Saiba negociar a taxa de carregamento da previdência

Ao contratar um plano de previdência, é preciso ficar atento aos valores cobrados pelos bancos para administrar seu investimento

São Paulo – Você decidiu comprar um plano de previdência complementar e até já escolheu qual se adapta melhor ao seu estilo de vida. Mas, em meio às conversas com a instituição financeira, descobriu que, além da taxa de administração, você terá de pagar outra, a taxa de carregamento.

E pior: enquanto a taxa de administração é cobrada uma vez por ano, a de carregamento pode ser mensal. Isso mesmo. Ela incide sobre os depósitos que você fará em seu plano todos os meses.

O valor vai depender do tipo de plano e pode variar de 1% a 5%. A média de mercado é 2%. “Um plano remunerado por renda fixa não pode ter taxa de administração maior do que 1% e a taxa de carregamento deve ser zero”, diz Mauro Calil, consultor financeiro, de São Paulo.

Para ele, a negociação e a pesquisa são as melhores maneiras de pagar menos taxas e obter melhores rendimentos. “Mas há bancos que chegam a cobrar até 5% de taxa de carregamento, por isso é importante pesquisar também os produtos vendidos pelas seguradoras, pois plano de previdência não é fundo de investimento. E tem gente que não sabe isso”, diz Mauro.

A justificativa dos bancos para cobrar as taxas de carregamento é que, ao contrário dos fundos de investimentos tradicionais, um plano de previdência complementar exige planejamento maior e gestores mais especializados. O motivo, alegam, está no fato de a aplicação ter de ser planejada para um resgate no futuro, daqui a 10, 15 ou 20 anos.

“Fazer esse planejamento exige maior sofisticação do serviço prestado”, afirma Osvaldo do Nascimento, diretor do Itaú Vida e Previdência, em São Paulo, onde a média da taxa de carregamento é de 1%, mas pode chegar a 3%. 

A princípio, a taxa de carregamento incide sobre todos os depósitos  feitos para o plano, tanto esporádicos quanto regulares. Ou seja, se você aceitou uma taxa de carregamento de 5%, significa que, para cada 1 real que investir, apenas 95 centavos serão efetivamente aplicados. E, em proporções maiores e no longo prazo, esse desconto pode fazer muita falta na sua conta bancária. Por isso, essa taxa de carregamento precisa e deve ser negociada.

Mauro Calil explica que, se você tiver uma boa grana para usar como aporte inicial, seu poder de barganha aumenta muito na hora de negociar com o banco ou com a  seguradora. “Vale a pena guardar dinheiro, nem que seja na poupança, até reunir uma quantia mínima para ter poder de barganha na hora de negociar o plano de previdência”, diz o consultor. 

A negociação também é recomendada pelos próprios bancos. “Quanto maior for o aporte inicial, menor será a taxa de carregamento”, afirma João Batista Mendes Angelo, superintendente de produtos da BrasilPrev, braço de previdência privada do Banco do Brasil, em São Paulo.


Na BrasilPrev, quem contrata um plano de previdência privada com um aporte inicial de 5 000 reais, fazendo depósitos mensais de 400 reais, fica isento da taxa de carregamento. O mesmo benefício, no entanto, não vale para quem começa um plano sem aporte inicial e depósito de apenas 25 reais por mês — nesse caso, a taxa de carregamento na BrasilPrev chega a 4%. “Há muitas opções de planos de previdência.

O ideal é comprar um que se adapte às suas necessidades”, diz Richard Michael Seegerer, superintendente de produtos de previdência do Grupo Santander, em São Paulo, onde as taxas também decrescem de acordo com o volume financeiro que será aplicado.

No Grupo Santander, para ficar isento da taxa de carregamento é preciso fazer um aporte inicial de 300 000 reais. “Mas tudo é negociável”, diz Richard. “Um cliente que faz portabilidade para um dos nossos planos, por exemplo, fica isento de taxas.”

De lá para cá

A portabilidade é uma das melhores armas do consumidor na hora da negociação. “Comprar um plano de previdência é igual a comprar um carro. Você tem de pesquisar, visitar várias concessionárias e fechar negócio no lugar que oferecer o menor preço”, diz Mauro Calil, que observa que nem sempre o banco onde você tem conta é a melhor opção.

“Você é o dono do seu dinheiro e o carrega para onde quiser. Se seu gerente não oferece uma taxa mais atrativa que a da concorrência, é preciso mudar, sem pudor ou peso na consciência.” A negociação dessa taxa pode representar bons ganhos no futuro. 

A recomendação é a seguinte: a taxa de administração de um fundo de previdência precisa ser menor do que 1% ao ano para que o plano seja rentável. A mesma lógica vale para outros tipos de plano, como os aplicados em renda variável ou os que fazem um mix entre renda fixa e ações.

Por exemplo: se a taxa de carregamento de seu plano é de 1% e você deposita todo mês 1 000 reais, vai pagar 10 reais para o banco, sobrando 990 reais para serem aplicados no plano de previdência complementar. Em dez anos, serão 1 200 reais que foram usados para pagar as taxas de carregamento, sem considerar a variação da inflação nem eventuais ganhos com taxas de juro. 

Na maioria dos casos, a taxa de carregamento cai com o passar do tempo, de forma a premiar os investidores que mantêm seus recursos aplicados por um período mais longo. Assim, uma taxa de carregamento que inicialmente era de 5% pode cair para 2% após dois anos de aplicação.

Em outros casos, a taxa pode cair à medida que o volume de recursos aumentar. “Um banco costuma isentar o cliente quando ele faz aportes iniciais de 10 000 reais, ou pode dar esse benefício para um cliente que atinge esse valor após dez meses depositando 1 000 reais”, diz o consultor financeiro Mauro Calil. Ou seja, talvez você não consiga fugir do carregamento, mas pode e deve negociá-lo. Fale com o seu gerente.