Como pedir um aumento de salário com sucesso

Negociar um aumento salarial pode ser mais simples do que parece — ter resultados concretos para apresentar e escolher o momento certo para conversar são os primeiros passos

São Paulo – A hora é boa para negociar um aumento. Segundo uma pesquisa mundial da consultoria Grant Thornton em 40 países, 88% das empresas brasileiras devem conceder reajustes salariais a seus funcionários nos próximos 12 meses, ante uma média global de 65%.

As condições favoráveis ao trabalhador brasileiro se devem ao baixo índice de desemprego, atualmente na casa de 6%. Some-se a isso a falta de mão de obra qualificada e o resultado é que as organizações aceitam pagar mais para não perder colaboradores.

A crise econômica europeia, que leva as companhias a agir com cautela quando o assunto é iniciar um novo investimento, ainda não contaminou o mercado de trabalho. “Isso resulta em uma propensão maior dos empresários em aumentar salários”, diz Madeleine Blankenstein, sócia da Grant Thornton Brasil.

Porém, como há setores menos aquecidos, principalmente na indústria, a consultora recomenda bom senso aos profissionais na hora de negociar. Antes de qualquer conversa, confira qual a situação da empresa em que trabalha — se está investindo ou se está em contenção de gastos. E só continue o processo se o momento estiver favorável.  

Brasileiros não lidam bem com a questão do pedido de aumento. Em geral, os profissionais se intimidam. “Eles acham que solicitar um aumento pode soar como mercenário. Alguns relatam até medo de perder o emprego”, afirma Mário Andrade, headhunter da Robert Half de São Paulo.

Segundo pesquisa feita pela empresa de recrutamento com 700 brasileiros, 32% dos profissionais que pediram aumento no ano passado foram atendidos. O levantamento mostra que 38% dos aumentos foram concedidos como um reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nos meses anteriores.

E 47% dos profissionais usaram a estratégia de falar com o chefe depois de um projeto bem executado. Na visão de Mário, a maioria das pessoas espera ser reconhecida naturalmente e esquece que, ao não falar sobre o assunto com o chefe, pode perder boas oportunidades. 

A negociação de salário pode ser mais simples do que se imagina. É o que afirma Jim Hopkinson, professor de estratégias de marketing na Universidade de Nova York e autor do livro Salary Tutor, lançado nos Estados Unidos e sem previsão de chegar ao Brasil. Ao contrário do que se imagina, um período de economia instável pode ser, sim, adequado para um pedido de aumento ou promoção.

“O fato de você mostrar-se consciente da situação e falar sobre as metas da carreira comprova a sua iniciativa e foco”, diz o professor. Entre os passos mais importantes para conseguir um aumento estão a organização, o planejamento, a realização correta de tarefas e uma boa comunicação com a equipe.


O funcionário deve, ainda, estar sempre atualizado sobre sua real posição no mercado de trabalho, não apenas se seu salário está dentro do mercado, mas se suas competências estão atualizadas. “Descobrir o maior nível de remuneração no mercado é essencial para negociar”, diz Sílvio Celestino, sócio-fundador da consultoria Alliance Coaching, de São Paulo.

A pesquisa pode ser feita por meio de consultas a conhecidos e sites de empregos. “É importante pensar em quais argumentos seu chefe irá usar para não lhe dar o aumento e que argumentos e fatos você vai usar para convencê-lo”, diz Sílvio.

Se você está seguro e tem dados para mostrar sobre sua evolução, não há nada de errado em solicitar um aumento. O máximo que pode acontecer é ouvir um “não”. Caso isso ocorra, há o que aprender. Questione o que falta para você obter um aumento e que aspectos deve trabalhar. E, claro, corra atrás de preencher as lacunas apontadas pelo chefe.

Está alto mesmo?

Nos últimos anos, o crescimento econômico do Brasil e a disputa por profissionais fizeram com que os salários no país aumentassem. Numa comparação com países ricos, sobretudo os europeus, que vivem uma situação de crise e achatamento da renda, a remuneração brasileira passou a figurar entre as melhores do mundo. Isso é fato.

Porém, um levantamento feito pelo professor Wilson Amorim, da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo, mostra que o salário do brasileiro recebeu aumento apenas um pouco acima da inflação na última década.

Com base em dados das pesquisas de emprego do IBGE e do Dieese, a FIA mostra que, em 2011, por exemplo, 86% das empresas deram aumentos superiores à inflação. No entanto, 62% concederam reajustes de, no máximo, 2% acima da inflação.

No outro extremo, só 1,6% das organizações deu aumento 5% acima da inflação em 2011 — e grande parte se deve mais a acordos sindicais do que a mérito. Resumindo: os salários podem estar altos em relação aos do mundo, mas a renda do trabalhador não aumentou tanto quanto as companhias querem fazer crer.