Para ser demitido, basta estar empregado

O xis da questão é aprender a cair. Administre as perdas e faça planos para o futuro

Você já foi demitido hoje? À primeira vista, essa pergunta parece absurda. Mas pare e pense se ela é mesmo tão despropositada assim. Na verdade não é. Principalmente se você considerar que a demissão é um processo absolutamente previsível que pode acontecer a qualquer dia, a qualquer hora e com qualquer um — até mesmo com você, mesmo que seja um profissional de alta performance. Existe uma saída, no entanto: é possível ser demitido e ainda lucrar com isso, não apenas em termos financeiros mas também com relação à carreira. Senão, como explicar o fato de muitos profissionais saírem da rescisão de contrato com uma bolada no bolso, uma relação cordial com o chefe e prontos para o próximo desafio profissional? Certos profissionais, porém, agem de forma autodestrutiva e adotam um comportamento que acaba dificultando seu reposicionamento no mercado e, em certos casos, até comprometendo seriamente a trajetória profissional.

Meio cheio ou meio vazio?
Qual a diferença entre o demitido que sai da situação por cima e o que se sente derrotado? Uma resposta está na maneira como cada um analisa a situação. Como naquela história em que um pessimista e um otimista vêem um copo com líquido pela metade: o primeiro diz que está meio vazio, e o segundo, meio cheio. Tudo é uma questão de ponto de vista. Mesmo assim, não dá para negar o impacto negativo de uma demissão. Acontece que quem se recupera rápido tem, a nosso ver, o que chamamos de “mentalidade do projeto”. Essas pessoas encaram todo posto de trabalho como um degrau na carreira, uma missão temporária. É uma atitude saudável, que está em sintonia com um fenômeno administrativo que apareceu há cerca de 20 anos em setores movidos a empreitadas, como os de consultoria e de construção civil. É um padrão que encara como natural a existência de executivos especializados em projetos. Em certos casos, a própria empresa é um projeto com data marcada para terminar, seja pelo curto ciclo de vida do produto, pela competição acirrada, seja pela escassez de financiamento. Apesar de real, essa mentalidade ainda é uma espécie de tabu do mundo corporativo. A noção de que um profissional tarimbado só sai da empresa ao se aposentar está morta e enterrada há muito tempo, ao menos entre o empresariado americano. A maioria das empresas, porém, se faz de desentendida e tenta a todo custo convencer o alto escalão de que está, sim, interessada no desenvolvimento profissional de seus executivos. Sem isso, seria praticamente impossível contratar novos talentos.

Na maioria das vezes, a mentalidade do projeto e a do emprego eterno convivem em paz. Um presidente sabe que, no fundo, o lugar que ocupa é temporário. Só que é muito fácil ignorar e mesmo negar esse fato. Quando, por motivos estratégicos, a solução encontrada pela empresa é a demissão, vêm a desilusão e a sensação de fracasso. Mesmo profissionais experientes correm o risco de sentir que estão lidando com perdas irreparáveis e acabam caindo em algumas armadilhas altamente prejudiciais para a carreira. Estas são as mais comuns:

Perda no 1: a identidade
Tem gente que, com o passar do tempo, “encarna” o posto e se torna incapaz de visualizar a empresa sem sua presença e vice-versa. Esses costumam reagir à demissão com fúria, com sede de vingança. Quem é mais vulnerável a essa armadilha? Gente com um tempo considerável de casa. A demissão pode ser fruto de uma mudança súbita de percurso ou de uma séria crise financeira. Em geral, os alvos são fundadores e altos executivos que chegaram ao poder graças a promoções. Ao longo do caminho, esses profissionais passaram a se achar indispensáveis, e por isso desmoronam diante de uma demissão inesperada. Em geral, voltam-se contra a empresa, que se transforma a partir daquele momento num antro de inimigos.

Perda no 2: o grupo
Essa é a arapuca mais freqüente entre jornalistas e profissionais da área publicitária, por exemplo. E ainda em novos empreendimentos, quando o ambiente costuma ser de alta voltagem emocional. São setores em que é normal o aparecimento de laços emocionais entre colegas, exatamente como costuma acontecer nos pelotões de guerra. Um executivo com relacionamentos de tal intensidade corre o risco de fazer do trabalho o centro gravitacional de seu universo. Tendo projetado sobre os colegas o papel da família, esses profissionais sofrem muito quando a turma se afasta na hora da demissão. E como acusar os colegas? Quem ficou já está com sentimento de culpa por ter sobrevivido ao corte e, em geral, passa a temer pela própria pele. Distanciar-se do demitido passa a ser, então, puro instinto de sobrevivência — nada mais. Esse fato, porém, passa batido pelo executivo e a sensação é de perda de amigos, de rejeição. O resultado? Depressão e muita amargura.

Perda no 3: a auto-estima
Quando a auto-estima vem abaixo, o profissional some sem alardes, sem gritaria e, a maior das injustiças consigo mesmo, sem um pacote justo de rescisão. Acaba mergulhado numa amargura que emperra a busca de novas oportunidades. As vítimas dessa terceira armadilha tendem a ser introvertidas. Numa empresa, costumam se dar bem em atividades financeiras ou contábeis, em pesquisa ou engenharia. Áreas que, em geral, não exigem um alto grau de socialização. No caso de uma demissão, esses executivos retraem-se ainda mais e desaparecem silenciosamente.

