Projeto de código aberto ajuda o atendimento de hospital no Haiti

Em parceria, ONG Partners in Health e empresa de TI ThoughtWorks desenvolveram um sistema de prontuário eletrônico baseado no OpenMRS para novo hospital

Com a capital e região próxima devastadas por um terremoto em 2010, o Haiti viu sua já precária infraestrutura ficar ainda pior. Mas não demorou muito para governos de fora começarem a agir na região, da mesma forma que fizeram ativistas e ONGs. Uma delas foi a Partners In Health, que já atuava no local há alguns bons anos e iniciou a construção do Hospital Universitário de Mirebalais, cidade situada 45 quilômetros ao norte de Porto Príncipe.

Finalizada em 2013, a instalação de 19 mil metros quadrados tem 300 leitos e atende cerca de 185 mil pessoas. A iniciativa, porém, precisou do apoio de parceiros para dar certo – e uma das empresas que a ajudou a ONG foi a norte-americana ThoughtWorks, que atua na área de TI e tem um histórico forte na parte de ativismo. A companhia colocou uma equipe de desenvolvedores de sua sede em Porto Alegre para criar um sistema de prontuário eletrônico (PDF), visando facilitar a vida dos médicos e melhorar o atendimento a pacientes na região carente.

O sistema foi desenvolvido usando como base o OpenMRS, um projeto de código aberto já conhecido na área por ser usado especialmente em países africanos para fazer o registro médico. Adaptações de interface e usabilidade foram feitas, é claro, já que a realidade e a população da ilha da América Central são bem diferentes. Para saber mais sobre a iniciativa e sobre essas adaptações, INFO conversou com Émerson Hernandez, gerente de projeto da ThoughtWorks no Brasil.

O engenheiro de software participou do desenvolvimento e visitou o Haiti por duas vezes – e na primeira teve um choque de realidade, segundo ele. Hernandez contou que a iniciativa em torno do software envolveu entre quatro ou cinco pessoas da empresa, junto de outras cinco ou seis da ONG, “dependendo do momento”. O sucesso se refletiu na duração da parceria, que iria do meio de 2012 até o meio de 2013, mas foi estendida até o começo deste ano, com o objetivo de integrar o sistema ao de outras regiões da ilha. E apesar de o prazo ter acabado, o relacionamento entre ambos os lados ainda será mantido – e o projeto desenvolvido por eles agora faz parte do OpenMRS. Veja mais sobre a iniciativa na entrevista a seguir.

INFO: Quem começou o projeto e quando exatamente ele foi iniciado? E em que momento a ThoughtWorks e sua equipe começaram a se envolver na iniciativa?

Émerson Hernandez: Em 2010, um terremoto gravíssimo atingiu o Haiti, e naquele momento o país perdeu 80% de sua capacidade de atendimento médico. Então, a Partners in Health (PIH), uma ONG que já atua por ali há cerca de 20 anos, resolveu construir um novo hospital ao norte da capital [em Mirebalais], até para fugir da zona dos tremores. O estabelecimento seria universitário, ou seja, focaria também na formação de novos médicos e enfermeiros. Quando a construção começou, eles também foram procurar alguns parceiros para diferentes áreas do hospital, inclusive para geração de energia sustentável e para a criação de software.

Mesmo com uma equipe de desenvolvimento dentro da própria PIH, eles correram atrás de empresas que estivessem alinhadas a eles, tanto tecnológica quanto socialmente. Um membro da ONG já conhecia a ThoughtWorks por outros trabalhos que tínhamos feito [até com eles] e acabou fazendo a ponte para nos incluir no projeto deles. A construção do hospital foi iniciada em 2011, enquanto o desenvolvimento de alguns outros pontos começou pouco depois. O software que criamos mesmo foi desenvolvido a partir de agosto de 2012, quando eu e mais um funcionário da empresa aqui de Porto Alegre fomos para lá e passamos uma semana. Depois, ainda viajamos até Boston, onde ficam os “quartéis” do PIH, para começar oficialmente a trabalhar na iniciativa.

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O software foi baseado em uma solução de código aberto já existente, não?

Sim, o programa é baseado no OpenMRS, uma solução que tem origem em uma comunidade bem forte criada ao redor do mundo, com muitos desenvolvedores dedicados a ela. Ela já foi implantada no próprio Haiti pela PIH, e também em países da América do Sul, da África e da Ásia, e a comunidade responsável é formada por um pessoal bem engajado. Por isso mesmo decidimos usá-lo como base, aplicando sobre ele algumas características específicas para o hospital – visto que o OpenMRS é mais genérico, de propósito geral. Quando entramos em um ambiente como o do Haiti, há várias peculiaridades a se considerar, e é preciso personalizar o software. E foi isso que acabamos fazendo: pegamos a base e construímos o prontuário.

E quais foram os grandes desafios dessa adaptação?

O grande foco do desenvolvimento estava na usabilidade. O pessoal do Haiti não tinha muita noção de uso de tecnologia, e alguns nem sabiam usar um mouse. Tanto que, para muitos deles, ser funcionário do hospital e saber usar o software e um computador era até considerado uma forma de ascensão social. Um ponto que notamos na primeira versão do software, por exemplo, é que só podíamos usar senhas com letras minúsculas, porque muitos não sabiam ou não estavam acostumados a usar o Shift. Então fizemos todo um trabalho para entender a realidade deles e criar um software de acordo. Fora isso, nós também tivemos que levar em consideração os médicos e enfermeiros, que precisam de um software de uso fácil para abandonar de vez o papel e aproveitar as vantagens da coleta de informações online.

