Rotas alternativas

A Copa deverá afetar a mobilidade de funcionários e a agenda corporativa. Mesmo sem uma definição quanto aos feriados nos dias de jogos, as empresas já repensam a logística para junho e julho

São Paulo – Prevendo perda da produtividade no período da Copa do Mundo, Gilvan Righetti, diretor de gestão de pessoas da empresa de energia EDP, e sua equipe começaram a avaliar em dezembro de 2013 medidas para contornar a situação. “Sofreremos perda de produtividade em junho, então estamos organizando uma força-tarefa para compensar nos meses anteriores e posteriores”, diz Righetti.

A multinacional portuguesa tem unidades em quatro estados que receberão os jogos. É aí que a situação se complica um pouco mais. Se antes cada companhia já tinha a própria fórmula para lidar com o evento, que sempre mexeu com o ânimo do brasileiro, agora o cenário é consideravelmente diferente.

Afinal, ele acontecerá aqui. Só em São Paulo estima-se que 75.000 pessoas se desloquem por dia de jogo até o estádio da Copa. “A questão da mobilidade humana vai ficar mais complicada, por isso é importante que o RH faça uma análise não só das melhores práticas para o perfil da empresa mas também para a realidade da Copa”, diz Anderson Sant’Anna, professor nas áreas de organizações e comportamento organizacional e coordenador do Núcleo de Desenvolvimento de Liderança da Fundação Dom Cabral.

No caso da EDP, Righetti aposta no turno de equipes, como já costuma fazer em datas especiais. “No Natal e no Ano- Novo, enfim, momentos em que o país costuma parar, nós dispensamos a maioria e escalamos alguns para o plantão”, afirma o diretor de gestão de pessoas.

“Como trabalhamos no setor de energia, precisamos ter equipes para fazer o atendimento em campo em caso de emergência, como consertar postes elétricos.” Para o pes­soal administrativo, no entanto, o esquema muda.

Os aproximadamente 400 funcionários que já trabalham de casa — a organização adotou o home office de 2009 a 2010 — manterão a rotina, e os demais poderão usar o banco de horas para sair mais cedo nas disputas do Brasil e de Portugal — afinal, a companhia é portuguesa. Nos dias em que as partidas acontecerem em São Paulo, sede administrativa da EDP, contudo, a dúvida continua: o que fazer?


Essa é a pergunta que muitos gestores de pessoas ainda estão fazendo. Sem uma posição definida do governo quanto à adoção de feriado nos lugares que receberão os jogos, as empresas não conseguiram ainda se planejar adequadamente. O que existem são espécies de rotas alternativas a ser tomadas se o caos prevalecer.

Caso a mudança no calendário aconteça, o número de dias livres em 2014, sem contar os fins de semana, subirá de 16 — nove feriados nacionais e sete pontos facultativos — para 19, levando em consideração apenas as disputas da seleção brasileira na primeira fase do campeonato.

Mas essa conta poderá subir se o governo decidir que é melhor parar as atividades nos dias de jogos nas cidades que os sediarão, independentemente se a partida for entre Brasil e Croácia ou Uruguai e Inglaterra. São Paulo, por exemplo, é a cidade que terá mais partidas durante a semana.

Todas as partidas deverão acontecer no meio da semana: quatro na fase inicial e mais duas na final. Sendo assim, se o feriado for decretado, a conta dos dias livres poderá chegar a 24. E isso pode, sim, impactar bastante a rotina da empresa. “Apesar de ser considerado um ano de oportunidades, 2014 traz um pouco de apreensão para os empresários.

Eventos como esse acabam reduzindo a quantidade de dias de trabalho e diminuindo a expectativa de crescimento de alguns setores”, diz Marcos Antonio Andrade, coordenador do departamento pessoal da ­Crowe Horwath Macro, empresa internacional especializada em serviços de auditoria, impostos, consultoria e riscos.

Por depender dessa resolução, a Zambon Laboratórios Farmacêuticos ainda não sabe como ficará a rotina de seus representantes de vendas. “Nos jogos do Brasil, eles não terão médicos para visitar, mas aguardam o decreto de feriado local ou nacional para definir a agenda dos demais dias”, diz Talita Cordeiro, gerente de recursos humanos da farmacêutica.

