Belo Horizonte é um sucesso econômico, uai!

BH continua crescendo e é uma das cidades que mais geram empregos no país. O segredo está em conciliar o investimento na velha indústria com o forte incentivo à inovação e à indústria de tecnologia

São Paulo – A discrição mineira, consagrada na expressão “mineiro come quieto”, esconde o bom desempenho da capital de Minas Gerais nos últimos anos.

A região metropolitana de Belo Horizonte apresenta o menor índice de desemprego do país desde 2007, pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), e a segunda menor taxa de desocupação da Pesquisa Mensal de Emprego, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 2004.

Minas Gerais é o terceiro maior Produto Interno Bruto do Brasil, superado apenas pelos estados de São Paulo e Rio de Janeiro — embora de acordo com um importante indicador de capacidade econômica, a arrecadação de ICMS de Minas supera a do Rio de Janeiro na classificação nacional.

Belo Horizonte, a capital mineira, que tem pouco mais de 5,5 milhões de habitantes, passa por uma transformação silenciosa. A locomotiva dessa mudança é a diversificação econômica, que tem atraído investimentos para diferentes setores da economia local, impulsionada por uma série de políticas bem-sucedidas de cooperação entre as três esferas de governo — federal, estadual e municipal — nos últimos 20 anos.

Essa diversificação de investimentos é sustentada por importantes centros de ensino e pesquisa, berço de novos negócios e gente muito bem capacitada, que estão sediados na capital mineira e em seus arredores. 

Ao lado das tradicionais indústrias mineradora, siderúrgica e automotiva, a cidade vive um boom de incentivo a setores de base tecnológica, que engloba, principalmente, a criação de empresas de tecnologia de informação, biotecnologia e aeronáutica. Essa última, impulsionada pela ida do centro de tecnologia e capacitação aeronáutica da Embraer para o município vizinho de Lagoa Santa.

O início da operação está previsto para 2015. O mais recente exemplo da parceria entre conhecimento aplicado e investimento público foi a criação do parque tecnológico BH-Tec, em que pequenas companhias de tecnologia são estimuladas a trocar conhecimento com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o objetivo de se tornar grandes centros de inovação.

A UFMG é a maior formadora de engenheiros do país, com 1 010 vagas distribuídas em nove cursos. O primeiro dos 15 prédios do BH-Tec, previstos até 2022, foi inaugurado em maio deste ano. Até o mês passado, 13 de 16 empresas já estavam instaladas no novo edifício. Uma fila de mais 72 companhias está na lista de espera dos demais prédios.

“Muitas dessas empresas nasceram de projetos da universidade e por isso estamos estrategicamente ao lado dela, exatamente para facilitar a troca de informações e a inovação entre elas e o campus”, diz o professor Ronaldo Pena, diretor-presidente do BH-Tec e ex-reitor da UFMG. 

Mesmo não sendo pequeno, o centro de engenharia e tecnologia da Embraer ocupa temporariamente um dos andares do parque. Lá trabalham 35 engenheiros, e deverão chegar a 100 em 2013, com engenheiros aeronáuticos, mecânicos, eletrônicos e analistas com formação em computação.

No mesmo ambiente de inovação está sediada a Ecovec, uma pequena empresa de biotecnologia de apenas 15 funcionários, que projetou uma armadilha para captura do mosquito da dengue e um aplicativo que gera dados para o monitoramento de insetos infectados.


A capital mineira é considerada um dos maiores polos de biotecnologia do país, com mais de 70 companhias. Criada em 2002, a Ecovec já vende seus produtos para algumas prefeituras do Brasil e exporta para Havaí, Cingapura e Ilha da Madeira.

A empresa deve contratar mais cinco biólogos e biomédicos até o fim do ano. “Nós conseguimos provar que cada real investido na armadilha gera 11 reais de economia com gastos hospitalares e abstinência no trabalho”, afirma Cecília Marques Toledo, gerente de atendimento. 

Outra empresa que divide um dos andares do BH-Tec é a Samba Tech, que em 2009 recebeu 5 milhões de reais de um fundo de venture capital, que investe em negócios nascentes, para desenvolver uma tecnologia com a ajuda do Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos.

Hoje, ela é líder na América Latina de software de vídeos online para diferentes formatos da internet. “Estamos criando uma cultura parecida com a do Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Por isso, optamos por transferir nossa sede para o parque tecnológico a fim de trocar ideias em um ambiente que respira inovação”, diz Gustavo Caetano, fundador da Samba Tech, que vai contratar 50 profissionais ainda este ano em marketing, vendas, finanças, RH, programação e desenvolvimento de software.

