Brasileira estuda cartas psicografadas

Pesquisadora escolheu três personagens parecidos em seu estudo, todos mortos e psicografados por Chico Xavier, a pedido de suas famílias

São Paulo – Há quem diga que ciência e religião não combinam. Mas a pesquisadora Cintia Alves da Silva demonstrou, em uma tese acadêmica, que a linha que separa essas duas áreas, na verdade, é tênue. Estudou cartas psicografadas pelo médium Chico Xavier em seu mestrado em linguística pela Unesp. Sua dissertação, “As cartas de Chico Xavier: uma análise semiótica”, defendida em 2012, foi publicada recentemente como livro, sob o mesmo título, pela editora Unesp, selo Cultura Acadêmica, e está disponível gratuitamente neste link.

Chico Xavier escreveu durante mais de duas décadas, em sessões públicas de psicografia, cartas chamadas de “consoladoras” ou “familiares”. São textos, frequentemente, destinados aos pais, maridos e esposas abalados com a perda de seus entes queridos. Essa produção do médium foi compilada em cerca de 100 livros. Muitos deles passam por contínuas reedições ao longo dos anos.

Cintia escolheu textos de três “autores espirituais” em seu estudo, todos atribuídos a “mortos” e psicografados por Chico Xavier, a pedido de suas famílias. São eles: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. Em sua investigação, descobriu que, apesar das semelhanças, há características que diferenciam “os autores nos textos”. Embora todos tenham sido escritos por Chico Xavier, supostamente recebendo informações dos espíritos dos psicografados.

Em entrevista a INFO, Cintia falou sobre o seu estudo e sobre os motivos pelos quais temas como este despertam tanto o interesse das pessoas. Para a pesquisadora, a tese acadêmica que defendeu não busca comprovar a existência de espíritos, mas demonstrar que as cartas psicografadas por Chico Xavier, do ponto de vista da linguística, são coerentes e parecem ter sido escritas por pessoas diferentes.

INFO – De onde surgiu essa ideia de pesquisa?

Li um recorte do jornal “O Estado de São Paulo”, que falava sobre a existência da AJE-SP (Associação Jurídico-Espírita do Estado de São Paulo) e, na época, discutia a possibilidade de usar cartas psicografadas como meio de prova em processos judiciais. Foi a partir disso que comecei a buscar e organizar informações sobre casos que envolviam a escrita mediúnica de Chico Xavier. O que era um passatempo, inicialmente, virou tema da minha pesquisa de mestrado em Linguística e Língua Portuguesa na UNESP de Araraquara (SP), sob a orientação do prof. Dr. Jean Cristtus Portela. A importância sociocultural e editorial da psicografia no Brasil foi, sem dúvida, o principal motivo que me levou a considerar o estudo acadêmico desse tema.

INFO -Qual foi o objetivo da pesquisa?

Foi compreender o processo de construção das autorias espirituais nas cartas “consoladoras” escritas por Chico Xavier. Observei se havia coerência na construção das” autorias espirituais” na obra de Chico Xavier, ao longo de períodos maiores ou menores, e em que medida apresentariam marcas de autonomia ou individualidade que nos permitissem distingui-las umas das outras. A pesquisa também buscou caracterizar as cartas psicográficas como um tipo particular de texto. Além de se configurar como um gênero específico, as cartas psicografadas delineiam um percurso editorial peculiar, o que possibilita que sejam lidas e compreendidas em outros contextos, para além do centro espírita, onde é produzida.

INFO – Como você selecionou os “autores espirituais”?

A obra psicográfica de Chico Xavier inclui mais de 450 títulos. Deste número, cerca de 100 são coletâneas de cartas “consoladoras” ou “familiares”. Observei quais eram os autores mais frequentes e cheguei ao número de seis, dentre os quais vi que três apresentavam, entre si, uma significativa semelhança de estilos e vocabulário: Augusto César Netto, Jair Presente e Laurinho Basile. A escolha pelos três autores mais semelhantes me pareceu mais produtiva do que a seleção daqueles que eram evidentemente diferentes. Isso porque a escolha por autorias distintas tenderia a reafirmar o que já se diz muito sobre psicografia de Chico Xavier: que cada autor se faria identificar por um “estilo próprio” que o diferenciaria dos outros. Com esse recorte, pude comparar os estilos e o vocabulário de cada autor. Mais do que isso, suas formas de constituição como identidades manifestadas na obra de Chico Xavier.

