Rio de Janeiro enfrenta altas taxas de desemprego

Desordem nas contas públicas e aumento da violência fazem o estado do Rio enfrentar agonia que afeta mais de 1,3 milhões de trabalhadores

De cada dez vagas fechadas no primeiro trimestre deste ano no Brasil, oito foram no estado do Rio de Janeiro, segundo o Ministério do Trabalho. O dado, alarmante, é a expressão em números de uma crise aguda.

Com um rombo de 20 bilhões de reais em seu orçamento, o estado luta para pagar contas básicas enquanto a população, a indústria, o varejo e o comércio agonizam. De 2015 para cá, 496 501 vagas foram fechadas.

Em todo o estado, 9 730 lojas encerraram suas atividades nos seis primeiros meses de 2017, 55% mais do que em 2016. Só na cidade do Rio de Janeiro foram 4 154 estabelecimentos fechados, uma alta de 76,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Na capital, epicentro do colapso, o crescimento da pobreza salta aos olhos: há mais de 14 000 moradores em situação de rua; em 2013, eram pouco mais de 5 000.

Calçadas tradicionais, como as de Copacabana, estão apinhadas de ambulantes vendendo todo tipo de mercadoria em lonas estendidas pelo chão. A situação crítica é resultado de uma combinação explosiva de fatores: recessão, enfraquecimento do setor de óleo e gás e desarranjo fiscal.

Para entender o caos no estado do Rio é preciso voltar algumas casas no tabuleiro da crise nacional, até os escândalos de corrupção na Petrobras.

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A instabilidade na maior estatal do país gerou um efeito dominó em toda a cadeia de óleo e gás — setor com enorme peso no mercado de trabalho fluminense. “No Rio, grande parte dos empregos está relacionada — direta ou indiretamente — ao mercado de óleo e gás. A Petrobras é o principal player local e tem grande volume de fornecedores. Todos foram afetados”, diz Alexia Franco, sócia-fundadora da consultoria de recrutamento executivo Unique Group, com forte atuação no estado.

Milhares perderam — e vêm perdendo — seu posto de trabalho devido à suspensão de projetos após as revelações da Operação Lava-Jato. “Os que tinham menos qualificação sofreram antes. Como o custo de demissão é menor para os cargos mais baixos, eles são cortados primeiro. Um dos sinais de agravamento da crise é quando executivos são afetados”, afirma Vicente Ferreira, professor de administração no Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Cop­pead).

Segundo dados da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, somente no ano passado havia 70 pessoas com graduação morando nas calçadas da capital — e os noticiários mostraram até um ex-gerente de multinacional que virou sem-teto.

Um dos profissionais qualificados atingidos pelo desmonte da cadeia de óleo e gás foi o engenheiro eletricista Antonio Carlos Ribeiro, de 51 anos. Há um ano e meio, ele foi dispensado de uma grande companhia de navegação cujos negócios foram prejudicados pela crise da Petrobras.

Depois de participar de um programa de recolocação, percebeu que não havia vagas disponíveis para seu perfil no Rio — tinha mais de 38 anos de experiência no setor industrial e um posto de gerente-geral no grupo que o dispensou. Antonio Carlos até recebeu uma proposta de trabalho, em outro estado, mas preferiu ficar com a mulher e os quatro filhos em Niterói, região metropolitana da capital fluminense.

Com a decisão, foi preciso fazer uma virada de carreira. Sem perspectiva de se recolocar formalmente, ele enxergou uma oportunidade de empreender após uma viagem a Manaus em que conheceu o óleo de avestruz, produto usado em cosméticos e suplementos alimentares.

Depois de estudar o mercado, Antonio Carlos usou as reservas financeiras para abrir em agosto de 2016 a Amazon Origin, empresa que distribui o óleo no estado do Rio e negocia com farmácias e lojas. Hoje, ele atende cerca de 200 pontos de venda e trabalha com 60 revendedores autônomos, a maioria vítima do desemprego como ele. “A maior lição que tirei desse processo todo é que precisamos ter a mente aberta. Inesperadamente, conheci um produto bacana, montei um plano de negócio e tenho tido bom retorno”, afirma o ex-executivo, que estima faturar 1,2 milhão de reais até o fim do ano.

