-graduação de universidades como a americana Carnegie Mellon.

1) EXAME – Como serão as escolas do futuro? 

Roger Schank – Espero que elas não existam, pelo menos na forma atual. As escolas foram inventadas pelas religiões e até hoje são iguais: uma pessoa fala e as outras ficam caladas, tentando memorizar.

Não fazem ninguém pensar originalmente. A maior parte do que ensinam é desnecessária. Álgebra? Ninguém usa. Mas cada criança tem de fazer equação de segundo grau para passar na prova e, em seguida, esquecer.

2) EXAME – Como deveria ser a aprendizagem? 

Roger Schank – A gente só aprende quando pergunta. Uma criança de 2 anos questiona o tempo todo. Aprende a falar para pedir comida, não porque tem aulas de gramática. Começa a andar sem ter aulas de física. Cai, pede ajuda, mas persiste.

E, quando assimila, passa a andar inconscientemente. Isso é aprender. Mecanismos inconscientes são aprimorados quando você erra e tem de descobrir um jeito de consertar. A partir daí, passa a fazer corretamente de forma natural. 

3) EXAME – Como é sua abordagem de “aprender fazendo”? 

Roger Schank –Os alunos trabalham em espaços como bibliotecas e demandam orientações sobre seus projetos a mentores disponíveis online. Parece fácil, mas não é. Fazer com que os estudantes trabalhem duro e pensem em algo que nunca viram antes é sempre uma tarefa dificílima. Nos cursos de pós-graduação que preparo, não há leituras, aulas nem provas. Tudo o que fazemos é produzir. 

4) EXAME – Reduzir as escolas e as universidades a um adestramento para o trabalho não é perigoso?  

Roger Schank –As pessoas ouvem a expressão “treinamento para o trabalho” e dizem que é algo terrível. Dizem que, sem uma formação nas áreas humanas, não se poderá fazer uma reflexão intelectual sobre a vida. Mas estão falando de 1% da população interessada nisso. E os outros 99%? Não precisamos de mais intelectuais, estamos cheios deles. 

5) EXAME – Qual é o papel das empresas na educação? 

Roger Schank –As empresas são o melhor lugar para fazer o que proponho porque não têm as regras das escolas. Em vez de tentar prevenir erros, os treinamentos devem estimular os funcionários com simulações. As pessoas sofrem quando erram e refletem sobre como acertar. Ficam emocionalmente envolvidas. Isso é importante para aprender. 

6) EXAME – O senhor não vê sentido em aulas teóricas? 

Roger Schank –Não na quantidade em que são apresentadas hoje. Há muita teoria nas aulas porque os professores pensam que se aprende ouvindo. Não é assim. Muita teoria só dá sono.

7) EXAME – O Brasil discute como melhorar a qualificação de sua mão de obra. O que o senhor recomenda?

Roger Schank –Tentaria ter as melhores escolas de ensino médio do mundo. Isso seria revolucionário. Permitiria que os jovens realizassem seus sonhos. Isso o Brasil poderia fazer.