Estudo diz que aves primitivas tinham quatro asas e não duas

Os estudiosos descobriram os novos dados em fósseis de 100 e 150 milhões de anos no Museu da Natureza de Shandong Tianyu, na China, disse Xing Xu

Algumas aves primitivas tinham quatro asas, antes de a evolução fazê-las perder as traseiras para dar lugar a patas, afirmaram cientistas chineses esta quinta-feira, após analisar fósseis com mais de 100 milhões de anos.

Pesquisas anteriores tinham descoberto aves similares a dinossauros com penas nas extremidades traseiras, mas as provas eram poucas no caso dos pássaros, que para muitos evoluíram a partir dos dinossauros.

Embora até mesmo as últimas descobertas tenham mostrado a evidência de patas com penas nos primeiros pássaros, ainda há dúvidas de se as penas eram uma ajuda ou um impedimento na hora de voar.

Os cientistas chineses que fizeram o estudo, publicado na revista Science, asseguram que os 11 novos espécimes fósseis descritos fornecem evidências de que as penas das patas integravam um sistema de quatro asas usado para voar.

Os estudiosos descobriram os novos dados em fósseis de 100 e 150 milhões de anos no Museu da Natureza de Shandong Tianyu, na China, disse Xing Xu, um reconhecido especialista em dinossauros.

Os 11 pássaros são de cinco espécies relativamente robustas – maiores que um corvo, mas menores que um peru – explicou Xu, professor da Academia Chinesa de Ciências.

Um espécime chave foi o Sapeornis, um pássaro primitivo que se pensava ter apenas as penas traseiras.

No entanto, os fósseis do museu mostraram a criatura com um leque de penas em cada calcanhar, algumas com até cinco centímetros de comprimento.


“Acreditamos que estavam relacionadas com o voo”, explicou Xu à AFP, descrevendo a descoberta como “emocionante” porque não restam muitos exemplares fósseis de pássaros antigos, com seus esqueletos delicados, que pudessem ser usados pelos cientistas.

Os pássaros descritos no estudo são do período Cretáceo e voaram há 121 e 125 milhões de anos, convivendo com os dinossauros, disse.

Segundo o estudo, as asas traseiras se tornaram patas com penas e poderiam ter ajudado as criaturas a manobrar no ar, enquanto batiam as asas dianteiras para voar ou as esticavam para planar.

A disposição das penas, as asas rígidas, sugerem que eram “aerodinâmicas em sua função, proporcionando elevação, criando arrasto e/ou melhorando a capacidade de manobra e, portanto, desempenhando um papel no voo”, diz o estudo.

Os cientistas buscam agora mais detalhes sobre a possível cor das penas e desenvolveram modelos para mostrar exatamente como teriam sido utilizadas no voo, explicou Xu.

Outros especialistas, no entanto, não estão tão certos de que as penas das patas tenham sido usadas para voar e destacam que poderiam ter sido usadas com outros fins, como por exemplo, atrair possíveis parceiras.

“Ninguém pensa que estes animais agitavam as patas como faziam com as asas”, disse Kevin Padian, professor de Biologia Integrativa da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Padian não participou da pesquisa, mas foi um dos especialistas que a revisaram antes de sua publicação.


“Alguns afirmam que as penas das patas teriam incrementado a impulsão, mas não há evidências disto. Para aumentar a impulsão, as penas deveriam ter se organizado para formar um perfil aerodinâmico competente e plano e ninguém acredita (ou demonstrou) que este seja o caso”, disse Padian à AFP.

“Por outro lado, é indiscutível que estas penas teriam criado arrasto”, acrescentou.

“De fato, os autores não fazem ou citam nenhuma pesquisa que apoie uma hipótese de que as penas contribuíram para nenhum tipo de voo”, continuou.

No entanto, Padian elogiou a pesquisa, qualificando-a de “grande estudo” porque mostra como as penas das patas mudaram com o tempo entre os pássaros tipo dinossauro e os pássaros primitivos.

Atualmente há alguns pássaros que apresentam pernas carnudas com penas, mas tendem a ser aves exóticas criadas por sua raridade, não aves que evoluíram neste sentido, disse Xu.

Alguns, como a águia dourada, continua tendo patas com penas, mas suas extremidades acolchoadas lhe servem para se proteger do frio, não para o voo.