Pé no freio

Oque para muitos significa solução, para o paulista Roberto Afonso, supervisor de uma multinacional de pneus, tem sido um problemão. Aumento de salário, para ele, representa uma faca de dois gumes: eleva o padrão de vida, mas também traz dívidas mais volumosas. Sempre que o saldo no banco melhora, a família Afonso começa a consumir mais. Em conseqüência, nunca sobra dinheiro, crediários e cheques pré-datados multiplicam-se e as contas empilham-se na contabilidade familiar. Para complicar, Roberto e sua esposa, Eliane, esperam o segundo filho para este mês e não têm nenhum patrimônio ou poupança que garanta o sono tranqüilo.

Dificuldades não são novidade na vida desse paulista de Santo André. Roberto começou a trabalhar quando tinha apenas 11 anos. Até se casar, aos 28 anos, sempre ajudou os pais no sustento da casa. “Parei de fazer isso porque não estava conseguindo dar conta nem dos gastos da minha própria família”, explica Roberto, pai de Guilherme, de 3 anos, e de Gabriel, o bebê que está a caminho. Paradoxalmente — mas felizmente –, as dívidas foram crescendo na mesma proporção de seu crescimento profissional. Para quem só se formou aos 29 anos, ele teve uma ascensão rápida: em seis anos, passou de ajudante de vendedor ao cargo de supervisor que hoje ocupa numa multinacional. “Durante um período, precisei interromper a faculdade porque não podia pagar as mensalidades”, lembra. Hoje, aos 32 anos, seu salário de aproximadamente 3,5 mil reais é três vezes maior que o do início da carreira. Mas a folga financeira aparentemente não tem aumentado. O casal Afonso continua enrolado em dívidas e sem capacidade de poupança, da mesma maneira que no tempo em que eram solteiros.

A família Afonso tem um padrão de vida incompatível com seus rendimentos. De um lado, o consumo de bens não duráveis é alto, como se a receita fosse maior. De outro, vivem num apartamento alugado numa zona de classe média baixa em Santo André e não possuem nem mesmo um automóvel. Roberto desloca-se todos os dias até Jundiaí, onde trabalha, com um carro cedido pela empresa. Para conferir onde estão as incongruências, basta dar uma olhada no orçamento mensal. Na coluna de passivos, gastos em crediários, cartões de crédito, cartões de afinidade de lojas de departamento e cheques pré-datados são recorrentes. “Vou usando os cartões que me dão mais dias sem juros”, tenta justificar Roberto. “Mas já negociei as dívidas de dois deles e os cancelei quando vi que não ia honrar os pagamentos.” A coluna de ativos está completamente vazia. Roberto não possui nenhum bem nem liquidez — o dinheiro para emergências guardado no banco. A situação é preocupante para um pai de crianças pequenas.

Roberto e Eliane estão “apertados” desde que ela engravidou do primeiro filho. “O que entrava a mais saía para os gastos com o bebê e para saldar dívidas anteriores”, diz o supervisor. Desde então, o casal vem tentando se organizar para colocar as finanças pessoais em dia e comprar um apartamento em Jundiaí. “É nosso sonho mais emergencial. Queremos qualidade de vida”, diz Eliane. Depois de realizado esse plano, Roberto planeja adquirir um carro para a família e abrir uma poupança para os filhos. “Vou aproveitar que eles ainda são pequenos para começar a economizar já para a faculdade.” VOCE s.a. levou o caso para Osvaldo Calixto, consultor de renegociação de dívidas da Sagy Consultoria Financeira. A seguir estão as sugestões que ele fez para o casal resolver de vez seus problemas.

Para começar

O “rolo” financeiro em que Roberto e Eliane estão metidos tem uma origem comum ao de muitos brasileiros: aumento desproporcional do consumo. Muitas famílias começam a gastar mais à medida que têm aumentos de salário. A questão é que esse “gastar a mais” normalmente extrapola o crescimento salarial. “Se era possível viver dentro do limite do anterior, por que então é preciso subir o consumo na mesma proporção que o salário?”, questiona Calixto. No caso de Roberto, a coisa se complica um pouco mais porque ele trouxe um histórico de dívidas do período em que estava na faculdade, quando ficou alguns meses desempregado. “Dinheiro entrando era igual a dinheiro saindo para tapar buracos antigos”, lembra Roberto. Por isso, na opinião do consultor da Sagy, em primeiro lugar, é essencial saldar as dívidas já contraídas, contendo o consumo de todas as formas. “Neste ano eles vão ter de contar moedas para reconstituir seu crédito”, diz Calixto. Portanto, presentes de Dia das Mães, Dia das Crianças, aniversário e gastos supérfluos estão proibidos. “A família já vai ter um acréscimo inevitável quando o bebê nascer”, prevê Calixto.

Saldar as dívidas

Aparentemente, os Afonso têm uma sobra mensal no orçamento familiar de 1,4 mil reais. Excluindo as prestações dos débitos que precisam ser pagos (nos meses de maio, junho e julho de 2002 o valor deve se manter em torno de 790 reais), há uma sobra de cerca de 600 reais. Calixto sugere que o casal use esse valor para quitar dívidas menores. O importante é negociar a antecipação desses compromissos com os credores. O pagamento deve ser feito à vista e com desconto.

