Quando o desafio é diversidade, esta professora dá um show de liderança

A britânica foi reconhecida como professora do ano pelo "Nobel" da Educação com trabalho em escola onde 85% dos alunos tem o inglês como segunda língua

São Paulo – “Good morning. Namastê. Hola”. É assim que a professora Andria Zafirakou recebe pela manhã seus alunos na porta da Escola Comunitária Alperton, em Brent, Reino Unido. Em março, Andria foi escolhida como professora do ano pelo Global Teacher Prize, na 4ª edição do prêmio conhecido como o “Nobel” da educação.

A escola de ensino fundamental fica em um dos bairros mais diversos do país. Aproximadamente 35 línguas são faladas em seus corredores e 85% do corpo discente têm o inglês como segunda língua.

Dentro da sala de aula, o ambiente já é desafiador para o professor. Para os alunos, os desafios começam do lado de fora, muitos deles são de famílias pobres e de imigrantes,  e vulneráveis a violência de gangues da região.

Integrante do time de liderança da Alperton, a professora de artes e têxteis percebeu que a escola teria que mudar para acomodar a diversidade de sua comunidade. Andria refez os currículos das matérias com seus professores, de modo que os ensinamentos fossem relevantes para a vida dos alunos.

Situações do cotidiano, por exemplo, poderiam ser pano de fundo para explicar conceitos de matemática. Outra atitude da professora foi a de buscar horários alternativos para os times femininos poderem treinar separadamente, em respeito às famílias mais conservadoras.

O cuidado de Andrian para que os alunos se sentissem, de fato, acolhidos é uma lição de liderança que extrapola os muros da escola e serve para lidar com a diversidade em qualquer ambiente de trabalho. Para Silvina Ramal, sócia-fundadora da consultoria ID Performance Humana, o maior desafio quando se trabalha com uma equipe diversa é evitar o isolamento dos profissionais e garantir que tenham sua voz.

Ela destaca a iniciativa da professora britânica em aprender o básico de cada língua para poder se comunicar melhor com os alunos e suas famílias. “É um gesto muito bonito, mostra interesse na cultura e rompe barreiras”, explica a especialista.

Segundo Silvina, o ser humano naturalmente hesita diante do diferente e cabe ao gestor estimular a inclusão. Para isso, ela defende a capacitação da liderança para perceber como sutilmente as experiências individuais influenciam ações e a tomada de decisão. Esse tipo sutil de preconceito é chamado de viés inconsciente. “Todos concordam que discriminação é errado, mas no dia a dia é difícil identificar onde falhamos”, diz ela.

Em treinamentos, a consultoria propõe um jogo que envolve escolher a equipe mais competente, com base apenas em suas habilidades. “De forma lúdica acabam se revelando estereótipos e crenças escondidas. E então os funcionários entendem seu viés”, explica.

Para Eliana Dutra, CEO da ProFitCoach, líderes precisam saber “normalizar” a diferença. Em treinamentos, um exercício pede que a turma se divida em grupos e cada um deve explicar como comprariam um presente. Eles sempre se surpreendem com os resultados diferentes: tem quem manda comprar, quem pesquisa com cuidado ou quem compra algo que gostaria de ganhar.

De acordo com Eliana, isso mostra de forma simples como entender pessoas que pensam de formas diferentes. “São estilos diferentes, sem certo ou errado”, explica ela.

As duas especialistas trabalham com seus clientes ferramentas para melhorar a comunicação em meio à diversidade que são focadas na figura do líder. É ele que tem o poder de apresentar um exemplo positivo de comportamento e que pode influenciar sua equipe e outros gestores.

Embora a relação do professor junto da criança tenha uma carga mais emocional e pessoal do que no ambiente de trabalho, Eliana vê a compaixão demonstrada por Andria como uma lição importante dentro das empresas. Para ela, a britânica é mais que professora, mas uma educadora. “Da mesma forma que o educador está focado em desenvolver pessoas, o líder deve buscar um equilíbrio entre a necessidade de entregar resultados sem perder de vista o fator humano”, fala a CEO.

Silvina Ramal concorda que a vencedora do Global Teacher Prize vai além do trabalho de apenas ensinar o conteúdo e aponta que o futuro da profissão está em inspirar os alunos a superar suas próprias barreiras.

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