Vestida para matar… ou para trabalhar?

Luísa fez um regime e emagreceu 10 quilos. E resolveu mostrar no escritório

César é diretor de suprimentos de uma indústria química no interior de São Paulo. Ele nunca teve problemas de relacionamento com seu pessoal. Sincero nas broncas e nos elogios, conquistou facilmente a confiança e o respeito dos subordinados. Mas César está numa situação delicada que envolve Luísa, justamente uma das melhores da sua equipe de ge-rentes. Luísa, com a mesma eficiência com que negocia compras e descobre novos fornecedores, fez um regime e emagreceu 10 quilos.

Aos 36 anos, Luísa realmente ficou em forma. Impossível não ver, pois ela não perde oportunidade de mostrar. Passou a usar saias curtas, vestidos justos, blusas decotadas. Esse tem sido o figurino básico de Luísa de dois meses para cá, desde que voltou de férias com o novo peso. O pro-blema é que Luísa está provocando um bafafá no escritório com seu novo visual. A situação é mais complicada com os fornecedores da empresa. Luísa é responsável pela negociação de uma boa parcela das compras da divisão de suprimentos. César já recebeu telefonemas insinuantes de alguns deles. Ele quer conversar com Luísa, mas não sabe nem por onde começar. Teme ser mal interpretado. E se ela acabar se ofendendo e resolver deixar a empresa?

César quer falar, mas não sabe como. E se pergunta: essa tarefa cabe mesmo ao chefe?

Essa é uma tarefa desagradável, porém típica de gerenciamento. E indelegável. Não dá para César fechar os olhos ou passar o abacaxi para outra pessoa. No comportamento de Luísa há dois componentes básicos que devem ser a base da conversa de César com ela. Um é o cuidado com o próprio corpo. O outro é o comportamento e os trajes de Luísa, que estão, evidentemente, inadequados. Luísa não é assim. Ela está assim!

No que diz respeito à mudança da forma física, já que foi para melhor, Luísa merece elogios. César pode mostrar que os resultados que ela obteve servem de exemplo para outras pessoas da empresa. Afinal, hábitos saudáveis produzem ganhos no ânimo e no estado emocional e espiritual das pessoas. César se relaciona bem com sua equipe. Luísa tem um cargo importante e a responsabilidade por boa parcela das compras da empresa. Isso cria condições muito favoráveis para uma conversa franca. Se há um clima de bafafá no escritório e, mais que isso, o assunto já chegou aos fornecedores, o caso requer ação imediata. Aliás, César não deveria ter deixado passar dois meses para perceber que algo não ia bem.

Luísa exerce um papel gerencial e deve se comportar assim. Ao se relacionar com fornecedores, ela está re-presentando a empresa. Como tal, deve se comportar – e se trajar – adequadamente. Isso é algo mandatório em qualquer situação, especialmente numa cidade pequena, onde as relações profissionais e pessoais tendem a ser mais interligadas que numa cidade grande. Trajes insinuantes e ousados levarão as pessoas a qualificá-la como uma “perua”, o que, fatalmente, irá contaminar seu desempenho como ge-rente. E, uma vez que sua imagem se confunde com a atuação da própria empresa, essa situação não é mais um assunto pessoal dela.

A conversa será delicada. Há até o risco de Luísa se ofender e resolver deixar a empresa. Não creio que isso ocorra, pois ela é boa profissional. De qualquer forma, se Luísa continuar com esse comportamento e César se omitir, surgirão problemas maiores, tanto internos quanto com os fornecedores, depois. Um papo aberto, franco e apoiador tem boa chance de resgatar o comportamento mais discreto de Luísa e colocar a situação no padrão desejado pela empresa.

Gustavo Boog é consultor, diretor da Boog & Associados, terapeuta e autor de livros sobre gestão de empresas

A tarefa de tratar desse assunto é, sem dúvida, do chefe. Ele tem a responsabilidade de resolvê-lo usando os meios que achar mais convenientes. Já que uma de suas características é ser sincero, nas broncas e nos elogios, César deve ter uma conversa franca com Luísa. Uma boa maneira de iniciar essa conversa é destacar as qualidades dela. César deve elogiar a força de vontade e determinação que Luísa mostrou ter para emagrecer 10 quilos. Deve ressaltar que ela agiu corretamente ao decidir cuidar com mais afinco da sua imagem pessoal porque a boa apresentação é extremamente importante para todo profissional que quer ter sucesso. (Aliás, seria muito bom se todos os profissionais agissem assim.) A garra e a eficiência utilizadas para melhorar fisicamente são características determinantes também no seu trabalho como gerente.

