Por que ainda estamos tão mal no inglês?

Ainda é difícil encontrar profissionais qualificados que falem uma língua estrangeira

São Paulo – Uma pesquisa encomendada pelo British Council do Brasil, organização voltada à promoção do Reino Unido no exterior, mostra que no país, dos empregos para executivos anunciados em jornais e internet entre abril e julho deste ano, 61% exigiam fluência em inglês.

Um levantamento semelhante, feito apenas entre programas de trainee abertos por empresas brasileiras no segundo semestre do ano passado, mostra que 87% tinham o idioma como pré-requisito e, destes, 62% pediam que os candidatos possuíssem nível avançado de proficiência, segundo a Cia. de Talentos, empresa de recrutamento de jovens profissionais. 

O déficit de trabalhadores brasileiros fluentes em um segundo idioma, em especial o inglês, que é o mais requisitado no mercado de trabalho, é tão conhecido quanto antigo. Mas a dificuldade de se comunicar em outra língua é um problema que está ficando mais grave no currículo.

Com a crescente expansão da economia brasileira nos últimos anos e a maior inserção do país em negócios mundiais, as empresas precisam de profissionais capazes de realizar operações internacionais, seja com clientes, parceiros ou mesmo no caso de a matriz ser estrangeira.

“A falta de fluência em inglês é mais um dos problemas com que as empresas estão tendo que lidar no Brasil. Temos poucos profissionais qualificados que também sejam fluentes em uma língua estrangeira, o que faz com que esses talentos sejam intensamente disputados pelas empresas”, diz Américo Figueiredo, vice-presidente de recursos humanos da Nextel, operadora de telecomunicações, de São Paulo.

Ainda assim, muitos profissionais deixam de investir no aprendizado e perdem oportunidades importantes de crescimento de carreira. A falta de tempo e o preço elevado dos cursos aparecem como as principais barreiras à aprendizagem.

Segundo uma pesquisa realizada pela escola de negócios espanhola IE Business School, 38% dos brasileiros não estudam outra língua por esses motivos. Outros 30% alegam falta de motivação e de oportunidade para praticar o idioma como razão para não estudá-lo.


Para muitas empresas, a falta de fluência em uma segunda língua é o maior entrave na hora de contratar um novo funcionário. “Nossa empresa tem 112 subsidiárias no mundo, o inglês é a nossa língua oficial. É uma ferramenta de trabalho, essencial para que o profissional se expresse e se exponha em seu dia a dia”, diz Daniela Sícoli, gerente de recursos humanos da Microsoft Brasil, de São Paulo.

Diante da escassez, muitas empresas passam a afrouxar os critérios para conseguir encontrar um profissional bilíngue. Bruno Castelucci, gerente de engenharia operacional da HP, fabricante de computadores, de São Paulo, conta que prefere investir na qualificação técnica dos recém-empregados, com cursos internos, a investir no estudo de idiomas.

“No caso da minha equipe, é mais rápido investir na qualificação e na capacitação do profissional do que lhe ensinar inglês. De cada dez candidatos que eu entrevisto, apenas três falam inglês. Tenho priorizado estes, com proficiência no idioma, àqueles que possuem conhecimento apurado da técnica, mas não possuem a segunda língua.”

O motivo da preocupação de Bruno tem fundamento. Segundo um levantamento global feito pela Economist Intelligence Unit e patrocinado pela empresa de intercâmbios Education First (EF) com 572 executivos seniores de organizações dos setores público e privado de todo o mundo, 49% dos entrevistados admitiram que mal-entendidos na tradução já os atrapalharam em transações internacionais importantes, acarretando perdas significativas para a empresa onde trabalham.

Entre profissionais brasileiros, o número sobe para 74%. “Minha equipe atende muitos clientes da América Latina e da Ásia, preciso de profissionais que falem inglês e não travem em momentos de pressão. É comum pessoas se perderem em conferências com estrangeiros e não conseguirem acompanhar as negociações. Essa é uma das maiores dificuldades que enfrentamos”, diz Bruno, da HP.


Segundo Américo, da Nextel, o executivo que não tem segurança para sustentar reuniões e argumentar pelos próprios interesses e os da empresa no dia a dia de trabalho pode prejudicar a equipe inteira. “Se o profissional não dominar bem o idioma, pode facilmente cair em armadilhas, firmar acordos desfavoráveis ou não perceber detalhes que podem fazer grande diferença em contratos e até mesmo trazer prejuízos”, diz Américo.

