Trabalhe no 'seu projeto' para o futuro

Quais são suas prioridades? O que você quer ser em cinco anos? Aprenda, passo a passo, a fazer o projeto da sua vida

Marca Você, Empregabilidade, A Empresa é Você. Nos anos 90, estas expressões anunciaram a chegada de um profissional desprendido, meio nômade, que muda de empresa em razão de novos projetos e desafios. Na teoria, parece perfeito. Afinal, quem não gostaria de pautar sua trajetória no trabalho por seus desejos pessoais? Na prática, porém, as coisas são um pouco mais complicadas, porque exigem que você assuma de vez as rédeas de sua carreira.

Acontece que não é possível cuidar da carreira sem se preocupar com sua vida como um todo. Isso é óbvio, mas é justamente nesse ponto que muita gente se atrapalha. As pessoas costumam pensar trabalho e vida pessoal como se fossem duas coisas distintas, quando, na verdade, não são. Em outras palavras, mais que um projeto profissional, você precisa de um projeto de vida. Exatamente como ocorre no trabalho, sua vida é um projeto, pois começa, termina e é única. Ela consiste numa série de fases inter-relacionadas, possui limitações de custo e de tempo e tem na qualidade um parâmetro altamente desejável. E, como os projetos corporativos, seu projeto é único, não se repete. Quer motivo melhor para planejar tudo com o maior cuidado?

Pense em sua vida como um projeto integrado, que envolve trabalho e família, suas atividades e vontades, o que você já fez e o que ainda deseja realizar. Seu projeto pessoal precisa de metodologia, revisão constante e flexibilidade para incorporar os ajustes que se tornam necessários com o tempo. E as analogias com o mundo corporativo não param por aí: para montar seu projeto, minha sugestão é que você use uma metodologia adotada em grandes empresas. Estou falando do Guide to the PMBOK — Project Management Body of Knowledge (em português, seria algo como guia ao universo de conhecimento em gerência de projetos), publicação do Project Management Institute (PMI), organização internacional sediada na Pensilvânia, Estados Unidos. Trata-se da bíblia da gestão de projetos das grandes corporações. Seguindo as orientações do PMBOK, é possível gerenciar o Projeto Você e manter o controle de seu rumo independentemente de tempos turbulentos.

PASSO 1: descubra quem é voc

No seu projeto de vida, o recurso humano vital é você mesmo. Por isso, saber quem você é marca o ponto de partida. Claro que isso não é uma tarefa fácil, mas as perguntas a seguir podem ajudá-lo a fazer essa reflexão:

  • Quais são meus valores básicos?
  • Quais são meus pontos fortes?
  • No que preciso melhorar?
  • Quais as oportunidades que poderei aproveitar?
  • O que ameaça meus planos?
  • Quanto de meu tempo vivo no passado, remoendo ou analisando fatos que já ocorreram?
  • Da mesma maneira, quanto de meu tempo me dedico a pensar no futuro, sonhando, imaginando, esperando e planejando?
  • E quanto ao presente?

    PASSO 2: coloque sua missão no papel

    Além de saber quem você é, conhecer o porquê de sua vida é outro ponto fundamental na construção de seu projeto. Se a visualização de seu sonho pessoal é cristalina, otimista e motivadora, ela facilmente se traduzirá numa missão pessoal que o lançará em direção às suas metas. Por outro lado, se a imagem é nebulosa e vaga, é provável que sua missão pessoal fique confusa, bloqueando assim o caminho para você conseguir o que deseja. Veja a seguir um exemplo feliz de missão pessoal — leia e inspire-se para fazer a sua.

    Minha missão é viver em paz e gerar prosperidade espiritual e material para mim, meus filhos, minha família, meus colegas de trabalho e as pessoas ao meu redor, por meio do bom exemplo, do comportamento amoroso e centrado e da busca de excelência profissional e pessoal.

