Fala-se muito em sustentabilidade, mas se faz pouco

Sustentabilidade já está em pauta nos conselhos, mas ainda faltam estratégias para fazê-la permear o restante da organização

São Paulo – Ser sustentável nunca esteve tão na moda. A cada dia, mais e mais empresas buscam ganhar esse título que pega tão bem entre investidores e consumidores, produzindo seus relatórios de responsabilidade socioambiental e divulgando suas propostas aos quatro ventos. O problema é que, muitas vezes, elas se esquecem de envolver um público extremamente relevante nesse processo: os próprios funcionários.

O Relatório Global de Sustentabilidade Empresarial 2013, resultado de uma pesquisa com cerca de 2 000 empresas em 113 países, incluindo o Brasil, traduziu em números esse descompasso entre o conceito e a prática da sustentabilidade no mundo corporativo.

Segundo o relatório, 65% das companhias desenvolvem ou acompanham políticas de sustentabilidade a partir do alto escalão, mas apenas 35% dos gerentes recebem treinamentos para integrá-las a estratégias e operações. Embora 90% dos conselhos discutam a questão regularmente, só 8% das empresas oferecem pacotes de remuneração aos executivos com base no desempenho da área. Ou seja, fala-se muito, mas faz-se ainda pouco. 

Essa realidade não é diferente nem entre as melhores empresas para trabalhar no país. Durante a elaboração do Guia VOCÊ S/A — As Melhores Empresas para Você Trabalhar 2013, que contempla uma fase de conversa com funcionários, percebeu-se que pouquíssimos deles sabiam enumerar as políticas de sustentabilidade de suas empresas.

Na maioria das vezes, esse assunto se mostrava muito distante de sua realidade de trabalho. Dados levantados por pesquisadores da Fundação Instituto de Administração (FIA), parceira da VOCÊ S/A no Guia, mostram que o nível de responsabilidade social corporativa da companhia — seja ele alto ou baixo — não influencia a percepção do funcionário sobre a mesma, o que sugere uma falta de conhecimento das ações.

Para especialistas da área, a explicação por trás desse fenômeno está na origem das preocupações com sustentabilidade que, tradicionalmente, vêm de fora, e não de dentro. “Os consumidores demandam produtos mais saudáveis e politicamente corretos, e os investidores pressionam por mudanças para diminuir seus riscos.

Para prestar contas, os conselhos assumem compromissos, mas ‘esquecem’ de avisar ao restante da empresa”, diz Marco Antonio Fujihara, diretor da KeyAssociados, consultoria em projetos de sustentabilidade. 


Outra barreira, de acordo com Beat Grüninger, sócio-diretor da BSD Consulting, que também atua no setor, é o confinamento dos projetos de sustentabilidade a uma divisão específica. “Muitas vezes, está nas mãos de uma única área, que tem de mostrar seus próprios resultados, o que dificulta a disseminação. Quem é chamado a se engajar são os gerentes, que já estão sobrecarregados e veem isso como uma nova obrigação”, diz o consultor.

Envolva os funcionários

O caminho para reverter esse cenário, de acordo com os especialistas, passa por uma transformação da cultura organizacional. E a melhor maneira de chegar lá é começando de baixo. Envolver os funcionários das diferentes áreas nos processos de definição das pautas e na construção das mudanças é a forma mais eficaz de gerar engajamento. “Tem de envolver o empregado na criação das soluções”, diz Grüninger. 

Essa é a proposta do Programa de Engajamento de Trabalhadores, financiado pela Fundação Disney, que já capacitou 12 empresas de São Paulo e deve selecionar outras três ainda neste ano. Criado com o objetivo de melhorar a saúde e a segurança nos locais de trabalho, traz gestores e trabalhadores do chão de fábrica para participar juntos da conversa.

“Em um dos casos, a ideia para economizar energia veio do funcionário que opera máquina. Quando o trabalhador se sente dono do projeto, é muito mais fácil implementá-lo”, diz o sócio-diretor da BSD Consulting, que está ajudando na iniciativa.

