Antropoceno, o tempo geológico do homem, pode nascer

A humanidade se transformou em uma força da natureza tão grande que pode até ter uma época geológica própria: o Antropoceno

Viena – A Humanidade se transformou em uma força da natureza tão grande que pode até ter uma época geológica própria: o Antropoceno.

Os cientistas debatem quando começou este novo tempo e apontam para meados do século XX, com o nascimento da era atômica.

Ainda vivemos no Holoceno, que começou há 12 mil anos após as últimas glaciações, e cujo clima temperado permitiu aos humanos evoluir e deixar uma marca muito profunda no planeta.

Tão profunda que causou a extinções e alterou ciclos naturais e agora se estuda a designação do Antropoceno como escala geológica.

Uma equipe internacional trabalha desde 2009 sobre esse novo conceito e prepara um relatório que será debatido em 2016 em uma reunião da União Internacional de Ciências Geológicas, órgão competente para decidir as idades da Terra.

Khan Zalasiewicz, um paleobiólogo da Universidade de Leicester, no Reino Unido, que dirige o estudo, afirma que o documento irá sugerir que o início da era atômica, em meados de século XX, poderia ser a data de início do Antropoceno.

Sua equipe procura evidências do impacto global da Humanidade que possam medir de forma objetiva nos sedimentos, e certos isótopos radioativos libertados pelo homem, sejam testes nucleares ou acidentes como o da central japonesa de Fukushima, como um desses “marcadores”.

“O início da era nuclear é um marco, mas isso não significa que os sinais nucleares sejam mais importantes que outros, mas é por uma razão pragmática, porque podem ser reconhecidos e seguir”, explica à Agncia Efe em Viena durante a reunião anual da União Europeia de Geociências, que termina amanhã.


Outros especialistas propuseram que o Antropoceno começou com a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no final do século XVIII, ou até muito antes, com a aparição da agricultura há 10 mil anos.

O problema é que ambas as datas não constituem fenômenos com impacto global nos sedimentos terrestres.

A proliferação de espécies invasoras, a aparição de grandes megalópoles pela explosão demográfica, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera e a acidificação dos oceanos são aspectos da “Grande Aceleração.

Zalasiewicz assinala que se em um “futuro distante” um geólogo estudasse a pegada da Humanidade do último século sobre o planeta acharia “tão repentina e profunda quanto o impacto de um asteróide”.

Especialmente preocupante é a acidificação dos oceanos pelo CO2, que prejudica de muitas formas a vida marinha, mas, sobretudo, afeta o desenvolvimento de corais, moluscos e certas formas de fitoplâncton, fundamentais na cadeia trófica.

Zalasiewicz destaca que as cinco extinções maciças, a última há 65 milhões de anos, que acabou com os dinossauros do planeta, estiveram vinculadas à incapacidade dos corais de criar recifes, algo que, se seguir a tendência atual, pode acontecer em “um futuro geológico próximo”.

Para Tony Brown, um paleontólogo e geógrafo físico da Universidade de Southampton, Reino Unido, que também trabalha em outra comissão científica para definir e delimitar o conceito de Antropoceno, vivemos em uma época diferente do Holoceno porque a Humanidade se transformou na maior força de transformação do planeta.

“Os humanos movimentam mais sedimentos no planeta do que os processos naturais, como os rios, por isso, não podemos deixar de estudar os humanos como principal agente de transformação”, declarou à imprensa durante a reunião científica em Viena.

John Burrows, um químico atmosférico da Universidade de Bremen, Alemanha, destaca que, além disso, o debate acadêmico, a designação de nosso tempo como Antropoceno podem ajudar a nos conscientizarmos do enorme impacto das nossas ações.

Como exemplo, indicou que a agroindústria de adubos químicos transtornou no último século o ciclo do nitrogênio e é uma fonte de grande contaminação para os aqüíferos e os rios.