    PASSO 3: faça parcerias

    Não se iluda achando que será possível cumprir sozinho sua missão pessoal. Exatamente como acontece nas empresas, você também precisa de quem o apóie — na linguagem corporativa, é o que se chama de stakeholders. Na vida, os principais são os stakeholders campeões — pais, parentes, chefes e parceiros, pessoas que o influenciam muito. O segundo tipo de parceiro é o stakeholder participante. Ao longo da vida, você fará parte de inúmeras equipes, formadas pelos amigos de infância, pelos pares de uma associação ou por colegas de trabalho. Finalmente, vêm os stakeholders terceiros, aqueles que são contratados para apoiar sua causa. O corretor de imóveis, que vai ajudá-lo a realizar o sonho de compra da casa própria, é um deles.

    Seu sucesso depende da qualidade de suas interações com os stakeholders. Para gerenciar plenamente esses contatos, liste todas as pessoas que o influenciam hoje e que poderão fazê-lo no futuro. Ao lado dos nomes, relacione ações concretas para aproveitar melhor esses contatos. Lembre-se de colocar datas para realizar as ações e de fazer uma revisão trimestral do plano de gerenciamento dos stakeholders.

    PASSO 4: crie uma visão para sua vida

    Agora que você já sabe quem você é, qual é sua missão e quem pode ajudá-lo a cumpri-la, é hora de estabelecer que metas você pretende atingir em determinado período de tempo. Essa é sua visão de futuro, que pode ser escrita em uma frase ou, no máximo, em um parágrafo. Trata-se de um projeto de longo prazo que merece pelo menos quatro abordagens diferentes.

  • 1. Inicie com a visão de curto prazo fazendo projeções para daqui a três anos.
  • 2. A visão de médio prazo ou dos próximos dez anos assegura continuidade e ajuda a visualizar o caminho a ser percorrido mais adiante.
  • 3. A perspectiva de longo prazo, que vai até a aposentadoria, fornece a visão global de realizações a ser alcançadas.
  • 4. Por fim, pense nos anos dourados. Afinal, você também precisa viver bem essa etapa de sua vida.

    Nenhum desses planos, no entanto, é definitivo. As circunstâncias da vida mudam. Logo, é necessário fazer uma revisão anual das quatro visões. O que você precisa fazer para atingir os objetivos que definiu? Desmembre sua vida em grandes blocos, como família, saúde e lazer (qualidade de vida), educação e desenvolvimento profissional, carreira e finanças pessoais. Outra divisão é corpo, mente, espírito e coração. Cada um dos blocos deve ser subdividido em itens menores até um nível de detalhamento suficiente para desenvolver um plano de ação.

    PASSO 5: gerencie o tempo

    Algumas pessoas lidam naturalmente com o fator tempo. Outras, não. Um bom jeito de melhorar a utilização desse recurso escasso é a matriz do tempo. Ela ajuda a diferenciar os assuntos importantes dos urgentes. Importantes são aqueles projetos que têm influência direta sobre os resultados que você quer atingir. Os urgentes se caracterizam por premência temporal, mas não têm necessariamente importância. As crises acontecem quando um assunto é, ao mesmo tempo, importante e urgente. No trabalho, seria o equivalente a atrasar uma entrega para seu principal cliente.

    Existem, porém, situações que exigem planejamento e controle: são importantes, mas não carregam a bandeira vermelha da urgência, caso do desenvolvimento pessoal e profissional. Outros assuntos não são importantes, mas são urgentes. Telefonemas e e-mails são alguns. Por fim, há as que desperdiçam tempo e não são nem importantes nem urgentes: a mania de perfeição é uma delas.

    Em geral, ficamos presos às crises, enquanto o planejamento é sugado pelas trivialidades e desperdícios. Isso acaba produzindo mais crises. A solução para quebrar esse ciclo é se concentrar nos assuntos importantes, o que tenderá a atenuar os efeitos dos estranguladores do tempo. Primeiro, planeje o seu tempo e, depois, o trabalho. Organize seu dia em blocos e estabeleça prioridades. Imagine outra forma de lidar com assuntos de menor importância: delegue, reorganize, elimine ou simplesmente deixe para fazer depois. Enfim, não adianta tentar fazer o tempo se expandir, porque isso não vai acontecer. O melhor é aprender a gerenciá-lo.

