Querida, encolhi o salário!

Cortar no orçamento dos outros não dói

— Margarete, andei pensando…

— Você quer dizer “pensei andando”, né, Nicanor? Você estava caminhando no parque hoje cedo e aí bateu uma idéia, certo?

— Tanto faz. Mas não foi bem uma idéia, foi mais uma preocupação. Sabe, com essa crise correndo solta…

— Que crise?

— E eu estaria aqui discutindo crise jurídica e constitucional com você, Margarete? Crise econômica, é claro.

— Aconteceu alguma coisa que eu não fiquei sabendo, Nicanor?

— Depois da Proclamação da República? Um monte de coisa. Mas, para encurtar o assunto, é o seguinte: precisamos nos adequar à situação e conter nossos gastos.

— Que situação?

— A da crise! Vamos ter de cortar umas despesinhas aí. Por exemplo, o celular…

— Os nossos celulares?

— Não. O seu celular. O meu é indispensável para o trabalho. Você gasta o quê, 120, 150 reais por mês, certo? Cortando isso, vamos poder ligar o aquecedor aos sábados.

— O aquecedor?

— Aquecedor gasta muita energia. Não parece, mas gasta. E o nosso nunca foi desligado desde que mudamos para cá.

— Mas então vamos ter de tomar banho frio? Porque na embalagem do condicionador de cabelo está escrito que é para enxaguar com água a 80 graus…

— Pois é, o condicionador é outro item da minha lista. Além do xampu.

— Que lista?

— A lista dos cortes. Para adequar nosso orçamento. A crise econômica, lembra?

— Eu nem sabia que a gente tinha orçamento.

— Agora temos. Aliás, eu até ia pedir para você cuidar da atualização diária dele, já que não vamos mais sair de férias.

— Não vamos mais pra Aracaju?

— Está fora de nosso orçamento, Margarete.

— Mas como a gente vai dizer isso pro Nicanorzinho? Ele vai pensar que ficamos pobres.

— Até vai, mas não por causa das férias. O fato de ele agora ter de ir para uma escola pública vai…

— Nós vamos tirar o Niquinha da escola alemã?

— Vamos ter. Veja bem, o que adianta o Niquinha freqüentar escola alemã? A gente não entende mesmo o que ele fala…

— Mas escola pública dá pouco dever de casa. E você vai ficar mais irritado do que já é, porque o Niquinha vai passar o dia inteiro na frente do computador.

— Iria ficar, Margarete. Iria. Mas não vai, porque teremos de vender o computador do Niquinha. Além disso, a escola pública é aqui pertinho, e o Niquinha pode ir a pé, agora que você não vai mais ter carro.

— Hã?

— Seu carro, Margarete. Vamos ter de nos desfazer dele. Mas é coisa, assim, temporária.

— Mas sem o carro eu vou ter de deixar de fazer um monte de coisa…

— Mas eu garanto que é tudo coisa que está na lista.

— Peraí, Nicanor. De que tamanho é essa tal lista?

— Do tamanho da crise. Mas não é nada assim de…

— Como não é nada? Vou ficar sem telefone, sem carro, sem lavar o cabelo, sem sair de férias, e você diz que não é nada? Daqui a pouco você vai dizer que nem pedir pizza delivery a gente vai poder mais.

— Era o próximo item da lista, Margarete.

— Assim não dá, Nicanor. Nós vamos viver do quê? Como? Com quanto?

— Opa, calma, uma pergunta de cada vez. Com quanto, por exemplo. Não sei. Do quê, também não. E como, nem faço idéia.

— Você perdeu o emprego, né, Nicanor? E não tem coragem de me dizer. É isso?

— Tecnicamente, não. Mas tudo é possível. Porque a crise recrudesceu e a empresa já avisou que este ano não vai dar bônus. Além de ter de tomar umas decisões drásticas. Precisamos estar prevenidos. Deixar de jantar fora, comprar presente de aniversário, abastecer a geladeira…

— Fazer happy hour com os colegas de trabalho…

— Ah, eu sabia, Margarete. Eu aqui falando sério e você vem com essas picuinhas. Precisamos nos concentrar no que é relevante.

— No que é relevante para quem?

— Para nós, para nosso futuro.

— Quer dizer, tudo o que é “nós” vai ser podado, e tudo que é “voc” continua igual.

— Para onde você está querendo levar esta discussão, Margarete?

— Para a minha lista.

— Que lista?

— A da crise.

— Mas você não tem lista nenhuma!

— Acabei de ter. Também tenho direito à crise.

— Hã?

— “H” é a minha fala, Nicanor. A sua é “veja bem”.

— Você está muito agressiva, Margarete.

— Alguém precisa ser agressivo nesta casa. Me dá o telefone do teu chefe que eu vou falar com ele.

— Meu chefe não vai te atender, Margarete. Ele não fala nem comigo!

— Ahá, eu sabia! Aí não tem crise nenhuma. O que tem é falta de diálogo.

— Até parece que você entende de gestão empresarial, Margarete.

— Sabe o quê? De repente eu comecei a entender por que as mulheres resolveram sair de casa e entrar no mercado de trabalho.

— E por que foi, gênia?

— Porque a mulher lavava, cozinhava, fazia a faxina da casa, cuidava dos filhos, ia às compras, entrava em filas, corria o dia inteiro para cima e para baixo. E, de noite, quando ela estava em pandarecos, o marido chegava em casa carrancudo e dizia o quê? “Nem conversa comigo, porque hoje eu estou arrebentado.” E a coitadinha ainda trazia o chinelo para ele. Até que um dia, um marido mais ingênuo finalmente resolveu contar para a cônjuge por que estava arrebentado. E nesse dia o mundo mudou. E sabe qual foi o motivo que ele alegou para estar arrebentado?

— Qual?

— Uma reunião, Nicanor! Sentadinho, no ar condicionado, com cafezinho à disposição! Aí a mulher, mesmo a mais burrinha, pensou: “Opa!” E se mandou para o mercado de trabalho.

— E tudo isso leva a quê, Margarete?

— Ao que você já está acostumado: a uma avaliação de desempenho. Eu lhe deleguei só uma atribuição, a de provedor do lar, e você ficou muito aquém do seu objetivo. Portanto, você tem duas alternativas, Nicanor: ou melhora seu desempenho familiar no curto prazo, ou está despedido!