A essa altura da conversa, César deve comentar com Luísa o impacto que sua nova forma de se vestir e de se apresentar está causando na empresa. É preciso tomar cuidado para não ofendê-la com pré-julgamentos de suas atitudes. Uma saída inteligente é dizer que entende o quanto é bom se sentir bem com o próprio corpo, mas é preciso tomar cuidado para não se expor a comentários maliciosos. Uma equivocada interpretação da atitude de Luísa por parte dos fornecedores, por exem-plo, pode prejudicá-la como profissio-nal. Além disso, como gerente, pelo alto nível de contato externo, ela contribui fortemente para a transmissão da imagem da empresa para o mercado. César deve reforçar a idéia de que se apresentar com elegância e, sobretudo, com discrição é indispensável para uma executiva.

César se sentirá mais seguro do feed-back positivo de Luísa se considerar dois fatores favoráveis. O primeiro é a confiança e o respeito que os subordinados têm por ele como chefe. O segundo é a maturidade que Luísa deve ter, já que ela está num cargo que envolve uma certa dose de responsabi-lidade. Com base nesse raciocínio, é bastante provável que uma conversa aberta seja bem recebida por Luísa. Portanto, César estará contribuindo para o crescimento profissional da moça. Se por acaso a reação de Luísa for de revolta, ou puramente emocional, ela estará mostrando imaturidade e falta de preparo para o cargo que ocupa. Já se ela não demonstrar nenhuma reação imediata, mas continuar com a mesma atitude, César terá, obrigatoriamente, que tomar uma decisão mais contundente. Dependendo dos efeitos e impactos que a atitude de Luísa estiver causando, talvez ele deva pensar até em seu desligamento.

Francisco Carlos Tosi Marques é diretor administrativo, financeiro e de recursos humanos da ADP Systems, empresa de computação com sede em São Paulo

Ana Maria Cadavez

É natural que a mulher, até por uma questão de auto-estima, queira ter uma aparência física que considere boa. Ou seja, corpo com medidas adequadas, pele limpa e macia, unhas bem cuidadas e roupas que a valorizem e estejam na moda. O problema surge quando não há separação entre os papéis de profissio-nal, de mulher, de esposa, de mãe e ou-tros. Cada papel define um determinado perfil, que abrange aspectos comportamentais e físicos. No caso apresentado, Luísa ficou deslumbrada por ter atingido a aparência física idealizada e perdeu a percepção dos diversos papéis que representa.

O fato é agravado pela circunstância de que ela está recebendo atenções que não recebia antes da “reconstrução corporal”. O seu papel de mulher passou a ser notado e comentado, o que, pelo visto, tem feito bem ao seu ego. Por si mesma, é difícil que reverta a situação. Assim, é preciso que alguém lhe mostre que no ambiente de negócios o papel dela é profissional. E ninguém melhor para fazer isso que o próprio chefe, César.

Por que César? Primeiro, porque o chefe deve, pelo menos em teoria, co-nhecer seus funcionários e saber a me-lhor forma de lidar com situações adversas. Segundo, porque César, pelo histórico apresentado, nunca teve pro-blemas de relacionamento com seus subordinados. Eles estão habituados à sua sinceridade, o que lhe angariou a confiança e o respeito necessários a quem ocupa um cargo de chefia. Se for demitida, Luísa se encontrará numa situação difícil. Sua nova postura pode ter-se espalhado pelo mercado, o que dificultará sua entrada numa outra empresa. E isso deve ficar claro para Luísa ao longo da conversa.

Como fazer, na prática? O ambiente da reunião deve ser neutro, tipo restaurante. Durante o almoço, César deve ir conduzindo Luísa com perguntas bem articuladas sobre posturas e atitudes. Ao longo da conversa, deve “amarrar” suas respostas de forma que ela acabe percebendo que anda sobrepondo papéis. Dessa forma, ela vai voltar ao seu antigo papel, só que melhorada pela nova aparência física.

Ana Maria Cadavez é consultora da KPMG na área de headhunting. É formada em administração, com pós-graduação em RH e em administração financeira e contábil, e especialização em psicodrama

Os personagens e o enredo desta seção são fictícios. Mas os especialistas chamados a dar sua opinião são genuinamente de carne e osso. Caso você tenha uma história a contar, entre em contato conosco pelo e-mail: avidacomoelae@email.abril.com.br

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