Tenha fé

As empresas estão descobrindo que o estímulo à espiritualidade dos funcionários pode se transformar

Todos os dias, quando chega ao trabalho, em São Paulo, o consultor Gutemberg B. de Macedo percorre os quatro cantos do escritório ainda vazio. Em silêncio, reza e pede a Deus que o ajude na missão de orientar executivos na busca de uma recolocação no mercado. No fim do expediente, quando todos já se foram, ele volta a caminhar pela empresa. Agradece por mais um dia e faz um pedido especial: que aqueles talentos que passaram pelo seu programa de outplacement consigam encontrar rapidamente o emprego de que necessitam. “Isso aqui é o meu ministério”, diz. “Você não consegue manter o ânimo de um profissional que acabou de ser demitido apenas com teoria gerencial. É preciso oferecer um suporte espiritual às pessoas para que saiam da minha sala melhor do que quando entraram.”

Macedo é formado em direito, mas o diploma de que mais se orgulha ter conquistado é o de Master of Divinity, mestrado em teologia concluído em 1971 no Seminário Teológico da Fé, na Filadélfia, Estados Unidos. Ele, no entanto, não faz pregações no dia-a-dia. Sua verdadeira filosofia de vida é agir no trabalho de acordo com os valores que sua religião professa: respeitar as pessoas, contribuir para o desenvolvimento profissional delas, ajudar as que necessitam de apoio. “Aqui não se fala em religião, mas em princípios”, afirma. O consultor acredita que seja importante todos os profissionais prestarem atenção no tema. E a razão é simples: as empresas estão cada vez mais buscando gente espiritualizada. É claro que uma sólida formação acadêmica é fundamental, mas para algumas companhias apenas isso já não basta. Elas querem que seus funcionários tenham também preceitos morais sólidos, desejo de servir ao próximo, obstinação em liderar equipes com justiça e vontade de transformar a organização num ambiente agradável e fraterno. Em resumo: querem indivíduos que busquem no trabalho um sentido maior e mais profundo do que simplesmente um meio de sobrevivência.

Para o consultor Alkíndar de Oliveira, diretor executivo da Escola de Líderes e autor do livro Espiritualidade na Empresa (Butterfly Negócios, 140 páginas, R$ 20,00), as empresas só têm a ganhar agindo dessa forma. Segundo ele, não há dúvida de que os funcionários espiritualizados são mais produtivos que os outros. Para defender sua tese, ele lembra o resultado da pesquisa feita pelo Laboratório Bell, nos Estados Unidos, citada por Daniel Goleman em seu livro Inteligência Emocional. De acordo com o levantamento, os funcionários mais produtivos não eram os mais inteligentes ou os que possuíam currículos brilhantes, mas aqueles que exibiam maior capacidade de se relacionar com os outros e de não sucumbir a conflitos ou crises. “Essas qualidades tendem a estar presentes nas pessoas mais espiritualizadas”, afirma Oliveira.

Falar em espiritualidade dentro das organizações pode parecer absurdo à primeira vista. Afinal, todos dentro de uma organização têm o compromisso de gerar lucro — e não há nada mais terreno do que isso. Mas, para alguns especialistas no assunto, a questão é que atingir esse objetivo pode ser extremamente mais difícil sem a espiritualização das pessoas. O rabino Nilton Bonder, autor do livro Fronteiras da Inteligência – A Sabedoria da Espiritualidade (Editora Campus, 200 páginas, R$ 26,00), vai mais longe. Para ele, investir na espiritualidade é uma questão de sobrevivência. Bonder é líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil e graduado em engenharia mecânica pela Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Nos últimos anos, tem viajado pelo mundo fazendo palestras em grandes corporações. O curioso é que os convites para esses eventos são quase sempre vagos, pois as organizações não conseguem definir com exatidão o que realmente desejam de um líder espiritual como ele. Mas elas sabem, segundo o rabino, que precisam de ajuda. Sentem que seus funcionários não estão interessados apenas em valores materiais e que buscam um sentido maior para a vida. De uma hora para a outra eles começaram a se questionar: para que, afinal, trabalhar 12 ou até 14 horas por dia? Vale a pena sacrificar a família pela empresa? Aonde essa correria vai levá-los?

