Você é uma das 120 milhões de pessoas que terão que ser requalificadas?

Em entrevista exclusiva, a vice-presidente de Recursos Humanos da IBM conta como a IA vai mudar todas as indústrias e profissões - começando pelo próprio RH

São Paulo – Enquanto o mundo do trabalho se prepara para a revolução da inteligência artificial, os funcionários da IBM já vivem no futuro. E agora, eles querem trazer o resto das empresas para sua realidade.

Dentro da companhia, a inteligência artificial já está auxiliando nas tarefas do dia a dia como um assistente virtual, que busca informações e tira dúvidas de qualquer um. No México, a IA faz a consultoria de carreira dos profissionais. Para recrutadores e gerentes, o algoritmo ajuda a filtrar os currículos disponíveis que melhor se encaixam nas vagas abertas. No RH, a análise inteligente de dados é estratégica para reduzir a fuga de talentos. A tecnologia até seleciona os melhores conteúdos para auxiliar o treinamento e aprendizado dos trabalhadores.

Segundo Luciana Camargo, vice-presidente de Recursos Humanos da IBM, o maior desafio para as empresas não será a resistência dos funcionários, mas adaptar sua cultura para acompanhar as mudanças. A empresa ficou entre as 150 Melhores Empresas para Trabalhar de 2018.

Em entrevista exclusiva para EXAME – VOCÊ S/A, a vice-presidente diz que o foco para a transformação será a gestão de pessoas.

“Os funcionários já têm uma expectativa de que sua experiência seja melhor, mas se deparam com uma realidade ainda analógica dentro das empresas. Eles têm a expectativa de um processo melhor. O desafio é atender a essa expectativa. Por isso o RH tem papel tão fundamental nesse momento. O grande desafio está com a gente”, comenta ela.

Se o temor hoje é que os robôs roubem empregos, a IBM faz parte do marco histórico que tirou esse pensamento da ficção ao demonstrar que uma máquina poderia vencer humanos no jogo Jeopardy. Foi em fevereiro de 2011 que o computador Watson venceu dois humanos campeões no jogo, que consiste em descobrir a pergunta certa ao ser apresentada apenas sua resposta.

Anos depois, o Watson está disponível não só para a IBM, mas como assistente virtual em diversas empresas. Em agosto, por exemplo, a Pernod Ricard contratou o robô como parte do seu time de RH, para responder às perguntas dos funcionários pelo WhatsApp.

“O grande benefício é a democratização dentro de grandes empresas. A IA transforma a experiência das pessoas ao permitir a qualquer um falar sobre sua carreira ou tirar dúvida através de um assistente virtual. O conteúdo chega ao maior número de pessoas e no processo tradicional isso não existia. Também vimos um aumento de produtividade, com decisões melhores e mais pautadas em dados”, explica ela.

Embora a executiva veja diversos benefícios com o uso do IA, ela também reconhece que a empresa possui uma responsabilidade em ajudar o mercado na transição que a tecnologia provocará.

De acordo com pesquisa da IBM, cerca de 120 milhões de profissionais, das 10 maiores economias do mundo, precisarão ser requalificados nos próximos três anos. “Em breve, essa tecnologia vai afetar 100% das indústrias e 100% das profissões”, diz ela.

Pensando nisso, a empresa lança nesta quarta-feira, dia 28, uma nova unidade de negócios: a IBM Talent & Transformation. Seu objetivo será ajudar organizações e departamentos de Recursos Humanos a capacitar seus funcionários para crescer na era da Inteligência Artificial.

“Queremos levar a expertise da nossa experiência para outros negócios e dar suporte na jornada de adoção da tecnologia. É inevitável que os negócios tenham que se adaptar e as pessoas serão os catalisadores da mudança na figura da cultura da empresa”, diz Luciana Camargo.

Parece contraditório, mas, com a chegada dos robôs, as empresas terão que investir no seu lado mais humano. “O trabalho do RH não será substituído, mas poderá aumentar o potencial humano. Hoje o trabalho ainda é muito manual, a IA ajudará a ter melhores insights na busca de talentos”, explica ela.

A tendência é que a área não seja apenas um serviço, mas trabalhe junto com os programas digitais para fazer parte da estratégia de crescimento das empresas. Na visão da VP de RH, esse caminho passa pelo melhor uso de dados para identificar os melhores talentos, com uma seleção livre de preconceitos.

Uma preocupação sobre o algoritmo é que ele acabe sendo programado para manter preconceitos, como foi o caso da Amazon, que treinou sua máquina de acordo com as contratações dos últimos 10 anos. Percebendo que a maioria dos contratados eram homens, o programa rebaixou a classificação de termos femininos na sua busca.

Sobre a polêmica, Luciana afirma que essa é uma preocupação e defende que a inclusão e diversidade são temas imperativos nessa nova era. O problema está no radar da IBM, que procura aumentar a transparência nos seus programas para melhorar seu uso. “O algoritmo tem que criar a solução que seja boa na sociedade. É importante que a empresa tenha um time diverso e, quando for criar esse algoritmo, treine-o para aprender com a diversidade”, fala.