os paulistanos globais

Eles vivem entre hotéis e aeroportos. Mesmo quando estão em São Paulo, têm a cabeça antenada no mundo

Antônio Werneck e Valéria Oliveira se conheceram no programa de trainees da Gessy Lever. Começaram a namorar e se casaram. Têm hoje dois filhos: Juliana, de 9 anos, e Thomas, de 4. Manter a família unida nesses 13 anos não foi fácil. Como executivos de empresas multinacionais, Werneck e Valéria viveram como nômades por cerca de dez anos, período em que tiveram de mudar algumas vezes de empresa e de país. Entre idas e vindas, o casal entrou para um seleto grupo em São Paulo: o de executivos globais. São profissionais com os pés na cidade e a cabeça no mundo. Quando toca o telefone, não sabem em que língua vão falar do outro lado da linha. A qualquer hora, podem precisar pegar o avião para participar de uma reunião em outro país ou mesmo se mudar novamente para o exterior.

A vida itinerante do casal global começou em 1988, quando Werneck recebeu proposta da Gessy para trabalhar como gerente de produto em Paris. Valéria pediu demissão e o acompanhou. Lá, ela conseguiu empregar-se numa indústria de fragrâncias. Em 1991, o marido foi chamado de volta ao Brasil para assumir a gerência de marketing do grupo de sabões e sabonetes. Valéria arranjou uma vaga na Unilever em São Paulo. Dois anos depois, nova mudança. Londres chamou Werneck para ser diretor da área de detergentes. “Resolvi parar e aproveitei para engravidar”, diz Valéria. Após o nascimento da filha, a empresa Givaudan, do setor de cosméticos, contratou Valéria. Logo surgiu uma proposta tentadora para ela: ser responsável por toda a perfumaria de luxo da Givaudan na Europa. Só havia um probleminha: tinha de mudar para Paris. “Em três ocasiões ela havia interrompido a carreira por minha causa. Era a minha vez de ceder”, diz Werneck. Ele saiu da Gessy e foi trabalhar na mesma empresa de Valéria. O casal ficou mais três anos em Paris. Nasceu Thomas, o segundo filho. “Chegou uma hora que começamos a nos questionar”, diz Valéria. “Estávamos em outro país, as crianças crescendo longe das nossas famílias.” Em setembro de 1998, a família voltou para São Paulo. Seis meses depois, Werneck foi para a subsidiária brasileira da anglo-holandesa Reckitt Benckiser, onde hoje é o presidente para a América Latina. Valéria aproveitou sua experiência na Europa para abrir uma empresa especializada no estudo de tendências do mercado consumidor.

Ciganos modernos
Na década de 90, o Brasil foi bombardeado pelos investimentos estrangeiros diretos – uma onda puxada principalmente pelas privatizações. São Paulo absorveu grande parte desses investimentos, consolidando seu papel de centro comercial latino-americano e de cidade global. Um Eldorado se abriu para profissionais qualificados e ambiciosos interessados em trabalhar com os mercados internacionais. O belga Patrick Rasquinet não pensou duas vezes em trazer a família para São Paulo e assumir, aos 28 anos, o cargo de diretor de vendas da Nivea do Brasil. Hoje, aos 33, ele acaba de arrumar novamente as malas para assumir a presidência da subsidiária coreana. “Sou um cigano da era moderna”, brinca Rasquinet. Seu colega paulistano Wagner Lungov tomou outro rumo: deixou o cargo de diretor de marketing para assumir em Paris a chefia do mercado francês de desodorantes e outros produtos.

Em vez de ir para o exterior, ficar em São Paulo pode ser também o trampolim para uma carreira global. Atento à importância cada vez maior da cidade onde nasceu, o diretor de negócios da Motorola, Marco Antônio Arruda, não ficou surpreso quando recebeu, no fim do ano passado, sua nova missão: cuidar mercado do Chile e da Argentina, além do brasileiro. “Como o Brasil representa cerca de 50% dos negócios na América Latina, São Paulo tornou-se parte fundamental das discussões estratégicas da empresa”, diz Arruda.

Para algumas empresas, associar-se aos gringos é o caminho mais curto para participar do mercado global. Em 1993, a agência de publicidade Almap fechou acordo com a americana BBDO. Nasceu então a Almap/ BBDO. Os negócios internacionais começaram a pipocar. Um exemplo recente foram os comerciais da Pepsi com os craques do Manchester United, principal time de futebol da Inglaterra. Veiculada em toda a Europa, a campanha foi planejada em São Paulo. O diretor de criação Marcello Serpa, que morou e estudou na Alemanha, dá a receita de uma boa campanha internacional: as idéias devem ser claras e universais. “Para isso, o publicitário precisa conhecer todas as culturas”, diz.