Há dívidas que terminam de ser pagas no primeiro semestre e outras que se estendem até dezembro. Calixto calcula que até julho Roberto gaste 5,4 mil reais para fazer frente às contas. Daí até o final no ano, esse valor deve cair para 1,6 mil reais. E há juros que deixarão de ser pagos já no meio do ano. Por isso, eles passam a ter uma pequena folga a partir de junho. Assim que começar a sobrar alguma coisa, a família pode iniciar uma poupança com o objetivo de atingir um valor mínimo e migrar para um fundo mais lucrativo. “Com mil reais eles podem ir para renda fixa.” Nesse momento, devem observar as taxas de administração cobradas pelos bancos, já que, para investimentos de pequeno valor, geralmente as taxas são altas.

Neste mês, com a chegada do bebê Gabriel, a vida financeira da família vai se modificar temporariamente. Entram nos gastos fraldas, farmácia, mamadeiras e alimentação especial, entre outros itens. O consultor calcula que Roberto consumirá aproximadamente 250 reais a mais todo mês por causa da inclusão dessa nova lista no orçamento. Parte da suposta sobra de 600 reais será usada para essa finalidade. Restam ainda aproximadamente 300 reais para ir quitando pequenas dívidas ou para gerar poupança. “Eles só não podem ver essa sobra como poder de consumo”, alerta o consultor.

Entrar num financiamento

Se a família se preocupar em apertar o cinto e não criar outras dívidas, chegará ao fim deste ano com um saldo de poupança de 9 mil reais (juntando aquelas sobras mensais ao 13o integral). Aí podem pensar no apartamento em Jundiaí. Para dar entrada no imóvel que desejam (no valor de 98 mil reais), eles devem usar esses 9,2 mil economizados ou o saldo da conta de FGTS, caso ele atinja o mesmo valor. Com o salário atual de Roberto, só terão fôlego para assumir um financiamento de no mínimo dez anos. Calixto calculou uma prestação hipotética de 1,26 mil reais para um imóvel no valor desejado pela família Afonso, num financiamento de dez anos com taxas de juro de 1% ao mês mais correção anual da poupança. Tal prestação consumiria quase toda a sobra do orçamento do casal, dentro dos padrões atuais. “O que eles podem fazer é optar por um imóvel usado, mais barato, inicialmente. E deixar para adquirir um mais caro no futuro, depois que tiverem maior folga financeira”, sugere Calixto. De outro modo, precisarão deixar de lado temporariamente o objetivo de começar a poupança para a faculdade dos filhos.

Mesmo que optem pelo imóvel mais caro, o consultor da Sagy lembra: “O negócio é nunca fragmentar objetivos. Enquanto o foco for pagar dívidas, eles devem se preocupar exclusivamente com isso. Quando os planos forem de longo prazo, caso do imóvel, devem se concentrar em pagar as prestações.” Quando finalmente estiverem morando em Jundiaí, Calixto prevê uma diminuição nos gastos com pedágio e a eliminação do aluguel. Além disso, o ajuste nas contas vai liberar a família das altas taxas bancárias que vem pagando hoje e dos juros das dívidas. Isso deve gerar um superávit de cerca de 600 reais todo mês, mesmo que o salário de Roberto não aumente nesse período. Esse montante precisa ser visto com olhos diferentes dos que a família Afonso tem tido para com o dinheiro nos últimos anos. A aposta é que, depois de um ano de ajuste nas contas e mais um longo período de financiamento, os hábitos da família mudem. De gastadores sem controle, Roberto e Eliane, provavelmente, vão se transformar em consumidores conscientes e aprender a gastar só quando tiverem dinheiro em caixa. A partir daí, terão chance de começar uma nova fase em sua vida.

ORÇAMENTO
Quanto
Roberto Afonso ganha, quais são suas despesas médias e como fica a situação
no fim do mês
RECEITA
Renda Salário
líquido
3420,00
Vale-refeição 80,00
Total 3500,00
DESPESAS
COM MORADIA
Aluguel 320,00
Condomínio 80,00
Gás/luz/água 35,60
Celular empresa
IPTU 18,00
Telefone fixo 100,00
Empregada 30,00
Total 1 583,60
OUTRAS
DESPESAS
Alimentação
405,00
Vestuário
120,00
Mensalidade
do filho
+ espanhol
218,00
Seguro do
carro
empresa
Combustível
empresa
IPVA/manutenção
empresa
Pedágio 145,00
Dízimo 360,00
Taxas bancárias
100,00
Anuidade cartões
cancelados
Fitas de vídeo
12,00
Livros, revistas,
discos
35,00
Cabeleireiro
35,00
Presentes
50,00
Total 2
1 480,00
Total
de despesas
2 063,60
Superávit
mensal
1 463,40
PASSIVOS
Quais
são os passivos de Roberto Afonso
Cartões
de crédito
(cancelados) 1 701,64
Dentista 82,50
Crediários 475,00
Cartões de
lojas
430,00
Cheques pré-datados 741,65
Total 3 430,79

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