INFO -Como você analisou as cartas?

Estudei dez cartas psicografadas. Nove delas se prestaram à análise das “imagens” das “autorias espirituais” e uma à exemplificação do percurso das cartas do centro espírita para publicações editoriais. Foi possível observar as recorrências presentes nos textos de cada autor: o vocabulário usado, os temas abordados, suas buscas, a coerência narrativa estabelecida ao longo de uma sequência de cartas, entre outros fatores. A observação das recorrências em cada autoria permite traçar um perfil, uma “imagem” de “autor”.


INFO – O que você observou nesses textos?

Observei repetições de traços que constroem uma imagem do autor ao longo de uma sequência de cartas. Foi possível observar a existência de diferenças significativas, entre os “autores espirituais”, bem como similaridades marcantes entre eles.

INFO -Quais são as similaridades?

É como se dois autores se revezassem na tarefa de comunicar. Esse tipo de texto nos apresenta uma imagem de autor ambígua, em que a imagem do jovem se alterna com a imagem do médium. Em um momento, é possível ver a imagem de um jovem falando com a mãe. Em outro, há um médium falando sobre valores da doutrina espírita, em um esforço para persuadir o leitor de que existe vida após a morte. Há uma alternância, inclusive, no registro de fala (de informal para formal) dentro de uma mesma carta, de um parágrafo para outro, algo incomum na maioria dos tipos e gêneros textuais.

INFO – Essas cartas não parecem genéricas?

O discurso doutrinário, manifestado na imagem do médium, é o componente genérico nos textos. Mas, basicamente, as cartas se diferenciam pelas informações específicas que contêm e pelas buscas e paixões que movem cada autor espiritual, ao longo das narrativas. Ao observar uma sequência de cartas, vi que há uma continuidade narrativa, ou seja, não há quebra entre os discursos.

INFO -Você acredita que o seu estudo ajuda a provar que o espiritismo é real?

Não, porque o meu estudo não trata da religião. Trata de textos gerados a partir de uma prática religiosa. A pesquisa explica porque essas cartas criam “efeitos de verdade” para conseguir a adesão do leitor e porque atingem tanto impacto no universo editorial brasileiro.


INFO -Você pode dizer se as cartas foram de fato psicografadas?

Quando trato de psicografia, abordo uma prática social que acontece na esfera religiosa e gera textos. Essa prática existe – isso é inegável. O texto psicografado é um produto cultural resultante de uma prática religiosa. As cartas que estudei são diferentes das cartas típicas, aquelas escritas por pessoas comuns, em estado “normal” de consciência, com a possibilidade de “troca” entre remetente e destinatário. Chamar a carta de “psicográfica” ou “psicografada” não dá a ela um caráter verdadeiro ou falso, não quer dizer que ela tenha sido mesmo escrita por espíritos, algo que a ciência atual não pode provar. Essa designação serve apenas para diferenciá-la dos textos típicos (como a carta comum, inserida em um sistema de troca postal, por exemplo).

INFO -Você não acha que estudos sobre essa temática podem ser usados pelos fiéis como uma afirmação de que a religião deles é algo comprovado?

Não acredito que trabalhos de temática espírita venham a ser utilizados pelos adeptos do espiritismo como comprovação de autenticidade de qualquer fenômeno. A fé independe de provas.

INFO -Por que as pessoas têm tanta curiosidade por esse tema?

Essa curiosidade é inerente à condição humana. São as perguntas universais: “De onde viemos? Para onde vamos?”. Até o ateu vai se perguntar isso. Pode falar que depois da morte não há nada, mas sempre vai ficar aquela dúvida. Imagino que o estudo tenha gerado muita curiosidade por causa disso, pela possibilidade de se pensar numa continuidade. A finitude incomoda o ser humano.

INFO -Você é espírita?

Sim, eu sou espírita. Meu orientador Jean Cristtus Portela, distanciado de crenças religiosas, me ajudou a manter o rigor na pesquisa. Não trato da religião. Meu estudo trabalha com a autoria e com a dinâmica dessas cartas psicografadas na esfera editorial. Essa é a maior contribuição do meu trabalho: essa mudança de esfera dessas cartas, da família para uma coletividade.