Viciado em trabalho

Meu ingresso no mercado financeiro se deu quando um amigo me indicou para trabalhar como trainee no Unibanco. Na época, eu fazia faculdade de direito e meu sonho era ser diplomata. Mas acabei gostando tanto do trabalho que saí de lá apenas 31 anos mais tarde, como vice-presidente executivo. Trabalhava cerca de 14 horas por dia. À noite, fazia questão de comparecer à maioria dos coquetéis, jantares e happy hours para os quais era convidado. Três dias por semana, em média, eu viajava a negócios. Nos fins de semana, levava uma pasta cheia de documentos e relatórios para casa.

Para tentar aliviar um pouco a culpa em relação à família, proporcionava a ela todas as mordomias possíveis. A estratégia não funcionou e meu primeiro casamento foi por água abaixo. Depois disso, porém, minha vida continuou girando em torno do trabalho. Eu adorava o que fazia. Além disso, a dedicação praticamente exclusiva à vida profissional era a regra no mercado financeiro. Quando eu recrutava candidatos, por exemplo, fazia questão de verificar até que ponto eles valorizavam o tempo dedicado ao lazer e à família. Os mais disponíveis para o trabalho tinham sempre prioridade. Durante todos esses anos, meus momentos de diversão estavam sempre atrelados à vida corporativa. Posso contar nos dedos as vezes em que fui ao cinema. Se o filme estivesse sendo patrocinado pelo banco, no entanto, lá estava eu para fazer contato com clientes em potencial. Para me aproximar ainda mais deles, aprendi a jogar tênis e me tornei um exímio conhecedor de restaurantes e vinhos. Também comprei uma casa pensando nas recepções que daria para impressioná-los.

Saí do banco há quatro anos. Achei que era a hora de provar para mim mesmo que seria capaz de ganhar dinheiro por conta própria. Confesso que no início não sabia o que fazer com tanto tempo livre. Estranhava ter de dirigir meu próprio carro (sempre havia um motorista do banco à minha disposição), resolver assuntos burocráticos, pagar contas, essas coisas. Aos poucos, fui me acostumando à nova realidade. Desde então, decidi usar minhas habilidades e experiência para trabalhar em projetos, algo excitante e extremamente desafiador.