Para chegar aos melhores empregos, as mulheres precisam de “outras” redes

E estar bem conectada não basta

Muitos artigos relacionados à carreira recomendam que, para se ter sucesso no mundo dos homens, as mulheres devem agir como homens.

Entre outras coisas, isso pode significar ter que se relacionar com colegas do sexo masculino. Por exemplo, uma publicação voltada a negócios incentiva as mulheres a “entrar no jogo” participando de jogos de golfe com colegas de trabalho do sexo masculino, um site de carreiras proclama que “cerveja é boa para criar vínculos”, aconselhando as mulheres a se socializarem bebendo com colegas do sexo masculino. Pela lógica, parece que se envolver nas mesmas atividades de desenvolvimento de rede que os homens aumentará a exposição das mulheres às oportunidades de trabalho.

No entanto, um novo estudo sugere que não é bem assim. Embora seja verdade que mulheres altamente conectadas tendem a conseguir empregos melhores, as mulheres mais bem-sucedidas também têm algo que não conseguem obter participando de “cervejadas com os meninos”: laços estreitos com colegas do sexo feminino.

Os pesquisadores chegaram a essa conclusão analisando dados de redes sociais e anúncios de empregos para graduados de um programa de MBA. Descobriram uma importante diferença de gênero: para os homens, o fator mais importante que afetou o status do emprego após a formatura foi o quão “central” eles estavam em suas redes – ou seja, com quantas pessoas altamente conectadas eles se relacionavam.

Mulheres bem-sucedidas também tendiam a ser mais centrais, mas isso, por si só, não bastava para conseguir um ótimo emprego. As mulheres mais bem-sucedidas geralmente também participavam de um círculo muito íntimo com colegas mulheres.

A razão para essa diferença pode ser o tipo de informação de que homens e mulheres precisam para ter sucesso. Ao que tudo indica, ter inúmeras conexões dá acesso imediato ao que os pesquisadores chamam de “informação pública”, tais como quais empresas estão contratando e que tipos de candidatos elas buscam. Para os homens, só esse tipo de informação pode ser suficiente para se conseguir um bom emprego. “Os homens realmente precisam de uma rede que maximize seu acesso e exposição a informações de mercado”, diz o coautor do estudo Brian Uzzi, professor titular de gestão e organizações da Kellogg.

As mulheres, por outro lado, “precisam de tudo que os homens necessitam e de algo mais”, diz Uzzi. Mais especificamente, as mulheres precisam de “informações privadas”, que podem incluir dicas sobre a cultura e a política de liderança da empresa, ou dicas sobre como causar uma boa impressão em uma indústria dominada por homens, por exemplo.

No entanto, é provável que as mulheres só confiem nessas informações privadas se forem contatos confiáveis com os quais se relacionam. Além disso, só as mulheres podem fornecer informações sensíveis e específicas de gênero que serão úteis em um contexto de carreira – daí o benefício de ter conexões próximas que sejam mulheres.

Entretanto, há uma ressalva, alertam os pesquisadores: se os contatos da rede de uma mulher não tiverem suas próprias redes que sejam suficientemente diversificadas, ela pode se deparar com uma câmara de ressonância que irá prejudicar suas chances de sucesso.

Currículos idênticos, mas redes muito diferentes

Uzzi e seus coautores, professores assistentes de pesquisa da Kellogg Yang Yang e Nitesh Chawla, da Universidade de Notre Dame, queriam saber como, exatamente, as redes sociais influenciam as trajetórias de carreira, especialmente para pessoas em busca de funções de liderança.

Afinal, a maioria dos graduados em programas de MBA é altamente qualificada, com semelhanças nas notas dos exames, médias de notas no curso e experiência de trabalho, diz Uzzi. “Teoricamente, os homens e as mulheres devem parecer indistinguíveis”.

No entanto, os pesquisadores suspeitaram que as conexões que os alunos formam na faculdade não seriam tão idênticas.

Sabiam que muitas conexões entre os alunos eram frágeis, com links “superficiais”: esses alunos não trocavam informações pessoais profundas, mas podiam conversar sobre oportunidades de trabalho e salários em geral.

Outras conexões, no entanto, eram relações mais fortes e “incorporadas”. Elas existem entre amigos íntimos que compartilham informações sensíveis e subjetivas, como detalhes sobre como é trabalhar em uma determinada empresa, ou (para as mulheres) dicas para avançar em setores dominados por profissionais do sexo masculino.

Uzzi e seus colegas queriam saber como diferentes tipos de relacionamentos influenciavam o sucesso na carreira e se havia alguma variação na resposta entre homens e mulheres.

Para investigar, a equipe obteve dados anônimos sobre ex-alunos que se formaram em um programa de MBA em 2006 e 2007. Os dados incluíam notas nos exames de admissão dos alunos, área de graduação, média de notas no curso, experiência de trabalho, nacionalidade e gênero, bem como o salário inicial de cada pessoa após a formatura.

Os pesquisadores normalizaram os salários por região e por setor e, em seguida, usaram os salários para atribuir um ranking a cada função.

A equipe de Uzzi também obteve informações anônimas sobre mais de 4,5 milhões de e-mails enviados entre os alunos durante o período do estudo. Os pesquisadores não conseguiam ler as mensagens, mas podiam ver quais alunos estavam se comunicando e quando.

Os pesquisadores usaram um algoritmo para determinar quem estava na rede social de um determinado aluno com base nos seus e-mails. Em seguida, classificaram cada relacionamento entre um aluno e outro como forte ou fraco, com base em várias características coletadas dos e-mails. Por exemplo, se duas pessoas se comunicavam mais do que seria esperado por acaso, trocavam e-mails regularmente nos finais de semana e respondiam rapidamente umas às outras, provavelmente tinham um vínculo forte. Supõe-se que duas pessoas que trocavam e-mails com menor frequência provavelmente tinham uma conexão fraca.

