Sozinha, Ellen Pao luta contra o sexismo do Vale do Silício

Após perder processo milionário por discriminação de gênero, ela está lançando um livro que faz as mulheres olharem para suas histórias de maneira diferente

Todos os dias, Ellen Pao recebe mensagens de apoio de vários lugares. Elas são mandadas para seu escritório, por meio de seus advogados, por e-mail, pelo LinkedIn e em cartões postais que mantêm em uma pequena caixa sobre a mesa.

“Obrigada por abrir o caminho para as mulheres”, escreveu alguém da Flórida. “Obrigada por ter dado o alerta no Vale do Silício. Você foi pioneira”, lê-se em outra mensagem.

Ela recebeu mensagens de AJ Vandermeyden, antiga engenheira da Tesla que está processando a empresa por discriminação de gênero, de Susan Fowler, cujo post no blog sobre seu emprego no Uber derrubou o CEO da empresa, e de Niniane Wang, cujo assédio sexual, sofrido de um importante investidor, levou à demissão dele e de vários outros. E há as mulheres que a param na porta da escola ou nas escadarias para contar suas próprias histórias de terror corporativo.

“Algumas vezes, as pessoas só querem que você diga que vão sair dessa; em outras, querem conselhos específicos. Geralmente é duro porque sua conexão com elas é por meio de algo muito desagradável, mas você passou por uma coisa que realmente todo mundo”, explicou ela.

Em 2012, Pao, de 47 anos, que foi sócia júnior de uma firma de capital de risco e CEO interina do Reddit, entrou com um processo por discriminação de gênero contra seu empregador na época, a poderosa empresa de capital de risco Kleiner Perkins Caufield & Byers. Em um caso que cativou o Vale do Silício, ela acusou os chefes de não a promover por ser mulher e de retaliar depois que ela reclamou. Pao recusou um acordo de mais de sete dígitos e preferiu testemunhar em frente a um júri e pedir US$16 milhões em salários perdidos e dezenas de milhões em danos punitivos.

Pao perdeu, mas o processo deu a muitas mulheres nos Estados Unidos corporativos um curso rápido de discriminação de gênero (do tipo sutil). “Acho que, sob vários aspectos, foi uma afirmação de que esses não são os momentos atípicos, são um problema muito real”, diz a professora de Direito Anita Hill, cujo testemunho contra Clarence Thomas, no começo dos anos 1990, ensinou ao mundo o que “assédio sexual” significava – e levou a uma enxurrada de reclamações para a Comissão de Oportunidades Iguais para o Emprego.

“Na época, chamei de ‘treinamento sobre discriminação de gênero para a nação’, mas infelizmente não tenho certeza se o país estava prestando muita atenção”, diz Joan C. Williams, estudiosa do Direito, professora da Faculdade de Direito Hastings da Universidade da Califórnia e fundadora do centro Worklife Law.

Pao espera que o país esteja prestando atenção agora. Ela está lançando um livro, “Reset”, contando os detalhes de seu processo e do resultado, que, segundo escreve, “quase acabou com a minha carreira em tecnologia, me custou meio milhão de dólares e estimulou milhares de insultos contra mim e contra minha família”.

O livro segue seus dias na Kleiner Perkins desde o começo, como chefe de gabinete de um dos sócios, John Doerr, conta o caso complicado com um colega casado que Pao afirma tê-la assediado e depois retaliado contra ela, e fala do processo e sobre o que aconteceu depois, incluindo o período no Reddit e seu momento atual como pregadora da diversidade corporativa e uma das fundadoras e CEO de uma organização sem fins lucrativos chamada Project Include.

Também é a história do que levou essa filha de imigrantes chineses à Nova Jersey e a assumir esse lugar em particular.

Hoje, Pao fala de justiça social, de feminismo interseccional, das diferenças entre “igualdade” e “equidade”, e da responsabilidade moral que sentiu para botar a boca no trombone (“Tinha o dinheiro e a convicção”, afirma), mas é uma ativista tardia. No livro, descreve como se recusou a participar de uma manifestação da faculdade de Direito, para protestar contra professores que afirmavam que negros e mulheres não estavam qualificados para ensinar, porque ela não se sentia confortável “aderindo publicamente a um lado”.

