Há uma revolução silenciosa na gestão pública

A criação da carreira de especialista em gestão pública abre postos de trabalho em vários estados, ajuda no combate ao desperdício de dinheiro público e contribui para o desenvolvimento do nordeste

São Paulo – O administrador pernambucano Severino Almeida, de 30 anos, tem uma missão nobre: fiscalizar se o dinheiro público destinado a construir e reformar escolas em seu estado está sendo bem aplicado.

No posto de analista-chefe de planejamento, orçamento e gestão da Secretaria de Educação, ele visita as obras de escolas na capital, Zona da Mata, agreste e sertão do estado. Ele já chegou a viajar 700 quilômetros em um dia.  “Quando a reunião ocorre no sertão, passo de dois a três dias em viagem”, diz ele, que comanda uma equipe de 13 pessoas.

Ao longo do dia, Severino tem reuniões com os engenheiros que tocam as obras, com diretores das escolas e com os chefes das regionais — células às quais as escolas são ligadas. Só neste ano, o núcleo apresentou a estratégia do Pacto pela Educação a mais de 866 diretores.

Os dados compilados nessas visitas e nos encontros alimentam as tabelas com os indicadores do pacto — iniciativa que visa combater o anafabetismo.

“É como se monitorássemos dia a dia as unidades de uma grande rede varejista, só que aqui o produto final é a melhoria da qualidade do ensino”, diz Severino.

Funcionário concursado do governo estadual, ele iniciou suas atividades como gestor de políticas públicas na Secretaria de Defesa Social, sugerindo ações para reduzir índices de homicídios, agressões contra mulheres e uso de drogas no estado.

“Visitava áreas extremamente vulneráveis à violência”, lembra. As propostas elaboradas por Severino e seus colegas fazem parte do projeto Pacto Pela Vida, iniciativa na área de segurança pública reconhecida pela ONU no ano passado como uma das melhores do mundo.


Graças ao sucesso desse trabalho, Severino acabou sendo convidado pela Secretaria de Saúde para fazer um périplo pelos hospitais do estado, identificando falhas nos setores admistrativos e de internação. “Nosso maior desafio era descobrir se o dinheiro público estava sendo utilizado de forma errada, principalmente em licitações duvidosas”, revela o servidor. 

Cobrança popular

De forma geral, o cotidiano de Severino representa o trabalho do gestor de políticas públicas, uma carreira nova que atrai cada vez mais profissionais para o serviço público em prefeituras, estados, ministérios e no terceiro setor.

“Não me arrependode ter trocado a carreira numa empresa privada por esse posto, porque sei que a revolução silenciosa que estamos fazendo vai ajudar o Brasil a se tornar um país mais justo e igual para todos, principalmente aqui no Nordeste”, diz.

O embrião da profissão de gestor de políticas públicas, regulamentada em cursos de graduação pelo Ministério da Educação há dez anos, foram as especializacões oferecidas principalmente nos cursos de administração.

Hoje, existem graduações de até quatro anos e especializacões de um a três anos em quase todas as universidades públicas do Nordeste, com nomes variados: administração pública, políticas públicas, gestão pública, gestão de políticas públicas e gestão social.

A carreira surge na esteira da criação da Lei de Responsabilidade Fiscal e da cobrança da imprensa e da população, principalmente por meio das redes sociais, por maior transparência no uso do dinheiro público.

Bons salários

Só em Pernambuco, estado onde o cargo é regulamentado desde 2008, já foram abertos nada menos do que 700 postos — por meio de concurso — para cargos de analista de controle interno, de gestão administrativa e de planejamento, orçamento e gestão em diversos órgãos.


A carreira prevê progressão de salário em 15 níveis, fazendo com que a remuneração varie de 5.000 a 12.000 reais. “É um mercado novo, cheio de oportunidades de crescimento e de bons salários para quem sonha em trabalhar fazendo algo para ver o país melhor”, resume Soraya Vidal, do departamento de gestão de políticas públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Para Francisca Maria Andrade, especialista em programas da Unicef para o Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí, um bom gestor de políticas públicas planeja, implementa, monitora e avalia programas e projetos de governos e ONGs.

“É bom deixar claro que ele não é um político, nem mesmo quando assume um cargo de confiança, mas sim um defensor dos interesses da população junto ao poder público”, diz Francisca.

Onde estão as oportunidades

Em agosto, a Prefeitura do Recife deve aprovar uma lei criando a carreira de gestor público no município. A previsão é que um concurso com 300 vagas para o cargo de analista seja realizado em 2014. O salário inicial é de 5.000 reais.

“Juntei o útil ao rentável”

Funcionário do Banco do Nordeste (BNB) desde 2010, o economista baiano Renato Alves dos Santos, de 35 anos, já havia trabalhado como gestor público concursado da prefeitura de Ourolândia, no norte da Bahia, desenvolvendo ações de preservação ambiental para reduzir os efeitos da extração de ouro e mármore na região. 

No BNB, ele foi um dos selecionados pela instituição para fazer um mestrado em gestão pública na Universidade Federal do Ceará, concluído no ano passado. “Juntei o útil ao rentável”, diz Renato, que, após o curso, foi promovido e hoje, ao lado de seis colegas, atua no setor de avaliação de políticas e programas do BNB, cujos salários variam de 5.000 a 10.000 reais.

“Percorremos o Nordeste inteiro e chegamos a aplicar 3.500 questionários para avaliar a eficácia dos programas de crédito agroindustrial, industrial e de turismo”, diz. Além do BNB, os dados coletados são usados pela Controladoria Geral da União, Tribunal de Contas da União e Ministério do Desenvolvimento Econômico.