A equipe também mediu a centralidade de cada pessoa em sua rede. Uzzi observa que, neste estudo, centralidade não significa o número de contatos que a pessoa tem, mas sim o número de indivíduos altamente conectados com quem se comunicam. A distinção é importante, diz ele, porque uma pessoa com relativamente poucos contatos ainda pode ser altamente central se seus contatos tiverem muitas conexões. “Mesmo uma pequena rede pode fornecer um alcance amplo”, diz ele.

Por fim, os pesquisadores contaram quantos vínculos fortes e fracos cada graduado possuía e informações sobre o sexo das pessoas em sua rede. Usando técnicas estatísticas, os pesquisadores analisaram os fatores que mais afetavam os rankings de emprego dos graduados.

Rede de negócios para mulheres x homens

As qualificações formais dos alunos, como notas de exames e experiência de trabalho, não pareciam influenciar a conquista do emprego, provavelmente porque os candidatos já eram muito parecidos nessas medidas. “É como se você tivesse um time de basquete onde todos tinham 1,95 m, 2 m ou 1,97 m”, explica Uzzi. “A altura provavelmente não será o fator determinante para decidir qual deles é o melhor jogador”.

Mas surgiram diferenças consideráveis quando os pesquisadores examinaram as redes sociais.

Entre os homens, os formandos mais bem-sucedidos eram mais centrais: os homens no quartil superior da centralidade alcançaram um ranking de emprego 1,5 vezes maior do que os homens no quartil inferior.

Isso é importante, diz Uzzi, especialmente considerando que o nível de remuneração de uma pessoa no primeiro emprego após a formatura provavelmente perdurará nas posições futuras. Ao longo da sua carreira, o salário mais alto “só aumenta de forma exponencial”, diz ele.

Notavelmente, as conexões dos homens não precisavam ser fortes para serem eficazes. Se tivessem muitos vínculos fracos com pessoas com várias conexões fracas, ainda assim apresentavam um bom desempenho. Além disso, a composição de gênero das redes masculinas não afetou seus níveis de colocação. “Os homens precisam se sair bem apenas em uma coisa na busca por emprego: obter informações ‘públicas’”, o que qualquer um pode fornecer, diz Uzzi.

Como ter sucesso na criação de redes

A centralidade também foi importante para as mulheres. No entanto, ter uma rede robusta ainda não era suficiente para elevar o ranking de emprego das mulheres ao patamar dos homens. “Mulheres com redes que se assemelham às dos homens mais bem colocados se classificam em baixa”, mesmo quando suas qualificações eram excepcionais, escrevem os autores.

No entanto, uma característica social diferente estava lada-a-lado com o sucesso.

Cerca de três quartos das mulheres com o maior ranking trocavam e-mails constantemente com outras mulheres. E, quando combinado com uma boa rede, essas amigas próximas proporcionaram um grande impulso na carreira: mulheres com alta centralidade e laços estreitos com colegas do sexo feminino tiveram um ranking de emprego médio 2,5 vezes maior do que as mulheres cujas redes não possuíam essas duas características.

Uzzi especula que uma rede carregada de contatos masculinos pode não ser muito útil, porque provavelmente só as mulheres compartilharão os tipos de informação privada de que as candidatas precisam. Por exemplo, como os recrutadores às vezes presumem que as mulheres não são tão comprometidas com a profissão quanto os homens, uma amiga pode sugerir perguntas durante uma entrevista para demonstrar interesse sério em uma posição. Um amigo homem – mesmo que bem-relacionado – pode não pensar em oferecer esse tipo de conselho, uma vez que ele nunca enfrentou esse obstáculo.

“Você precisa dessas informações privadas para entender como negociar em um mundo onde você está sendo avaliada por padrões diferentes”, diz Uzzi.

O valor de uma rede diversificada

Uzzi ficou um pouco surpreso com os resultados. Afinal, ter um círculo íntimo de amigas poderia significar que as mulheres viviam em uma câmara de ressonância, longe dos insights importantes. Uma análise mais detalhada revelou o porquê do oposto ser verdade.

As mulheres mais bem-sucedidas tinham amigas íntimas que tendiam a estar conectadas a vários grupos diferentes de pessoas e que, portanto, podiam fornecer novas informações. Se o círculo íntimo de uma mulher tinha conexões primordialmente redundantes, ela também não apresentava um desempenho tão bom – talvez porque tivesse mais chances de obter a mesma perspectiva repetidamente, “o que poderia criar muitos pontos cegos”, diz Uzzi.

Os pesquisadores apontam várias ressalvas para suas descobertas. Como não leram os e-mails por motivos de privacidade, tiveram que fazer suposições sobre os tipos de informações fornecidas. Assim, não podem dizer com certeza se as conexões fortes e fracas fornecem informações privadas e públicas, respectivamente. E são necessárias mais pesquisas para ver se os resultados podem ser confirmados em vários outros contextos.

Ainda assim, os resultados são mais do que correlações, o que sugere fortemente que “as redes sociais são importantes na conquista de empregos”, diz ele. “E elas têm importância diferente para homens e mulheres”.

Entender os efeitos das redes sociais é bastante importante na era do LinkedIn e do Facebook, quando as pessoas estão mais do que nunca prestando atenção às suas conexões. “Você acaba descobrindo que cada vez mais as mulheres estão tentando imitar as redes masculinas, o que, de acordo com nossas descobertas, não as ajuda”, resume Uzzi.