Trabalho de gente grande

Os brasileiros nunca produziram tanta animação. Os trabalhos já conquistam o mundo

São Paulo – Há cerca de 15 anos, as técnicas de animação no Brasil ficavam restritas às agências de publicidade. O cenário começou a mudar em 1992, quando um grupo de amigos, encabeçado pela mineira Aída Queiroz, de 50 anos, resolveu criar um festival que pudesse trazer trabalhos inspiradores de fora do país.

Surgiu o AnimaMundi, que contou com a ajuda do Itamaraty para trazer obras estrangeiras para exibição. “Não recebíamos inscrição. Tínhamos que implorar para que eles viessem”, diz Aída.

Mal sabia ela que, alguns anos depois, a iniciativa alçaria o país à vitrine mundial. O Brasil já é a nação com mais obras inscritas no festival, considerado um dos três maiores do mundo. Neste ano, foram 452 trabalhos selecionados, dos quais 108 são brasileiros. Nos 18 anos de história, o AnimaMundi já exibiu 5 927 filmes e atraiu 1 milhão de espectadores.

“Temos dez longas sendo produzidos no país para serem lançados no circuito comercial no ano que vem. Ou seja, vamos precisar cada vez mais de profissionais”, diz Aída. 

O diretor Marcelo de Moura, de 42 anos, sócio-fundador do estúdio Lightstar e da escola de animação ArtAcademia, também assistiu à transformação do mercado brasileiro. Formado em propaganda e marketing, trabalhou nos estúdios Walt Disney, em produções como Mulan e Pocahontas.

“Queria voltar para o Brasil e trazer produções estrangeiras e sabia que, para isso, eu teria que abrir uma escola para formar gente”, afirma. Quando voltou, em 2004, tinha 15 alunos. Hoje, conta com uma turma de 100 e já formou cerca de 250. Com equipe montada, produziu em seu estúdio, em Santos (São Paulo) 45 minutos dos 70 do longa europeu O Segredo de Kells, indicado ao Oscar de melhor animação em 2010. 


Outro exemplo de sucesso é o Peixonauta, série produzida pela TV Pinguim, de São Paulo, e idealizada por Célia Catunda, de 42 anos, que é exibida pela Discovery Kids na America Latina. “Já vendemos o seriado para 65 países”, diz. A produção que custou 6 milhões de reais já é a mais assistida da TV a cabo.

Minhocas à vista

O estúdio Animaking, de Santa Catarina, também pretende colocar o Brasil em posição de destaque. Há quatro anos produz o primeiro longa de animação em stop-motion do país, o Minhocas. Uma produção de 10 milhões de reais feita a mão. “Queremos competir com filmes estrangeiros”, conta o diretor Arthur Nunes, de 34 anos.

O filme será lançado em língua inglesa em meados de 2011. “São 24 cliques de câmera para cada segundo. Fazemos 2 segundos por dia. Mas já estamos na metade”, conta.