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Efeito retardado
Por que o Rio de Janeiro continua batendo recordes negativos, com 15,6% da população (1,3 milhão de pessoas, segundo o IBGE) desempregada, se o Brasil já ensaia uma retomada econômica? Para muitos analistas, trata-se de um efeito retardado. “Enquanto o Brasil amargava uma dura recessão, o Rio estava à margem. Para blindar a região do caos antes dos Jogos Olímpicos, o governo federal fez um aporte financeiro [a União reforçou os cofres fluminenses com 2,9 bilhões de reais três meses antes do evento]. Quando o evento terminou, os efeitos maléficos chegaram em alta velocidade”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador da área de economia aplicada no Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

Com o fim desse conto de fadas, as empresas passaram a enxugar custos e a otimizar estruturas para manter o equilíbrio financeiro — agravando ainda mais a situação. Nos últimos meses, grandes empregadores do estado anunciaram planos de reestruturação.

O exemplo mais recente é o da L’Oréal, que comunicou o fechamento de uma fábrica na zona norte da capital. Instalada há mais de 50 anos no Rio, a multinacional de cosméticos francesa migrará essa produção para São Paulo. A companhia não revelou quantos serão demitidos e, em nota, disse que os desligados “receberão pacote de gratificação e suporte para recolocação”. Segundo o IBGE, de janeiro a março deste ano, 397 000 novas pessoas ficaram sem ocupação alguma no estado — um aumento de 42,7% em relação ao mesmo período de 2016.

O engenheiro de produção George Pryor, de 42 anos, fez parte dessas estatísticas. Pós-graduado em gerenciamento de projetos nos Estados Unidos, ele foi demitido em janeiro do cargo de diretor de operações de uma multinacional alemã de fertilizantes.

Apesar do suporte da companhia, que pagou seis meses de benefícios (como plano de saúde) e um bom serviço de recolocação, o processo não foi fácil. “Fiz, em média, um contato por dia com pes­soas que me ajudaram com indicações”, diz. Foram meses de telefonemas, almoços, cafés, e-mails trocados e entrevistas de emprego até que ele tomasse a decisão de deixar o Rio. Em maio, assumiu a vaga de diretor de operações de um projeto da Incomisa, em Pindamonhangaba (SP). A mulher e os filhos, que ainda estão morando na capital por causa do ano letivo, devem se mudar em 2018. “Infelizmente, a perspectiva profissional no Rio de Janeiro é nula”, afirma.

George Pryor, engenheiro de produção: ele tomou a decisão de deixar o Rio para se recolocar no mercado de trabalho | André Valentim

George Pryor, engenheiro de produção: ele tomou a decisão de deixar o Rio para se recolocar no mercado de trabalho | André Valentim (/)

Setor público

Em uma ponta, a crise do setor privado, desencadeada pelo arrefecimento no segmento de óleo e gás. Na outra, o rombo nas contas públicas causado pela corrupção e pela queda na arrecadação de royalties do petróleo. Quando o preço do barril caiu de 100 dólares para cerca de 30, no início de 2016, o orçamento estadual levou uma rasteira fatal.

Isso porque boa parte das receitas do Rioprevidência — setor público responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores estaduais — vinha justamente desses recursos voláteis. A pior sequela desse erro administrativo foi um desequilíbrio fiscal que hoje impossibilita arcar com despesas básicas. Do abastecimento da rede pública de saúde ao combustível das viaturas, tudo ficou comprometido.

Com a queda do investimento em segurança, a criminalidade explodiu. Casos de crianças baleadas, como o bebê Arthur, atingido por uma bala dentro da barriga da mãe em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, chocaram o país. Roubos de carga se tornaram tão frequentes que redes atacadistas passaram a contratar até carro-forte para transportar mercadorias.

A violência se instalou de tal forma que, em julho, o governo federal autorizou a intervenção do Exército: 8 500 militares passaram a patrulhar as ruas da capital.

No limite, o estado também passou a atrasar salários. Com tradição de ser reduto do funcionalismo público, herança da época em que foi capital federal, o estado tem 463 258 servidores, entre ativos e inativos. A professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Talita Barreto, de 41 anos, engrossa o caldo dos que sofrem com a inadimplência do governo.

Com nove meses de salários atrasados, ela, que leciona espanhol no curso de letras, precisou reduzir drasticamente gastos com saúde, educação e lazer, dela e da filha. E fez empréstimos com amigos e familiares. “O salário da Uerj é minha renda principal. Com as reservas, que já acabaram, consegui manter o básico. Mas estou readaptando minha vida, porque não sei quando essa situação vai acabar”, diz Talita, com pós-doutorado pela Universidade de Barcelona.

A Uerj, uma das mais tradicionais universidades do país, é o retrato do descalabro. Atrasos nos repasses inviabilizaram atividades no campus. Os 2 400 professores e os 5 000 funcionários só conseguiram iniciar o calendário letivo para os 30 000 alunos no fim do mês passado. E até o vestibular foi prejudicado: 37 393 candidatos se inscreveram em 2017, ante 80 000 no ano passado.

