Uma grande sacada

Nem dinheiro nem QI de gênio. A inovação pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar. Só depende de você

No fim dos anos 90, os gurus da administração incluíram uma nova palavra em sua pregação: inovação. Por tabela, subtraíram horas de sono dos executivos, preocupados em buscar a idéia salvadora dos lucros da empresa – e da própria carreira. O consultor americano Gary Hammel, que explorou exaustivamente o assunto no livro Liderando a Revolução (Editora Campus), diz que a inovação é obra de empreendedores lutando contra a hegemonia das práticas convencionais. Tom Peters, no livro O Círculo da Inovação (Editora Harbra), diz que as grandes ousadias da humanidade foram obras de loucos. Para o guru dos gurus, Peter Drucker, trata-se de algo imprevisível.

Alguém falou em fortuna ou genialidade? Não. Ao contrário do que se costuma pensar, inovação nem sempre demanda muito dinheiro ou cérebros superdotados. Pequenas grandes idéias nasceram da imaginação de pessoas inovadoras. Jeff Bezos concebeu a livraria mais valiosa do mundo, a Amazon.com, depois de imaginar vendas de livros no ciberespaço. Mas há exemplos também entre os brasileiros. Filho de escritores, Tomaz Adour fundou no Rio de Janeiro uma livraria-editora virtual, a Papel Virtual. Adour pesquisou o mercado editorial do Brasil e do mundo durante seis anos para sua tese de mestrado. Descobriu que 40 mil autores nacionais queriam publicar suas obras, mas não encontravam editoras dispostas a bancar a tiragem de mil exemplares. Esse é o número exigido para a impressão dar lucro.

Adour criou um conceito de negócio que consegue imprimir um mínimo de 50 exemplares e ainda pagar 20% de direito autoral, o dobro do que pagam as grandes editoras. “Não temos custos com livreiros ou distribuidores”, diz Adour. As vendas são virtuais, com entrega em até duas semanas. No início deste ano, a Papel Virtual foi selecionada pela Endeavor, ONG que estimula e patrocina empreendedores. Foi atraída pelos bons resultados. Até o fim do ano, mais de 500 autores terão realizado o sonho de publicar seu livro. A previsão é dobrar esse número em 2002. Faturamento previsto para este ano: 1 milhão de reais, 150% maior que o do ano passado.

Sob a ótica das empresas, inovar é produzir faturamento. “É fazer algo diferente, em lugar diferente, com resultados melhores”, diz Claudio de Moura Castro, economista consultor do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). “É diferente de invenção.” Esse é um bom momento para exercitar o movimento de inovação por aqui. “Acredito que o Brasil tem enorme potencial inovador”, diz Kip Garland, da Seed Innovation, consultoria de inovação estratégica. “Metrópoles como São Paulo são enormes laboratórios para testar modelos e produtos com todas as classes sociais.” Pesa também o fato de que durante a década passada o país teve um avanço considerável na base de sustentação que leva à inovação tecnológica. Empresas investiram mais em pesquisa e desenvolvimento (a verba aumentou de 1,1 bilhão de reais em 1993 para 2,4 bilhões em 1999, segundo a Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras, Anpei). Doutores tiraram diplomas em número recorde (foram 5,3 mil apenas no ano passado). Incubadoras foram criadas em profusão (de duas em 1988 para 135 em 2000) e cresceu o número de patentes registradas (de 11711 em 1995 para 16569 em 1999).

“Apesar dos bons resultados, ainda é difícil transferir tecnologia das universidades para as empresas”, diz José Alberto Aranha, diretor do Instituto Gênesis, incubadora onde funciona a Papel Virtual. “Quanto mais eficiente essa troca, melhores são os resultados de inovação.” Basta ver os dados de um relatório encomendado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) ao BankBoston. Chamado de “O Impacto da Inovação”, o estudo descobriu que nos últimos 50 anos os alunos da instituição, famosa no mundo inteiro pela vanguarda tecnológica, fundaram 4mil empresas nos 50 estados americanos. Apenas em 1994, aponta o estudo, empregavam 1,1 milhão de pessoas e faturaram 232 bilhões de dólares. Mais: no artigo “Empreendedorismo para o Século 21”, os autores americanos Jeffrey Timmons e Richard Irwin descobriram que empresas empreendedoras americanas criaram 77% dos 34 milhões de novos empregos desde 1980 e 95% das inovações radicais desde a Segunda Guerra Mundial.