Para ter resultados concretos, porém, não basta apenas investir em ações pontuais. A sustentabilidade tem de estar alinhada com as estratégias de negócio e ser traduzida em objetivos claros, que fazem parte da rotina dos funcionários. É assim que funciona na Promon Engenharia, especialista em projetos de infraestrutura, que tem a responsabilidade social como parte de seu DNA.

“Os projetos que fazemos causam impactos sociais e ambientais nas localidades. Um dos indicadores que usamos para acompanhá-los é o sustentômetro. Se o número está abaixo da régua, criamos planos de ação imediatos para contornar isso. Além disso, nunca fechamos um contrato se julgarmos que ele não atende aos nossos padrões éticos”, diz Marcia Fernandes Kopelman, diretora de Relações Humanas e Comunicação da Promon. 


A preocupação não fica restrita aos canteiros de obras. No dia a dia, ela se traduz em condutas que são esperadas de todos os funcionários — da faxineira ao presidente — e impacta até no ambiente do escritório. Um novo andar acaba de ser criado com o objetivo de permitir que funcionários se revezem no uso das mesas e trabalhem pelo menos um dia por semana em casa.

Além de ter menos estações de trabalho que funcionários — o que permite economizar espaço e energia —, o ambiente rotativo desestimula o gasto de papel, já que ninguém pode acumular folhas em gavetas ou armários. Mais de 400 quilos de papel estocados desnecessariamente foram eliminados na mudança. Em teste com um grupo de 80 pessoas, o sistema deve ser progressivamente expandido para toda a empresa. 

Além de questões de responsabilidade social e ambiental estarem presentes em todos os treinamentos comportamentais da empresa, os profissionais também são avaliados formalmente sob essa ótica (o item é um dos que determinam a remuneração variável), o que é fundamental, na opinião dos especialistas.

“É muito importante estabelecer metas e métricas para que os resultados sejam visíveis”, diz Ricardo Zibas, gerente sênior da área de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da KPMG no Brasil.

No laboratório Fleury, a forma de envolver os funcionários na estratégia de sustentabilidade foi convidá-los a assumir um compromisso pessoal e colocar a mão na massa. Atualmente, o grupo conta com 740 voluntários ativos trabalhando em projetos apoiados pela instituição. O número cresceu 110% em relação a 2012. 

Entre as iniciativas para estimular a participação está a criação de comitês de voluntariado locais, grupos de cinco funcionários de áreas diversas da empresa que ficam responsáveis pelo planejamento e pela execução das iniciativas de cada regional. O engajamento também é estimulado por meio do compartilhamento de oportunidades e da realização de eventos. 

Um dos destaques é o Projeto Dom, que selecionou dez organizações da área de saúde para serem capacitadas em sua primeira edição, no ano passado, e deve selecionar outras 12 que passarão pelo mesmo processo neste ano. Além de todo o treinamento formal, feito na universidade corporativa do Fleury, as instituições recebem o apoio de funcionários voluntários no dia a dia.

“Médicos ajudam no fluxo de atendimento, e profissionais da área de gestão ajudam na criação de planos de negócios para captação de recursos. Só comunicação é pouco, as pessoas precisam ser coautoras dos projetos e elas desejam isso”, diz Marcelo Cardoso, diretor executivo de Pes­soas, Estratégia, Inovação e Sustentabilidade do Grupo Fleury.

Para Paulo Branco, vice-coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da FGV-Eaesp, provocar a reflexão sobre o papel do profissional não só dentro da empresa, mas na sociedade e em sua vida pessoal, é o caminho para que ele se enxergue verdadeiramente como parte da mudança.

“O indivíduo é um só. É importante fazer com que ele pense sobre seu comportamento na hora de consumir ou pagar impostos, por exemplo”, diz o professor. E a empresa tem de ser a primeira a dar o exemplo, mostrando coerência entre o discurso da porta para fora e o comportamento da porta para dentro. Senão, é só blá-blá-blá.