    PASSO 6: administre suas finanças

    Relacione os aspectos financeiros de sua vida em períodos de cinco anos — são as metas macro. Depois, separe tudo em orçamentos detalhados anuais, as metas específicas. Esse trabalho inclui planejamento, estimativa, orçamento e controle:

  • Determine que recursos (monetário, humano, material, intelectual) serão necessários para cada conjunto de atividades de sua vida.
  • Estime os custos de cada grupo de atividades e estabeleça um plano para administrar os gastos.
  • Faça o orçamento levando em conta seu plano de vida e as eventualidades que possam aparecer. Portanto, é aconselhável orçar para cima uma porcentagem contingencial de 10% a 20%.
  • Controle os custos rastreando os gastos e comparando-os às previsões de seu orçamento. O segredo é fazer mensalmente a previsão do fluxo de caixa para os próximos três meses e segui-la à risca. Se há déficit entre o que você pretende gastar no futuro e o que ganha agora, é necessário gerar receita adicional. Aí, as alternativas podem ser abrir um negócio, ter um segundo emprego ou fazer investimentos, por exemplo.

    PASSO 7: conte com os riscos

    Na vida particular, assim como nos projetos corporativos, os riscos existem e precisam ser gerenciados. Para isso, adote o modelo usado nas grandes empresas e comece identificando os riscos e tentando prever de onde eles podem vir. Há riscos relacionados à saúde, a questões financeiras, a catástrofes de força maior, entre outros. Tenha em mente os riscos que podem afetar você e desenvolva respostas adequadas a eles. Adquirir um bom plano de saúde e apólices de seguro é um bom jeito de lidar com essas ameaças. Só não se esqueça de reavaliar suas apólices de tempos em tempos. Afinal, como diz o ditado: o seguro morreu de velho.

    PASSO 8: junte todas as peças

    Os fundamentos para gerenciar seu projeto de vida você já viu. Agora, é preciso fazer com que todas as áreas sejam gerenciadas ao mesmo tempo. Um deslize em uma delas é suficiente para iniciar um efeito dominó nas outras. Tanto nos projetos corporativos como na vida existe uma conexão íntima entre todas as áreas. Comece juntando as partes do Projeto Você num único documento. Siga os planos traçados, usando ferramentas como agendas eletrônicas ou computadores de mão para conseguir se organizar melhor. E, já que as mudanças são inevitáveis, trate de fazer planos que tenham elasticidade suficiente para ser alterados. Por fim, não se esqueça de que nenhum projeto de vida vale a pena se não tiver qualidade. Em outras palavras: você tem obrigação de ser feliz .

    Técnica relâmpago para escrever sua visão

    Em menos de 15 minutos, você pode escrever sua visão de vida. O documento deve responder aonde você quer chegar em determinado período. Use um despertador para se manter no horário estipulado (a pressão do tempo faz parte do processo). Procure um lugar tranqüilo onde não será interrompido:

  • Reflita sobre sua missão (1 minuto): o que você quer fazer na vida e como isso afetará sua visão? Caso ainda não tenha escrito sua missão, escreva-a agora, em 2 minutos, sem se preocupar em aperfeiçoar o texto.
  • Visão de seis meses (2 minutos): pense livremente e anote telegraficamente o que gostaria de alcançar nesse período. No fim, em 1 minuto adicional, faça uma revisão nas anotações para não haver dúvidas no futuro.
  • Visão de dois anos (2 minutos): faça o mesmo exercício para dois anos. Assinale a data final do período. Anote seus pensamentos, sem censurá-los, sobre o que gostaria de realizar nesses dois anos.
  • Por último, revise as anotações.
  • Visão de sete anos (2 minutos): faça o mesmo exercício de antes pensando em tudo o que gostaria de realizar até o final de sete anos.
  • Depois, revise as anotações.
  • Revise todas as anotações nos 2 minutos finais.

    Guarde-as em lugar seguro.

    Após três semanas, faça uma revisão geral. Finalize a redação e passe a usar esses planos como “pano de fundo” para o projeto de sua vida.