É consenso que quanto mais cedo se inicia o processo de aprendizagem de uma língua estrangeira, mais fácil é a assimilação. Muitos profissionais apontam que a defasagem dos brasileiros na proficiência de outros idiomas é consequência de um sistema de ensino que não contempla esses estudos.

De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996, responsável por definir e regularizar o sistema educacional brasileiro, o ensino de língua estrangeira é obrigatório a partir do ensino fundamental.

Com exceção do município do Rio de Janeiro, que desde 2010 ensina inglês para crianças a partir de 6 anos de idade, a lei não pegou. “Para se ter uma base sólida do idioma, é preciso começar a estudá-lo desde criança, pois com o passar do tempo a dificuldade aumenta. Mas no Brasil isso não acontece, as crianças fazem o primeiro contato com o idioma perto dos 12 anos de idade”, diz Virgínia Garcia, diretora do British Council no Brasil.

Dados de uma pesquisa da Global English com mais de 100.000 entrevistados mostram que o inglês foi escolhido por unanimidade como o idioma que as crianças deveriam aprender além do seu idioma materno, e logo depois o espanhol. 

Investimento na carreira

E quanto aos argumentos de falta de tempo e dinheiro? Obviamente, tanto um quanto outro são importantes, mas a falta deles não pode servir de desculpa diante de uma demanda tão premente do mercado. O jeito é poupar ou reservar um pedaço do salário para pagar um curso. E encontrar tempo na agenda para as aulas.


“A organização do tempo depende das prioridades profissionais da pessoa”, diz Fátima Zorzato, presidente da Russell Reynolds, empresa de recrutamento de executivos, de São Paulo, que considera que a lacuna na proficiência de idiomas estrangeiros pelos brasileiros sempre foi um problema, e que só é possível solucioná-lo com dedicação e determinação.

“Há pessoas que começam o dia às 9 horas, outros acordam às 5. Uns estudam duas vezes na semana, outros, todos os dias. Algumas pessoas colocam prioridades, outras, desculpas”, afirma Fátima.

Para se dedicar ao estudo de um idioma, a administradora de empresas Cristiani Gonzalez, de 38 anos, resolveu deixar o emprego de coordenadora de recursos humanos na Schneider Eletric, fabricante de equipamentos de energia, de São Paulo.

“Não conseguia trabalhar, cuidar da família e conciliar os estudos. Então, decidi tirar um ano para me preparar melhor para a minha carreira”, diz Cristiani, que neste ano foi a Londres para fazer um curso de imersão de 20 dias. “Aprendi a estudar, a interagir e hoje acredito que consigo, sem problemas, fazer uma entrevista profissional em inglês”, diz. 

Na outra ponta, quem investiu no aprendizado colhe os frutos. “O conhecimento de inglês impulsionou minha carreira e possibilitou que eu me envolvesse em projetos mais estratégicos dentro das empresas, o que me abriu portas para novas oportunidades profissionais”, diz o engenheiro Ascold Szymanskyj, de 55 anos, vice-presidente de vendas e operações da F-Secure para a América Latina, de São Paulo.


Em determinado momento da vida profissional, quando começou a participar de negociações com empresas estrangeiras, Ascold voltou a estudar inglês. “Fazia duas horas de aula  diariamente para recuperar o vocabulário e a prática. Sabia que para a minha carreira continuar evoluindo precisava do idioma”, diz o engenheiro, que também estudou espanhol. 

Outros idiomas na sequência

O inglês é a língua estrangeira mais exigida pelo mercado e, por consequência, a mais estudada pelos brasileiros. De acordo com uma pesquisa realizada pela IE Business School, o “Barômetro de Idiomas 2012”, 52% dos estudantes de idiomas no Brasil optam pelo inglês, 14% pelo espanhol e 12% pelo francês.

Na disputa por uma oportunidade de trabalho, quando as qualificações dos candidatos se equiparam, muitas vezes a moeda de desempate é o conhecimento de um terceiro idioma. Quanto maior a capacidade do profissional em se comunicar, melhor.

“O espanhol também merece atenção.Os latino-americanos, em geral, preferem se expressar em espanhol. E no mundo dos negócios, quando se fala a língua deles, a conexão aumenta, os relacionamentos se estreitam e o resultado do trabalho é beneficiado”, diz Américo, da Nextel, que aconselha: “Para quem já fala inglês, minha recomendação é que comecem imediatamente a estudar espanhol.Temos a falsa impressão de que conseguimos nos comunicar nesse idioma pela semelhança com o português, mas é preciso ter o domínio completo da língua para encarar situações profissionais e, assim, conseguir se comunicar e se posicionar dentro das negociações”.