Multiplicação de empregos

Pesquisadores e engenheiros são os mais beneficiados pela geração de renda e emprego promovida pela inovação. Nos países mais desenvolvidos, as empresas empregam de 50% a 80% desses profissionais. Do total de empregos formais, eles ocupam de 5% a 12% das vagas. Avaliação da Anpei constatou que o mesmo não acontece no Brasil. No mercado formal, esses profissionais (mais de 150mil) ocupam apenas 0,7% dos empregos. Ao destinar mais dinheiro para pesquisa e desenvolvimento, as empresas devem fazer esse número se multiplicar.

Veja o exemplo da Ericsson. Hoje, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa, em Indaiatuba, interior de São Paulo, emprega 550 pessoas. Até o ano passado, eram 140. A companhia investiu 31 milhões de reais em 29 projetos com 11 universidades. “A mola mestra é a lei da informática”, diz Fernando Aragão, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Ericsson. A nova versão da lei diz que as empresas devem investir 5% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento se quiserem isenção do IPI. Além disso, há o projeto dos fundos setoriais (para 14 áreas diferentes), que deve injetar cerca de 1 bilhão de reais ao ano, praticamente dobrando o total financiado no país. O dinheiro arrecadado será destinado a universidades, institutos e centros de pesquisa.

“Na Índia, onde falta energia elétrica, as empresas de software têm garantia de que não sofrerão cortes e só pagam 25% do que consomem”, diz Silvio Meira, presidente do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), ONG que faz a ponte entre a Universidade Federal de Pernambuco e o mercado. “Hoje, a Índia é um dos grandes produtores mundiais de software.” O país chega a exportar 6 bilhões de dólares por ano nessa área. Bancar projetos de inovação foi uma das maneiras que governos de países como Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura encontraram para dar a virada que os projetou como tigres asiáticos. “No ano passado, o governo brasileiro destinou para pesquisa e desenvolvimento o mesmo que os países asiáticos na proporção do PIB”, diz Moura Castro. “A diferença é que lá as empresas investem muito mais que os governos.”

Em 1998, a iniciativa privada financiou mais da metade das inovações em países como Estados Unidos, Japão e Alemanha, segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). No Brasil, em 1999, essa taxa era de 35,7%. Aos poucos, esse quadro começa a mudar. Foi o que constatou o anuário Info 200, guia das maiores empresas de tecnologia do Brasil, da Editora Abril. Em 2000, a verba de pesquisa (270,4 milhões de dólares) das 20 empresas que mais investiram foi 60% maior que no ano anterior.

Tradição de cópia

O maior problema no Brasil é romper com a tradição de uma cultura arraigada de cópia. “Na década de 70, a oportunidade industrial era vista como uma maneira de substituir importações”, diz José Miguel Chaddad, diretor executivo da Anpei. “Além de quebrar essa visão, as pessoas precisam entender que a inovação em tecnologia se aplica a qualquer atividade industrial. Não é apenas coisa para a Nasa.” O setor de informática foi um dos primeiros a notar os benefícios. Segundo o Ministério de Ciência e Tecnologia, há 2,5 mil empresas na área de software no país. O Brasil exportou 100 milhões de dólares em programas de computador neste ano e espera atingir 250 milhões em 2002.

Um dos centros de excelência em software no país é Pernambuco. É lá que funciona o Cesar, a ONG que ajudou a tornar a capital pernambucana um referencial em software. Focado em inovação, o Cesar saltou de um faturamento de 50mil reais em 1996 para 12,5 milhões de reais no ano passado. A idéia do empresário pernambucano Luiz Malheiros, graduado em geoprocessamento pela UFPE, é um bom caso de inovação. Malheiros aproveitou o curso de MBA para desenvolver um novo sistema de logística, semelhante ao GPS – só que bem mais barato. Quando terminou o curso, deixou o emprego para criar a Geosoluções. A Ultragás já colhe os frutos da implantação dos aparelhos em seus caminhões. Cada unidade custa cerca de 800 dólares, contra os 4mil cobrados pelo GPS. “A maior vantagem é fornecer um preço competitivo à iniciativa privada”, diz Malheiros. Ele também fornece aos clientes um software de geoprocessamento de sua autoria por 500 dólares. “Esse programa pode custar até 27mil dólares no mercado.” Com o software e um identificador de chamadas telefônicas instalados, a Ultragás descobre imediatamente quem é, onde está o cliente e qual caminhão pode entregar mais rápido o gás. As vendas por telefone aumentaram de 15% para 33% do total. A Geosoluções, inaugurada em fevereiro, deve faturar 500mil reais neste ano.

Inovações como as empresas Papel Virtual, de Adour, e a Geosoluções, de Malheiros, não têm fronteiras para prosperar, assim como as idéias revolucionárias dentro das empresas. A inovação, por estar ligada a uma atitude empreendedora, de quebrar conceitos, pode tanto acontecer em uma pequena empresa quanto em uma grande. Depende de você.