Não somente os publicitários. Segundo os headhunters, quem deseja trabalhar em mercados globais precisa entender os códigos culturais dos outros povos. “O profissional deve ser capaz de se movimentar com desenvoltura nesse ambiente internacional”, diz Rudolf Mayer-Singule, sócio da Spencer Stuart. “Ter viajado, falar outras línguas e ter visão multicultural são requisitos importantes para um executivo se dar bem nesse mercado”, afirma o headhunter Guilherme Veloso, da PMC Amrop Internacional. Para Veloso, o brasileiro em geral tem uma grande capacidade de adaptação, além de traços de informalidade e comunicação que facilitam no trabalho. Mas ele faz uma ressalva: “A relação com a família é muito forte e pode atrapalhar na hora de morar fora”.

O executivo paulista José Carlos Grubisich, 44 anos, diretor-geral da divisão mundial de orgânica fina da Rhodia, diz que o interessado em abraçar uma carreira internacional deve preparar a família para as inconveniências das mudanças freqüentes de país, como os eventuais transtornos na educação dos filhos. “No meu caso não houve esse problema, pois minha permanência no exterior foi por períodos bem definidos”, diz. “Meus dois filhos aprenderam francês e inglês e estão tendo a oportunidade de desenvolvimento com essa exposição internacional.” Grubisich iniciou sua carreira na Rhodia em São Paulo e ocupou postos na França e em Portugal. Voltou a morar em Paris em setembro do ano passado. Passa a maior parte do tempo em viagens a países vizinhos e ao menos uma semana por mês fora da Europa. Já visitou mais de 40 países a negócios. Ele também considera essencial observar e entender as diferentes culturas. “Mais do que talento lingüístico, é preciso ter capacidade de comunicação multicultural”, afirma. “Brasileiros e portugueses, por exemplo, falam a mesma língua, mas pensam e se comportam diferente.”

A consultora Olga Colpo, sócia-diretora da PricewaterhouseCoopers, elenca as cinco competências que considera mais importantes num executivo global: adaptabilidade às mudanças, capacidade de realização, criatividade e inovação, compulsão por velocidade e relacionamento interpessoal. Um profissional com essas qualidades tem alto valor no mercado, mas há um preço a pagar: “As queixas que mais ouço de executivos globais são a baixa qualidade de vida e o pouco tempo para reciclar o conhecimento”, diz Olga. Por isso, diz a consultora, é importante que o executivo planeje sua carreira – saiba aonde e como quer chegar.

A consultora de recursos humanos Rosa Bernhoeft acompanhou, de 1990 a 2000, a trajetória de 7,5 mil profissionais de 200 empresas, com o objetivo de medir 20 competências de gestão. De acordo com a pesquisa, as quatro competências que os executivos desenvolveram de forma mais significativa ao longo dos dez anos foram: capacidade de planejamento, disposição para mudança, administração do tempo e senso de custo/benefício. “Ter essas quatro competências é fundamental para um executivo global”, diz a consultora.

Rosa esclarece um ponto: um executivo global pode estar sempre em trânsito, mas não é o número de carimbos no passaporte que importa. “Viajar não é sinônimo de ser global”, afirma. Muitos executivos – a maioria, segundo ela – viajam pelo mundo inteiro, mas só conhecem aviões e quartos de hotéis. Esses profissionais vão ao exterior preocupados apenas em cumprir sua missão e deixam de perceber novas oportunidades de negócios. Já o executivo global, diz a consultora, aproveita suas visitas a outros países para interagir com as pessoas e ampliar o conhecimento. “É preciso aprender a lidar com as diferenças e a negociar em cada contexto. É preciso visitar museus, andar nas praças, entrar nas lojas, conversar com as pessoas.”

Foi o que fez o ex-jogador e ex-técnico de vôlei José Carlos Brunoro. Nos anos 80, quando treinava o clube Pirelli e a seleção brasileira, ele aproveitava as viagens ao exterior para conhecer clubes e centros esportivos. Eram visitas de estudo: “Foi quando comecei a ter uma visão profissional da administração esportiva”, recorda Brunoro, hoje com 51 anos. Depois de abandonar as quadras de vôlei, Brunoro tornou-se diretor do departamento sul-americano de esportes da Parmalat, iniciando, em 1992, uma bem-sucedida parceria com o Palmeiras. Em 1997, deixou a multinacional italiana para abrir sua empresa, a Brunoro & Cocco Sports Business, que administra a carreira de atletas e promove eventos esportivos. Desde que montou a empresa, Brunoro diminuiu o corre-corre. Ainda assim, seu passaporte recebe ao menos um carimbo por mês. É preciso cuidar da saúde para suportar o ritmo. “Trocando de fuso horário toda semana, o corpo não agüenta. Tive neste ano uma trombose, provavelmente por causa das viagens aéreas”, diz Brunoro.

Colaborou Ernesto Yoshida