Pagamento de bônus por empresas está superestimado

Modalidade de incentivo, que pode representar até 42% dos vencimentos de altos executivos, não deve ter expansão tão forte quanto a esperada pelas empresas

A remuneração dos altos executivos brasileiros não deve ser tão polpuda quanto a prevista no planejamento das grandes empresas para 2005 e 2006. O motivo é que a parcela variável de seus vencimentos, composta por bônus e participação nos lucros, entre outros, pode estar superestimada. O problema, segundo a Hay do Brasil, consultoria especializada em recursos humanos, é que a crise política não havia eclodido quando as companhias montaram seus cenários de curto e médio prazos. Por isso, embutiram previsões de desempenho que talvez não se cumpram, dados os eventuais efeitos da turbulência política sobre a economia e, por tabela, sobre os negócios.

As 160 empresas pesquisadas pela Hay esperam, por exemplo, pagar em média 15% mais bônus para seus executivos neste ano, em relação ao desembolsado em 2004. As projeções otimistas se estendem para 2006. Do total de participantes do estudo, 52% esperam pagar o mesmo patamar de bônus de 2005 no próximo ano e 38% pretendem superá-lo. Somente 10% prevêem um recuo desse desembolso. “Há um otimismo exagerado do mercado”, afirma Jorge Viani, gerente de Informação da Hay. Ao contrário dos entrevistados, a consultoria aposta na manutenção ou em ligeira queda no volume de incentivos pagos pelas empresas no ano que vem.

Com a mudança da estrutura de remuneração executiva, a parcela variável dos vencimentos ampliou seu espaço. Para a diretoria, o salário base ainda representa 60% do total dos ganhos, enquanto a parcela variável (bônus, participação nos resultados e incentivos) representa 22%. Os demais 18% são benefícios fixos, como assistência médica. À medida em que o profissional sobe na hierarquia, o salário base perde importância. A fatia variável de ganhos chega a representar até 53% da remuneração total de presidentes de grandes empresas, segundo a Hay.

Desempenho

“Quanto mais alto estiver o executivo, mais exposta estará sua remuneração aos resultados da empresa”, diz Viani. A estratégia reflete o interesse de aumentar o compromisso da alta direção com o desempenho do negócio. O próprio reajuste do salário-base segue esta lógica. “A tendência é que as empresas segurem cada vez mais a parte fixa e apostem nos bônus”, afirma o consultor.

No primeiro semestre, por exemplo, os níveis de chão-de-fábrica, chefia e supervisão, com salários até 5 000 reais, em média, tiveram seus reajustes regidos por acordos coletivos, segundo a Hay. O índice médio de correção, neste caso, foi de 7,3%. Já os executivos das companhias gerentes, diretores, etc viram seu salário-base subir menos: 6,8%.

A tendência, no próximo semestre, é que as taxas de reajuste de empregados e diretoria se equiparem em 6%. Para os trabalhadores, o reajuste menor refletirá a desaceleração da inflação, já que uma boa parte dos acordos baseia-se no acumulado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor até a data-base. No caso dos executivos, o recuo será motivado, primeiro, pela estratégia das empresas de aumentar o peso da parte variável, com vistas a melhorar o desempenho dos negócios. O outro motivo, segundo Viani, é o crescimento da oferta de executivos no mercado.

Para comprometer ainda mais a direção com os resultados, as companhias também tendem a reduzir a parcela de incentivos de curto prazo, como pagamentos extras em folha de pagamento e participação nos resultados. Com a ênfase em estímulos de longo prazo, as stock options e os bônus diferidos, entre outros, ganharão mais peso.