Para combater descrédito, grupo lança manifesto em defesa do coaching

No Dia do coach, profissionais lançam a campanha e manifesto Coaching Sim nas redes sociais

São Paulo – É inegável que uma crise de reputação paira sobre a atividade de coaching no Brasil. A proliferação de profissionais que, – sem preparo nem ética – fazem promessas questionáveis e adotam práticas duvidosas aliada à busca de soluções e atalhos milagrosos explica, ao menos em parte, por que o coaching tem atraído tanta atenção negativa.

O descrédito da profissão vai além de piadas nas redes sociais. Uma proposta popular de criminalização do coaching com mais de 20 mil assinaturas chegou ao Senado Federal e há ainda outros quatro projetos de lei com proposta de regulamentação em tramitação na Câmara.

Em meio a esse cenário difícil, um pequeno grupo de coaches lança hoje o manifesto independente Coaching Sim em defesa da atividade. “Somos profissionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Distrito Federal”, diz a psicóloga e coach executiva Gilda Goldemberg, uma das organizadoras do movimento que busca recompor a imagem do profissional na sociedade. “As pessoas estavam ficando com receio de se apresentar como coaches”, diz ela.

A data de hoje foi escolhida por ser uma efeméride liga à atividade: 12 de novembro é o Dia do Coach, em alguns estados, como São Paulo e Rio de Grande do Sul. A ideia, segundo ela, é aproveitar esse gancho para viralizar a campanha nas redes sociais, atrair mais profissionais interessados em participar de uma agenda positiva, deixando claro o que é coaching e quais os seus pressupostos.

Sem exigir nenhuma credencial de formação específica nem diploma dessa ou daquela escola de coaching, o grupo vai acolher todos os coaches, desde que compartilhem a visão sobre o que é coaching proposta no manifesto divulgado hoje na página do grupo no LinkedIn.O grupo vai estimular que as pessoas, ao aderirem à campanha, divulguem as hashtags #CoachingSim #EuApoioCoachingSim.

Não só coaches serão convidados a participar. Clientes e empresas que adotam processos de coaching também poderão compartilhar insights, conteúdos e resultados positivos.

“O Google usa coaching”, lembra a coach executiva e psicóloga Eva Hirsh Pontes, que também faz parte do movimento. Há alguns meses, o diretor de liderança e coaching do Google, David Peterson, participou de um painel em que dividiu suas impressões sobre melhores práticas para processos  dentro das organizações. É esse tipo de informação e conteúdo que o grupo pretende compartilhar.

“Jesus não era coach”

“Coaching sim, promove o desenvolvimento. Coaching sim, é um processo criativo. Coaching sim, é parceria. Coaching sim, segue um código de ética”, diz um trecho do manifesto.

Desconfie de milagres. “O cliente escolhe o objetivo e o caminho. Requer esforço e tempo para a mudança”, diz Gilda. O coaching não resolve magicamente a vida de ninguém. Aliás, não é para solucionar vidas e, sim, para alcançar um objetivo específico, como por exemplo, definir estratégias para os próximos cinco anos de carreira.

“Não tem sucesso fácil, não é pensamento positivo. O coaching é um percurso adaptativo. E se não tem acordo, não é coaching. Jesus não era um coach”, explica a coach executiva e psicóloga Eva Hirsh Pontes, que também faz parte do movimento.

A desinformação acerca do que é, de fato, coaching, está ligada à novidade da atividade, de acordo com Eva. “Tem 40 anos e deriva da combinação de diversos conhecimentos”, diz a especialista.

A International Coach Federation ICF, principal organização global de coaches, que reúne 18 mil membros de mais de 100 países, tem apenas 25 anos. Para conseguir a primeira credencial da ICF é são necessárias 60 horas de formação em coaching, além de 100 horas de prática como coach — 75 delas gastas com, no mínimo, oito clientes.

A formação de coach oferecida pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), que já formou 50 mil profissionais, tem 180 horas, de aulas e atividades práticas. O aluno vai estudar administração, gestão de pessoas, neurociência, programação neurolinguística (PNL), antropologia, sociologia e conceitos de psicologia. Para se formar master coach, são 360 horas de aulas presenciais. Ao todo o tempo de dedicação chega a 500 horas.

 Tema de interesse acadêmico há 20 anos

Nos últimos 20 anos, mais de 17,6 mil pesquisas sobre a prática e os impactos do coaching foram publicadas, de acordo com informações coletadas no site Web of Science. Do Brasil, há 490 pesquisas. O catálogo de teses da Capes lista 212 teses sobre coaching. “O volume de teses que citam coaching mostra que a produção científica sobre o coaching está acontecendo no Brasil”, diz a coach Valéria Blanco, que ´faz doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações na Universidade de Brasília (UNB).

Nenhuma das teses no entanto, relaciona coaching a física quântica, justamente um dos argumentos utilizados por William Menezes para sugerir uma “lei de criminalização do coach” de abril deste ano. “Se tornada lei, não permitirá o charlatanismo de muitos autointitulados formados sem diploma válido. Não permitindo propagandas enganosas como: “Reprogramação do DNA” e “Cura Quântica”. Desrespeitando o trabalho científico e metódico de terapeutas e outros profissionais das mais variadas áreas”, diz a descrição da sugestão.

O apelo popular fez com que o senador Paulo Paim (PT) da Comissão de Direitos Humanos convocasse uma audiência pública para debater o tema, em setembro deste ano. A comissão ainda analisa se o tema, e, se aprovado, pode virar um projeto de lei.