Pai, mãe e irmãos pesam muito nas decisões de carreira

Eles têm um papel determinante em nossas escolhas de carreira. Saiba por que mergulhar na trama familiar pode explicar sua opinião sobre sucesso

São Paulo – Uma piada atribuída ao humor judaico retrata uma mãe caminhando na rua com dois meninos pequenos quando é abordada por uma desconhecida, que elogia a beleza das crianças e pergunta o nome dos respectivos. A mãe, orgulhosa, responde: — O engenheiro se chama Davi, e o médico, José. 

Mães (e pais) de todas as culturas despejam um caminhão de expectativas e frustrações nas costas dos filhos logo que eles nascem — e para toda a vida. A felicidade e o destaque profissional dos rebentos são indicadores de sucesso para toda família, como sugere o fundo de verdade contido na piada acima.

Pense em quantos amigos seus seguiram a profissão do pai ou da mãe. Ou quantos pais fazem questão de que o filho entre numa faculdade por eles idealizada como a melhor.

Uma pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) começa a indicar o tamanho do papel dos progenitores nas escolhas de carreira da prole.

O estudo, que entrevistou 279 profissionais com pelo menos 15 anos de experiência, mostra que o fato de ser o filho mais velho, ou o do meio ou o caçula leva a diferentes padrões de comportamento diante das escolhas de trabalho. Obviamente, não é possível generalizar. Tanto a formação de uma personalidade quanto a escolha de uma carreira dependem de inúmeros fatores.

Mas existem tendências que podem ser observadas com base na análise do lugar que uma pessoa ocupa em sua família. Conhecer esses padrões ajuda o profissional a compreender melhor as opções de carreira passadas e a acertar nas decisões futuras.

A pesquisa aponta que filhos mais velhos costumam tomar decisões de carreira mais alinhadas ao estilo de vida dos pais. O segundo filho tende a ser um profissional mais competitivo, hábil nos relacionamentos, mas dotado de baixa autoestima. Já o caçula fica exposto ao mimo excessivo dos pais, o que pode fazer dele um trabalhador com dificuldades de desenvolver independência ou de se relacionar.

A convivência entre os irmãos, segundo a pesquisa, ajuda a desenvolver um aspecto determinante nas opções profissionais: quem tem irmão cria uma estratégia de diferenciação.

“A pessoa se distingue para conquistar um espaço individual na família”, diz a engenheira Graziela Dias, pesquisadora da USP e autora do estudo, de São Paulo. Filhos únicos, que não desenvolvem esse hábito, tendem a seguir o padrão do filho mais velho ao concentrar as esperanças dos pais.

Essa estratégia de diferenciação está presente na história de Fabiana Munhoz, de 30 anos, gerente de pesquisas da fabricante de cosméticos L’Oréal, do Rio de Janeiro. Com duas irmãs mais velhas médicas, Fabiana rompeu a escrita e fez uma carreira acadêmica em física, da graduação ao doutorado — e na França. Foi a primeira pessoa da família a morar fora do Brasil.

“Meus pais sempre tiveram orgulho de minhas irmãs mais velhas, médicas, e achavam um desperdício de inteligência minha opção pelo curso de física, já que eu ia bem na escola”, afirma Fabiana. “Apesar disso, eles sempre apoiaram minha decisão e passaram a respeitar mais minha escolha quando eu fui morar fora e comecei a me destacar.”

Seleção natural

Do ponto de vista da genética, 40% das características de uma pessoa são recebidas por meio do DNA. O restante é adquirido socialmente, sendo que 5% vêm de experiências compartilhadas entre irmãos. Hereditariedade e ambiente familiar participam, portanto, da construção da personalidade.

Por que há, então, casos de irmãos, filhos dos mesmos pais e crescidos no mesmo lar, tão diferentes? Como pode um sujeito metódico ter um irmão caçula desorganizado? A resposta está na estratégia de diferenciação. É o que defende o pesquisador americano Frank Sulloway, Ph.D. em história da ciência e psicologia pela Universidade Harvard e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Desde a década de 70, Sulloway tem usado a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin, para entender como a dinâmica familiar, influenciada pela ordem de nascimento dos filhos, ajuda a ditar traços de comportamento de um indivíduo.

Por que essa estratégia de diferenciação acontece? Por uma questão de seleção natural. Como as espécies que alteram hábitos alimentares para não competir pelos mesmos recursos escassos, irmãos tendem a ocupar diferentes nichos familiares. Ou seja, eles assumem papéis diversos para conquistar espaço e ganhar competitividade na disputa pelos recursos disponíveis em casa.

A escolha de carreira segue o mesmo princípio. “Se os mais novos não veem possibilidade de atingir sucesso maior do que o dos mais velhos na mesma profissão, a consequência é que eles busquem outras áreas para adquirir destaque semelhante”, afirma Sulloway.

Os pais contribuem para a diferenciação e, consequentemente, para as escolhas profissionais dos filhos. Às vezes, nem estão conscientes desse papel. Normalmente, fazem isso com as melhores intenções. Funciona assim: durante o processo de educação, os pais identificam qualidades e defeitos nos filhos.

Estimulam o que é bom e procuram corrigir o ruim. Tentam dar um tratamento igualitário. Mas, como a necessidade de cada filho é diferente, o que eles fazem é reforçar a estratégia de ser desigual.