Gustavo também é presidente da Associação Brasileira de Startups, criada há pouco mais de um ano com base em uma iniciativa local e que já conta com 1 400 membros no país.

Somente em Belo Horizonte são 105 startups de base tecnológica com menos de três anos de vida. “Nossa preocupação é colaborar e não competir para que possamos desenvolver gente com perfil empreendedor, pois sem estímulo à inovação não há profissionais nem mercado”, diz Gustavo. 

Inspiração

Exemplos para se inspirar não faltam. O mais célebre é o caso do professor Berthier Ribeiro-Neto, do departamento de ciência da computação da UFMG, que, por meio de um projeto de pesquisa com outros colegas e alunos, criou, em 2000, o site de buscas Akwan, comprado em 2005 pelo Google para ser seu centro de pesquisa e desenvolvimento na América Latina, o principal das Américas depois da sede nos Estados Unidos.

Além de continuar ensinando na pós-graduação o curso de tecnologias de buscas e introdução a sistemas de informação, Berthier dirige um time de 100 engenheiros que trabalham em ferramentas estratégicas globais do Google.

Berthier reconhece que existe um boom de TI e biotecnologia em Belo Horizonte, mas diz que gostaria de ver mais pesquisas baseadas em conhecimento profundo sendo feitas na capital mineira e no Brasil. “Quanto mais denso for esse conhecimento, mais tempo levará para outros copiarem. É preciso ficar mais na universidade, pesquisando e se especializando”, afirma. 


Outros casos de sucesso à mineira também vêm de fora da universidade. É o caso da MXT, a primeira do país a desenvolver e produzir modem com tecnologia GSM, a mesma dos chips de celulares, e o tablet para uso em aplicações industriais e em atividades de campo. A Polícia Militar de São Paulo comprou 11 000 deles em 2011.

A MXT tem 230 funcionários, mantém escritório em Belo Horizonte e fábrica em Betim, a 30 quilômetros de distância da capital mineira, com 60 engenheiros. “Nos últimos cinco anos, os investimentos dos governos para viabilizar essa indústria e a sensibilização quanto à necessidade de qualificação da gestão das empresas têm aumentado”, diz Gustavo Travassos, presidente da MXT. 

Os investimentos na indústria de tecnologia motivaram o centro de pesquisa suíço CSEM a escolher Belo Horizonte para implantar sua filial brasileira, especializada em micro e nano tecnologias.

“Aqui encontramos a visão mais avançada e diferenciada do ponto de vista jurídico de incentivo ao mercado de alta tecnologia”, diz Tiago Alves, diretor-presidente do CSEM Brasil. O centro desenvolve produtos de eletrônica orgânica impressa, que são dispositivos eletrônicos leves e flexíveis impressos em papel.

“A gente está participando da comitiva de frente, que tem perspectivas mundiais imensas nessa área da eletrônica”, diz Tiago. Com 20 profissionais, o centro vai dobrar de tamanho em 12 meses e contratar gestores com experiência no exterior e especialistas com vivência  acadêmica e industrial. A busca será de engenheiros de microssistemas, de materiais e de eletrônica, além de físicos e químicos.

Sustentabilidade

É nesse ambiente de estímulo à inovação e diversificação que a Precon Engenharia apostou em um novo método na construção civil, com a fabricação industrializada de empreendimentos residenciais pré-moldados, e se tornou a primeira construtora do país a receber o selo azul de sustentabilidade da Caixa Econômica Federal.

O selo avalia 53 critérios do empreendimento em relação a qualidade urbana, projeto e conforto, eficiência energética, conservação de recursos materiais, gestão da água e práticas sociais.

“Desenvolvemos um sistema que nos dá vantagem competitiva, que gera 80% menos entulho que uma obra tradicional e que corta pela metade o tempo de entrega do imóvel”, diz Marcelo Miranda, presidente da Precon Engenharia.

O processo de fabricação e construção se assemelha ao de um Lego, jogo de encaixe de peças, em que as paredes e escadas, vindas da fábrica, são montadas entre estacas e vigas de concreto para edifícios de quatro e oito andares. O método foi desenvolvido para o programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. Cada andar tem quatro apartamentos de dois quartos cada. 

São exemplos como esses que deixam claro que é possível garantir a geração de empregos com uma gestão mais eficiente e um ganho de valor agregado real de alto desempenho para toda uma cidade e uma região.