Então, conseguiu seu primeiro emprego depois de se formar; o sócio que se esfregava nas funcionárias no corredor, que ela tentou ignorar; a advogada mandada para casa por usar calças; as visitas após o trabalho ao clube de strip-tease Scores.

“Na época, tentava não pensar muito nesses incidentes, esperando que o trabalho árduo e a cabeça baixa me ajudassem a ir em frente e ignorá-los”, escreve.

Ela conta que sempre foi de seguir as regras. Preferiu não contratar um marqueteiro durante o processo e de bom grado entregou centenas de milhares de e-mails para o advogado adversário, o que hoje lamenta. Ela vai à igreja aos domingos, não bebe e hesita muito em falar sobre sua vida pessoal.

Acreditando na meritocracia, pensou que poderia se livrar da desigualdade trabalhando duas vezes mais. “Tinha fé no sistema”, escreve.

No entanto, Pao conta como era diminuída na frente de clientes, excluída de encontros e estar entre um grupo de mulheres que não foram chamadas para uma viagem para esquiar e um jantar com Al Gore porque, como disse um sócio, elas iriam “acabar com a diversão”.

Em outra viagem, ela se uniu a um grupo de funcionários antigos, na parte da frente de um jatinho privado, apenas para ter que ouvir sobre pornografia e sobre suas preferências entre tipos de “meninas”. (Kleiner Perkins nega vigorosamente que qualquer discriminação tenha acontecido.)

Em avaliações escritas e de desempenho, Pao recebia notas altas, mas foi ignorada para uma promoção para um cargo importante. E acabou criticada tanto por ser muito passiva quanto por ser muito insistente; por não se colocar o suficiente e também por ter opiniões sobre tudo.

“Tudo era conflituoso: você fala muito/não o suficiente. Você se importa muito com dados/não traz informações suficientes. Não havia consistência, e isso foi desconcertante para mim. O que eu podia fazer para melhorar?”, contou Pao, sentada nos restos de um deque no Kapor Center, um fundo de impacto social no qual ela é investidora e chefe de inclusão e diversidade.

Grande parte do comportamento que experimentou era inapropriado, mas poderia prová-lo e fazê-lo ser considerado ilegal no tribunal? Não estava claro. Não era uma discriminação salarial evidente ou o fato deter sido barrada em alguns cargos por causa do gênero. “Era um sexismo mais sutil, do tipo diário, de comentários no bebedouro, das microagressões que acabam com você”, escreve ela.

Eram difíceis de documentar, de explicar e, no final, de provar, mas igualmente prejudiciais. “Contados juntos, esses momentos que parecem sem importância, esses mil cortezinhos de papel criam uma cultura indesejável, sutilmente hostil”, escreve.

Ela mandou uma carta aos chefes descrevendo suas queixas; eles chamaram um investigador particular, que não descobriu qualquer problema por parte da empresa. Então, Pao processou, usando os serviços de um advogado que havia ganhado US$7 milhões em um caso de assédio sexual contra uma poderosa firma de direito do Vale do Silício nos anos 1990. Por cinco meses, ela também continuou indo para o trabalho.

No início, não teve muito apoio público. Pelo menos uma fundadora disse para a Newsweek que o caso era “ridículo” e que ela esperava que Pao não “conseguisse um centavo”, enquanto no The New York Times, David Kaplan, autor de um livro chamado “The Silicon Boys”, foi citado dizendo que não acreditava nas denúncias. Algumas pessoas se preocuparam com o fato de o caso ter o potencial de diminuir as contratações de mulheres.

“Por muito tempo as pessoas me consideraram tóxica”, contou Pao.

Na verdade, para muitas mulheres, talvez suas reclamações possam ter parecido quase comuns, o tipo de coisa com que precisam lidar todos os dias.

Sarah Lacy, fundadora e editora chefe do site de tecnologia Pando, diz: “Não havia uma prova concreta. E para esse ser o grande caso do Vale do Silício sobre gênero, era difícil torcer por ela”.

Lacy se lembra de pensar na época que, se Pao tinha uma reclamação, então todas as outras mulheres norte-americanas também tinham. “Acho que, no final, a mesma coisa que a machucou fez as mulheres olharem para as próprias vidas de uma maneira muito diferente e reconhecerem que aquilo não era aceitável, que não deveria fazer parte do negócio.”

Jessica Bennett © 2017 New York Times News Service

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