É importante ressaltar que a espiritualidade não deve ser encarada como religiosidade, mas como uma ação provocada por ela. Uma das melhores definições é a apresentada por Leonardo Boff em seu mais novo livro, Espiritualidade – Um Caminho de Transformação (Editora Sextante, 96 páginas, R$ 19,90): “A espiritualidade não é monopólio das religiões. É uma dimensão de cada ser humano. Essa dimensão espiritual que cada um de nós tem se revela pela capacidade de diálogo consigo mesmo, se traduz no amor, na sensibilidade, na compaixão, na escuta do outro, na responsabilidade e no cuidado como atitude fundamental. É alimentar um sentido profundo de valores pelos quais vale sacrificar tempo, energia e, no limite, a própria vida”.

Inúmeras empresas nos Estados Unidos já tratam do tema com naturalidade. Na Service Master Industries, por exemplo, a diretoria definiu, por ordem de importância, seus quatro princípios básicos, e os divulgou por toda a companhia: honrar a Deus em tudo o que fizerem, ajudar as pessoas a se desenvolver, perseguir a excelência e, por último, aumentar a lucratividade. “A companhia americana percebeu que era preciso promover uma inversão de valores”, afirma o consultor Alkíndar de Oliveira. “Antes, as empresas colocavam em primeiro lugar os acionistas, depois os clientes e por fim os funcionários. Hoje, elas estão descobrindo que é mais fácil satisfazer acionistas e clientes se os funcionários estiverem em primeiro lugar.” É claro que, embora distintas, espiritualidade e religiosidade andam muito próximas — algumas vezes até de mãos dadas. Na Companhia Energética Santa Elisa, sediada em Sertãozinho, em São Paulo, elas se confundem. A empresa construiu uma capela em suas dependências para realizar missas, batizados e até casamentos. No início e no fim da safra de cana-de-açúcar, um padre percorre as instalações e benze maquinários e funcionários, que também podem recorrer ao atendimento espiritual durante todo o ano. Vários deles participam de grupos de orações dentro da companhia. “Respeitamos todas as religiões e estimulamos as pessoas a ter f”, afirma Rosmary Delboni Ortolan, diretora de recursos humanos. “Só pessoas felizes trabalham bem.”

Na Superbom, tradicional empresa de alimentos, com fábricas em São Paulo e em Santa Catarina, os funcionários se reúnem às 7 horas da manhã diariamente para a leitura de um texto religioso. Durante 15 minutos, no horário de expediente, eles meditam sobre o que acabaram de ouvir. O diretor-geral, Itamar de Paula Marques, está sempre presente. “O resultado é um clima interno muito bom”, diz Jair Helfenstens, gerente de recursos humanos. “Há também uma equipe de evangelização que utiliza nossas instalações e oferece apoio espiritual e estudos bíblicos aos interessados.” Os funcionários, se desejarem, podem receber a visita desses colegas em casa. A Superbom, que pertence à Igreja Adventista do Sétimo Dia, promove ainda, anualmente, a Semana da Oração, quando, durante uma hora por dia, são realizados trabalhos e estudos religiosos.

Não é preciso, no entanto, acreditar necessariamente em Deus para que uma pessoa seja considerada espiritualizada. É uma questão de atitude. “Conheço ateus mais espiritualizados que pessoas religiosas que propagam sua crença a todo momento”, diz a escritora Rosa Maria Jaques, autora do livro Paranormalidade – O Elo Perdido (editora Ground, 174 páginas, R$ 18,00). Rosa já fez palestras sobre o tema no Congresso Nacional e até na Universidade de Brasília. “Inúmeras pessoas falam em igualdade, só que no cotidiano discriminam e humilham os colegas. Indivíduos espiritualizados não praticam atos contraditórios como esses, pois são sempre justos e equilibrados.”

Por onde começar

Transformar uma empresa tradicional numa organização espiritualizada é um processo longo, que deve ser conduzido com muito cuidado para evitar interpretações erradas. Segundo o consultor Alkíndar de Oliveira, o processo pode ser iniciado pela própria empresa ou por funcionários interessados em mudar o ambiente de trabalho. É preciso, no entanto, seguir algumas etapas. Confira:

Deixar claro que o objetivo não é discutir religiosidade.
Dar tratamento especial às pessoas mais simples e atender às suas necessidades sociais. Isso chamará a atenção e promoverá uma mudança cultural dentro da organização.
O projeto deve ter uma clara preocupação social.
Atender às necessidades da comunidade local. (criação de creches, doações para instituições de caridade, adoção de uma escola pública).