Olhe para a frente
Ao ser demitido, todo profissional deveria seguir a boa e velha recomendação de contar até 100 para esfriar os ânimos. Ou seja, deveria resistir ao impulso de falar o que vem à cabeça. O peixe morre pela boca, lembra? O melhor é tentar falar o mínimo possível e buscar o quanto antes a ajuda de um advogado especializado em negociar pacotes de rescisão. Ligar para colegas, despachar e-mails e procurar a imprensa? Jamais! Antes de assinar o contrato de rescisão, a regra é: boca fechada. E isso vale para a família também.

Essa é a tática no curto prazo. Agora, é preciso explorar estratégias de longo prazo para achar a saída da próxima vez em que você entrar nesse labirinto. Tais estratégias implicam uma atitude proativa, até mesmo calculada, ante a demissão. Exigem, ainda, a adoção da mentalidade do projeto. Um executivo que reconhece a transitoriedade de seu emprego estará apto a adotar medidas estratégicas para a etapa seguinte de sua vida profissional. Embora banais, são cuidados facilmente negligenciados na correria diária. Na seqüência de uma demissão, porém, têm valor incalculável. Então, prepare-se para eventualidades. Siga à risca este plano de ataque:

Plano no 1: pense na rescisão
Um profissional nunca é mais atraente para a empresa do que na véspera da contratação. Por isso, essa é a melhor hora para incluir em seu contrato de trabalho uma cláusula sobre rescisão. Caso esteja sendo promovido para um posto que exija um novo contrato, aproveite para acrescentar ao documento os termos de uma possível rescisão. A exemplo de um acordo pré-nupcial, tal discussão pode soar totalmente fora de contexto na hora da contratação. É, porém, a melhor proteção no caso de uma saída conturbada. Contrate um advogado com experiência na área para garantir um pacote satisfatório de indenização caso você perca seu emprego.

Plano no 2: cultive seu networking
Outra estratégia valiosa para sobreviver a uma demissão é manter os contatos fora da empresa. Num mundo movido a projetos, ter uma rede atualizada de contatos profissionais exige disciplina. A importância do networking é óbvia, e, para fazer dessa atividade mais do que mera intenção, é preciso agendar e cumprir com rigor a tarefa. Um lembrete na agenda a cada duas semanas ajuda a recordar que é hora de ligar para pessoas de extrema importância em sua rede de contatos. Assuma esse compromiso com você.

Plano no 3: aumente sua visibilidade
Essa é outra tática para garantir que sua carreira continue progredindo mesmo depois de uma demissão. Em geral, um executivo sabe que promover uma campanha pessoal de marketing pode ser fatal para sua permanência na empresa. Afinal, a única pessoa com poderes para representar a corporação costuma ser o presidente. E o departamento de relações públicas da companhia pode até agendar sua participação em conferências ou enviar artigos de sua autoria para publicação em veículos especializados. Tais oportunidades, porém, são raras. E é aí que entra sua imaginação. Impossível aparecer na imprensa? Pode ser, mas não entre os colegas de profissão. Uma saída é atuar no conselho de outras empresas. Ao menos uma delas deve ser de um setor distinto do seu. Com isso, um executivo ganha perspectiva distinta no mercado e, ainda, expande a rede de contatos para além da arena em que atua, viabilizando a migração para novas empresas e novos setores no futuro. É possível, também, exercer um papel estratégico de liderança numa associação de classe. A participação voluntária em organizações externas à empresa, por exemplo, coloca o executivo em contato direto com gente de fora. Além disso, garante sua visibilidade no setor.

Plano no 4: ligue seu radar
Preste atenção no clima de seu local de trabalho para evitar que a demissão seja uma surpresa. Como estar preparado? Observe o modus operandi da empresa na hora de demitir alguém. O fim da relação empregador/empregado costuma ser traumático ou sempre fica uma porta aberta para um retorno no futuro? Compare as atribuições de seu posto e as alterações ocorridas em outros cargos. Há algo que dê a idéia de que o fim está próximo? Se a resposta for sim, é aconselhável pensar seriamente se seu emprego continuará a existir ou se sofrerá mudanças depois que sua missão for concluída. Outra dica útil é cultivar um relacionamento estreito com um assessor de confiança que tenha testemunhado uma situação parecida no passado. Tal indivíduo será capaz de alertá-lo para possíveis mudanças de rota. E lembre-se: infelizmente, quem acha que está para ser demitido quase sempre tem razão. Em caso de confusão diante dos sinais emitidos pela empresa, cogite a contratação de um consultor especializado em orientar profissionais nesse tipo de situação.

Plano no 5: saia antes de ser demitido
Se a estratégia da empresa sugere o fim do seu emprego, talvez seja melhor antecipar o rompimento. Ao tomar a iniciativa, você vira o sujeito da ação, e não um mero objeto. Nada disso quer dizer, no entanto, que um executivo deva ficar ressabiado a ponto de pular de empresa para empresa ao menor sinal de perigo. Aqui, a idéia é prestar atenção na evolução da própria carreira, no sentido mais amplo do termo, ou seja, no de atividade profissional ao longo da vida. O executivo que insiste em acreditar no mito do emprego para todo o sempre pode ter dificuldade em encarar um posto como um mero projeto. Acontece que quem não pensa que o cargo é temporário fica à mercê da decepção que acompanha a perda inesperada do emprego.

No mundo dos negócios, a demissão é uma das crises mais previsíveis de todas. Ao encarar o trabalho como uma missão temporária, a demissão vira uma possibilidade para o futuro. Administrar a demissão é assumir as rédeas da carreira.