Empresas familiares são um bom laboratório para observar a divisão de papéis entre irmãos. Uma pesquisa encomendada pela VOCÊ S/A e realizada pela Höft, consultoria de transição de gerações — que analisou 74 empresas familiares no Brasil —, mostra que, em 63% dos casos em que a sucessão da presidência é feita de pai para filho, o primogênito assume a posição de presidente, ante 21% de segundogênitos e 16% de caçulas.

“Isso acontece porque, em geral, o primogênito é criado para ser líder e desde cedo recebe mais responsabilidades”, afirma Wagner Teixeira, diretor da Höft. Na família Randon, dona do conglomerado de empresas do setor automobilístico que leva o mesmo nome, o patriarca e fundador da holding, Raul Randon, deixou que seus cinco filhos elegessem seu sucessor, sem interferir na decisão.

A escolha recaiu sobre o primogênito, David, engenheiro mecânico de 54 anos. Um sinal de que os próprios irmãos reproduzem os papéis idealizados pelos pais. Todos os cinco irmãos participam de alguma maneira da gestão da empresa, como o caçula, Daniel, presidente da Fras-le. “Todos os cinco têm papéis diferentes, complementares e fundamentais”, diz David.

Os poréns da teoria

Em muitas casas, o tratamento a cada filho é descaradamente diferente, ainda que não exista essa intenção. O primogênito recebe mais recursos e atenção porque, geralmente, é o mais esperado. Já o caçula, por ser o último de uma geração, também recebe investimentos altos, principalmente quando os mais velhos saem de casa e ele aproveita um período em que é praticamente filho único.

Os do meio encontram-se em desvantagem nesse contexto. Uma pesquisa da Universidade de Illinois com 1 300 famílias americanas mostrou que os do meio recebem 10% menos cuidados do que os primogênitos e os caçulas.

Essa maior dificuldade de encontrar seu próprio espaço faz com que o filho do meio procure menos posições de poder ao longo da vida. “O irmão do meio se destaca pelas habilidades diplomáticas de conciliar o ego do mais velho com os caprichos do mais novo”, afirma Graziela.

A teoria tem diversas exceções, como era de se esperar, porque existem infinitas configurações familiares — quantidade que só aumenta conforme se tornam mais comuns famílias em que os pais não moram juntos, uniões com filhos de relacionamentos anteriores, filhos de casais homossexuais etc. Já existem algumas constatações sobre famílias contemporâneas.

Quando a diferença de idade entre os descendentes é grande, a competição se estabelece em níveis brandos, e os mais velhos ajudam na educação dos mais novos. Se o número de herdeiros for alto, eles passam a se organizar em grupos, de modo que o terceiro pode eventualmente assumir características de primogênito, por exemplo.

Concorrentes extrafamiliares, como primos e herdeiros de outros casamentos, se criados em conjunto, também podem competir. Mortes costumam eternizar padrões de comportamento dos filhos que se vão, deixando uma sobrecarga para os que ficam. Irmãos com deficiência, embora requeiram atenção forte dos pais, não desencadeiam competição.

Quando as famílias são muito conservadoras, em que o gênero importa muito, pode não haver espaço para competição entre sexos opostos. A consequência é que tanto o primeiro filho quanto a primeira filha assumam o comportamento típico de primogênitos.

Significa que a mais velha sente-se inclinada a assumir uma posição maternal, enquanto o mais velho se preocupa em atingir resultados semelhantes aos paternos e ser o novo mantenedor da casa. As caçulas, nesse caso, são propícias a pensar em profissões independentes e, com isso, transgredir os padrões tradicionais, o que, aos olhos dos pais, pode parecer uma afronta.

Não é apenas a família que se renova. O próprio mercado também muda, e as profissões que os pais idealizaram às vezes tornam-se menos interessantes. Por exemplo: um pai engenheiro civil, que fez carreira numa construtora, talvez se decepcione com um filho que fez a mesma faculdade, mas optou por trabalhar no mercado financeiro. Outras profissões tornam-se mais atraentes.

Às vezes, o mercado evolui tão rapidamente que a quebra de padrões ocorre na mesma geração. “Entre a idade de escolha da profissão do primogênito e a do caçula, podem surgir profissões novas ou até um mercado inteiro”, afirma Gizelle Marques, gerente de transição de carreira da consultoria De Bernt Entschev.

“Antigamente os pais direcionavam a carreira dos descendentes, havia menos opções. Mas agora as novas gerações dispõem de imensas possibilidades.” Um mercado mais diverso favoreceria o segundo e o terceiro filho, mais propensos a fugir da profissão dos pais? Quando se trata da primeira escolha de carreira, talvez.

Mas, para o mais velho, essa também é uma boa notícia. Isso porque, segundo a pesquisa da USP, o primogênito é o que faz os movimentos drásticos de mudança de carreira — porque a escolha inicial teve forte influência familiar. Um mercado mais amplo talvez facilite uma transição amena.

Hoje os profissionais fazem escolhas de carreira de maneira racional, levando em conta tanto fatores objetivos, como salário e benefícios, quanto quesitos menos tangíveis, como perspectiva de crescimento e propósito. Pouca gente faz o exercício de pensar nas motivações pessoais mais profundas, aquelas que foram semeadas e cultivadas desde a infância, em casa.

Compreender como esses itens influenciaram seus valores profissionais e sua visão de sucesso é uma lição importante. Um balanço pode indicar o quanto você se esforçou para conquistar um emprego que deixava seu pai orgulhoso e você, infeliz. Pense nisso da próxima vez que analisar se você tem ou não sucesso.