Todo o esforço foi focado em software ou vocês também trabalharam em modificações de hardware, como mouses e teclados? E como descobriram o que era preciso ajustar?

Não fizemos nada em termos de hardware, mas tivemos sim que pensar em como adaptar o uso de mouse e teclado – precisava ser simples, para não conflitar com o conhecimento que eles já tinham. Também encaramos algumas questões interessantes de usabilidade relacionadas a cores: no primeiro teste que fizemos com usuários, colocamos um botão verde e um vermelho no programa. E em vez de eles apertarem o botão vermelho, que levava à tela anterior, eles preferiam dar vários outros cliques – tudo porque, para eles, apertar o vermelho era uma “demonstração de fraqueza”, que mostrava que eles não tinham entendido como usar.

Hernandez (de preto, à direita) e parte da equipe do projeto (Foto cedida pela ThoughtWorks)

Aprendemos este e outros pontos na segunda viagem que fizemos ao Haiti, quando entregamos a versão inicial do software a usuários reais e coletamos o feedback. Na primeira vez que fomos para lá, até descobrimos algumas coisas, aproveitamos o conhecimento que a PIH já tinha de lá [a ONG mantém outras clínicas no país] e conseguimos validar algumas de nossas hipóteses. Mas ainda assim faltaram várias outras, que só foram verificadas em nossa segunda visita, quando colocamos as pessoas para usar o programa. O grande diferencial do nosso trabalho foi esse desenvolvimento contínuo: entregamos resultados continuamente, para diferentes pessoas testarem e darem um retorno. A partir disso, fizemos as adaptações que tinham sentido na a realidade delas.

Depois do terremoto, a estrutura de comunicação do país foi muito prejudicada – ouvi até a história de que apenas um cabo sustentava a internet de toda a parte norte da capital. Que desafios vocês enfrentaram nesta parte de infraestrutura e como conseguiram contorná-los?

É uma história bem pitoresca essa do cabo. Estávamos indo da capital até Mirabelle, a uns 40 ou 50 quilômetros de distância, mas morro acima. Em dado momento, começamos a olhar para baixo, e no meio da vista tinha um cabo, parecido com aqueles de luz. O voluntário do PIH que estava conosco disse: “Estão vendo esse cabo aí? Essa é a internet que vai da capital para toda a parte norte do país”. Um cabinho daqueles que você usa para ligar a TV à tomada é dez vezes mais grosso do que aquele. Então sim, tivemos que pensar (e muito) sobre o que aconteceria se a internet caísse ou a luz acabasse, já que o hospital não poderia parar. Tudo isso foi levado em consideração, certamente. A infraestrutura era mesmo bem frágil, mas inacreditavelmente melhorou bastante desde a primeira vez que fomos para lá. Eles estão evoluindo nisso, mas ainda não chegou ao nível de confiança que temos aqui no Brasil, em uma cidade grande como Porto Alegre ou São Paulo. O que fizemos para contornar os problemas foi tentar criar soluções que mantivessem o software funcionando mesmo sem internet. Colocamos mecanismos para salvar modificações temporariamente no servidor local, por exemplo, fazendo uma integração com um distribuído à medida que a conexão voltasse.

Mais de dois anos se passaram desde o início do desenvolvimento do software e da construção do hospital, que está funcionando. Já deu para notar alguma mudança?

Sim, já. A PIH tinha o plano de conseguir alcançar três milhões de pessoas em três anos, a partir do momento em que o hospital fosse inaugurado oficialmente, em março de 2013. Mas daquele mês até dezembro do mesmo ano, eles já estavam com algo em torno de 25% e 50% a mais de atendimento do que eles esperavam ter. Como a população não tinha atendimento de forma nenhuma, ter um hospital funcionando foi um grande diferencial – e mais ainda porque a instalação ali tem aparelhos que não estão em mais lugar nenhum do país.

A fachada do hospital, já pronto, em 2013 (Foto cedida pela ThoughtWorks)

Antes também várias pessoas que não tinham hospitais perto de casa eram obrigadas a viajar para longe e arrumar um lugar por perto para dormir, porque só seriam atendidas em outro dia. Mas pelo simples fato de termos colocado uma função de agendamento no sistema do hospital, essas pessoas conseguem ir ao local em um dia, receber atendimento e voltar para casa. Fora isso, o próprio hospital criou um mecanismo de identificação por cartão, que acabou adotado por muitos como forma de provar cidadania, já que vários não tinham mais um documento de identidade.

Enfim, deu para ver também como a tecnologia pode fazer a diferença na vida das pessoas. Visitamos uma clínica que tinha uma sala de 20 metros quadrados cheia de pilhas de papel que iam do chão ao teto – algo que um prontuário eletrônico resolvia. No Haiti, doenças que exigem que um paciente volte regularmente se tornaram bem comuns, e se você não acha o prontuário certo, pode acabar errando o tratamento. Com um sistema digital, fica mais fácil ver quais os remédios que a pessoa está tomando, se aquilo está surtindo efeito ou não. São as vantagens da tecnologia, que tornou a vida efetivamente mais simples.