Ataque nuclear perturbaria a vida na Terra, diz físico

Professor José Eduardo Hornos explica como são feitas as bombas nucleares e seus efeitos em casa do uma guerra

São Paulo – Nas últimas semanas, a Coreia do Norte elevou o tom de suas ameaças de guerra. O programa nuclear do regime de Pyongyang ameaça os Estados Unidos, a Coreia do Sul e o Japão e tem gerado apreensão na comunidade internacional.

O presidente norte-coreano, Kim Jong-un, engrossou as ameaças após sofrer uma nova rodada de sanções do Conselho de Segurança da ONU, em represália à realização de seu terceiro teste nuclear. O Professor José Eduardo Hornos, pesquisador no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) explica em entrevista a Info como essas bombas poderosas são feitas e seus efeitos em caso de guerra.

Como uma bomba nuclear é feita?

José Eduardo Hornos – Existem dois processos para fabricação de bomba: a fissão e a fusão nuclear. O primeiro método é muito usado na produção de eletricidade em reatores nucleares e necessita de urânio altamente enriquecido como combustível. Isso significa que é um urânio ou plutônio praticamente puro, um processo diferente do usado em usinas nucleares. A bomba de hidrogênio é o segundo mecanismo. Essa é uma reação limpa muito comum, responsável por naturalmente aquecer a terra, os vegetais, animais, tudo.

De onde os países tiram o urânio e o plutônio?

José Eduardo Hornos – O urânio é um elemento químico encontrado na natureza. O Brasil é um grande produtor de urânio enriquecido. Aliás, são poucos os países que tem urânio e sabem enriquecer: Brasil, China, Rússia e Estados Unidos. Mas é mais comum usar plutônio para fazer uma bomba nuclear. Essa substância é gerada em um reator grande, do tamanho de Angra. O urânio é colocado na máquina para reagir e sai como plutônio.


Qual a diferença das consequências geradas por uma arma nuclear para uma arma química, de TNT? 

José Eduardo Hornos – A diferença está na potência de cada arma. A bomba atômica é caracterizada pelo raio de destruição total, que ocorre quando explode e causa ondas de choque capazes de destruir tudo em um determinado raio. O processo é seguido por emissão de radiação térmica, um calor insuportável que queima tudo no raio de ação da bomba nuclear. 

Depois, há também a contaminação do solo. A bomba atômica e a bomba de hidrogênio têm todos os horrores de uma arma de TNT amplificados, provoca danos violentos e causa mortes em uma quantidade absurda, se for jogada em lugares com alta densidade populacional.

Existe alguma diferença entre as bombas atômicas que atingiram Hiroshima e Nagasaki para as bombas que a Coreia do Norte e os Estados Unidos produzem hoje?

José Eduardo Hornos – Nenhuma. Os países usam plutônio. Em Hiroshima, a primeira foi feita de urânio e a segunda de plutônio. Há também o uso de bombas de hidrogênio, que são menores e mais poderosas. Estourar qualquer uma dessas bombas ao redor do globo perturba toda a vida na Terra.

Qual a diferença entre o que aconteceu em Chernobyl para a explosão de uma bomba atômica?

José Eduardo Hornos – Morreram 52 pessoas em Chernobyl. Em Hiroshima e Nagasaki, morreram mais de 100 mil pessoas. Em Chernobyl, algumas morreram por radiação violenta, que torra a pessoa, literalmente. As outras pessoas morreram por causa da ingestão de iodo, que faz o organismo desenvolver câncer caso a substância radioativa fique alojada na glândula tireoide. Usar essas armas de destruição de massa em qualquer população é de uma crueldade e violência terrível.


A radiação de uma bomba nuclear que possivelmente caia no mar próximo aos Estados Unidos chegaria ao Brasil?

José Eduardo Hornos – Não. É a mesma coisa de ter uma piscina, aquecer pedaços de metais em temperaturas altíssimas e fazer com que esses pedaços quentes explodam. Você vai gerar ondas de água e de calor, e pode causar maremotos. Mas se jogar ao lado de uma cidade costeira, vai encher e inundar o local.

Essas ondas de pressão e calor também prejudicariam os peixes, a fauna. Toda a vida animal seria altamente prejudicada porque poucas bactérias sobrevivem em temperaturas altíssimas. Mas, depois, a natureza se recompõe e a vida volta com sequela ou pouca sequela.

Quais efeitos a população sentiria se uma bomba atômica caísse em Washington, nos Estados Unidos?

José Eduardo Hornos – Se for uma bomba poderosa, com raio grande, a cidade seria totalmente destruída. Não sobraria nada. Terras seriam contaminadas, queimadas e infertilizadas. A radiação térmica causaria incêndios e a radiação ionizante geraria câncer de tireoide nas pessoas.

Mas não se pode pensar que a bomba só vai acabar com a cidade. Sendo realista, a bomba acabaria com grande parte da estrutura econômica de um país. Numa guerra desse tipo, voltamos à idade da pedra porque a economia e a produção da humanidade retrocederiam. Pode ser que não se mate tanto quanto na Segunda Guerra Mundial, mas se destruiria ainda mais.

Que tipo de sintoma as pessoas afetadas por uma bomba nuclear podem sentir?

José Eduardo Hornos – A população pode ser atingida pela onda de choque da bomba como se fosse um vento violentíssimo, que fizesse desabar árvores e arrastar carros. A Bomba queima tudo e derrete o corpo, inclusive. A ingestão de iodo e material radioativo também pode gerar o câncer de tireoide. Tem também a Síndrome Aguda da Radiação, com uma série de características causadas pela radiação, como náusea, vômito e febre.