Assim como Talita, milhares de servidores estaduais deixaram de consumir. Estima-se que bilhões de reais cessaram de circular por causa do atraso na folha. “Quando o funcionário público não recebe, ele para de comprar. Uma coisa leva à outra”, diz Fernando, da FGV.

Talita Barreto, Professora na Uerj: Empréstimos e cortes de gastos por causa dos nove meses de salários atrasados | André Valentim

Talita Barreto, Professora na Uerj: Empréstimos e cortes de gastos por causa dos nove meses de salários atrasados | André Valentim (/)

Começo de carreira

Os profissionais em início de carreira também sentem na pele os efeitos da crise fluminense. Aos 26 anos, a biomédica Yasmin Pontual, mestre em pesquisa clínica em doenças infecciosas pela Fiocruz, tenta, sem sucesso, encontrar emprego na área de saúde na capital. “Estudei seis anos, contribui para a ciência e agora não consigo nada. Em biomedicina, exigem experiência. Se busco na área administrativa, acham que sou qualificada demais”, diz ela, que fez três entrevistas de emprego em quatro meses. “Começo a pensar em tirar o mestrado do currículo.” Enquanto não consegue trabalho, Yasmin paga as contas com a ajuda financeira do marido, que continua empregado.

Para os mais jovens e menos experientes, o volume de contatos é a melhor estratégia. “Fazer networking é fundamental. Durante as entrevistas de emprego é importante, também, mostrar como vai contribuir para o crescimento daquele negócio. Muitos jovens estão empreendendo, oferecendo soluções para os problemas das empresas e trabalhando por projetos”, afirma José Augusto Figueiredo, vice-presidente na América Latina da consultoria global de carreira Lee Hecht Harrison, no Rio de Janeiro.

O importante é buscar conhecimento, segundo ele, e ganhar musculatura para quando o mercado recuperar o fôlego.

Yasmin Pontual, biomédica: com mestrado no currículo, ela tenta um trabalho há mais de quatro meses | André Valentim

Yasmin Pontual, biomédica: com mestrado no currículo, ela tenta um trabalho há mais de quatro meses | André Valentim (/)

Retomada lenta

A guinada, no entanto, não será rápida. Segundo a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), mesmo com o Plano de Recuperação Fiscal, que impõe uma série de ajustes e suspende o pagamento das dívidas do estado com a União por três anos, a previsão é que as receitas estaduais só superem as despesas em 2029.

O pleno emprego também levará tempo. “Fechamos quase 500 000 vagas e vamos demorar alguns anos para voltar ao nível de 2014. São abertas 50, 100 vagas por vez”, diz William Figueiredo, coordenador da Firjan. Mas nem tudo está perdido. A expectativa de novos leilões do pré-sal, sem monopólio da Petrobras e com participação de companhias internacionais de grande porte, deve aquecer o mercado de trabalho no estado. Além disso, a confiança nas mudanças promovidas pelo novo presidente da Petrobras, Pedro Parente, e o retorno dos investimentos no segmento extrativista movimentaram a cadeia de óleo e gás. “Isso traz a reboque fornecedores e parceiros. É um círculo virtuoso que começa a se desenhar”, diz José Augusto, da Lee Hecht Harrison.

Enquanto a retomada não chega, quem fica precisa enfrentar desafios e apresentar cada vez mais resultados. Quem sai tem de se mostrar disponível, ativo e capaz de vender conhecimento. Um jogo difícil onde os fracos não têm vez.

Táticas de sobrevivência

  • Lições e estratégias dos profissionais que estão encarando a desnutrição do mercado de trabalho no Rio de Janeiro
  • Para ser lembrado, é preciso ser visto. Frequentar cursos e eventos é uma forma eficaz de fazer contato com quem ainda está empregado e tem informações de mercado.
  • Em cargos seniores, não adianta acionar todo mundo. É melhor marcar encontros olho no olho e contatar um networking de qualidade (que possa atuar efetivamente).
  • Garimpar vagas em pequenas e médias empresas de setores que passam por mudanças e precisam de profissionais com expertise de grandes corporações  amplia oportunidades.
  • Busque mercados além dos de sua atuação — inclusive para empreender. Se é de um segmento fragilizado, tente vaga em outro. Áreas como finanças, RH, marketing e vendas são versáteis.
  • Reforce seus feitos profissionais, mas tome cuidado para não parecer arrogante. Deixe uma boa impressão para que os colegas se lembrem de você quando surgir uma vaga.
  • Na crise, as empresas mantêm quem é produtivo, tem capacidade de atualização e agrega valor ao time. Se está empregado, capriche nas entregas para contribuir para o negócio.