Enquanto espera por uma resposta final, a empresa se organiza do jeito que pode. Quem trabalha internamente será dispensado ao meio-dia nas partidas da seleção. “Para os que moram na zona leste de São Paulo, foi dada a opção de permanecer em casa nessas datas”, afirma Talita.


Outra medida adotada pela empresa foi alterar algumas datas de viagem. “O custo neste ano é maior. Os preços da passagem e da hospedagem aumentaram muito, mas nosso orçamento continua o mesmo”, afirma a gerente de RH.

No caso dos gerentes distritais, que costumam acompanhar o trabalho de um representante de vendas para instruí-lo, a agenda foi reprogramada para datas financeiramente mais interessantes. A companhia também antecipou sua convenção anual de vendas de março para fevereiro, pois o custo do transporte e do hotel seria menor. “O ponto central de 2014 para nós é otimizar custos e produção, afinal não temos orçamento adicional só por causa da Copa.”

Monte o próprio time

A Zambon também já tem um plano para os funcionários que gostam de assistir aos jogos com os colegas de trabalho. No espaço de convivência da empresa, chamado Benvivere, que já conta com uma televisão a cabo e pufes, os profissionais poderão torcer juntos pelo Brasil, receber pipoca, salgadinho, refrigerante e apetrechos como pompons e peruca nas cores da bandeira para animar a festa.

Aproveitar o evento para integrar as equipes, aliás, pode ser uma estratégia interessante. “A Copa vai acontecer de qualquer forma. Por que não aproveitar toda essa mobilização nacional para unir os empregados e promover a qualidade de vida?”, diz Luciano Meira, consultor e vice-presidente da FranklinCovey Brasil.

Pensando nessa oportunidade, a Netshoes já desenhou toda a sua programação. Para entrar no clima, o ambiente de trabalho será todo decorado em junho, com gramado sintético no piso do elevador e bolas de futebol espalhadas por determinados pontos em que o pessoal poderá trocar passes.

O evento ainda servirá de inspiração para uma série de palestras realizadas uma semana antes do campeonato. “A cada dia, teremos um palestrante para engajar e motivar os funcionários. Vamos trazer técnicos de vôlei, basquete e, é claro, futebol”, afirma Luciana Machado, gerente de RH.


Especificamente para as disputas da seleção, a Netshoes vai permitir a saída entre 1 e 1 hora e meia antes do jogo. Nas partidas realizadas em São Paulo, não haverá mudança na rotina, a não ser que seja decretado feriado.

Independentemente dessa decisão, porém, a empresa de comércio eletrônico, assim como a EDP, já traçou sua rota de emergência: deverá manter uma equipe de plantão no escritório, visto que a central de atendimento opera 24 horas.

Por isso, os cinco endereços da empresa (quatro no estado de São Paulo e um em Pernambuco) vão oferecer telão para que esses funcionários possam assistir às partidas da seleção brasileira. Barracas de pipoca, cachorro-quente e refrigerante acompanharão a confraternização.

E ninguém que parar ou se ausentar nesse período vai ter de compensar as horas perdidas. Nem lá nem na Zambon ou no Banco do Brasil. Como plano, o banco estatal já decidiu que suas agências vão fechar antes das partidas para dispensar os empregados. “Quando o Brasil entrar em campo, o país vai parar para assistir, e nós também.

Só estamos aguardando a definição do horário bancário pela Febraban para fechar essa questão”, diz Carlos Netto, diretor de RH do BB. Otimista, Netto não acredita que a mudança de rotina provocada pelo evento prejudicará seus negócios, muito menos que causará uma queda no rendimento dos funcionários. Ao contrário.

O banco enxergou no evento esportivo mais popular do planeta uma oportunidade de desenvolver sua mão de obra nas cidades sedes. “Selecionamos 450 agências em locais próximos a hotéis e pontos perto de onde acontecerão as partidas para dar um curso de inglês instrumental”, diz Netto.

A ideia é capacitar as equipes de atendimento para que elas possam receber bem os turistas — são 60 horas de aula online, 20 de conversação e 80 de presencial. “Queremos colocar em cada agência dois ou três profissionais com condição de atender os estrangeiros.”