Os filhotes da Bovespa

Surge uma geração de jovens paulistanos dispostos a concorrer com os grandes bancos: os gestores independentes de recursos

No início da década de 90, a compra e a venda de ações de empresas provocavam nervosismo entre os operadores da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Contagiados por esse burburinho, os universitários Fábio Alperowitch e Maurício Levi, alunos do curso de administração da Fundação Getulio Vargas, acompanhavam a alta e a baixa das cotações na tela de um computador. Vendo a paixão da dupla pelo mercado financeiro, alguns amigos resolveram entregar a Alperowitch e a Levi uma quantia para que pudessem “brincar” na bolsa –10 000 dólares no total. Os dois colegas, ambos com 22 anos na época e estagiários de uma multinacional do setor de higiene e limpeza, sonhavam em abrir uma empresa especializada em multiplicar as economias dos clientes vendendo e comprando ações. A concretização do sonho dependia do resultado que obtivessem com o dinheiro confiado pelos amigos. Deu certo?

Tanto deu — os amigos conseguiram uma rentabilidade superior à da maioria das aplicações na época — que, um ano depois, em 1994, Alperowitch e Levi registraram na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a criação da Fama, o primeiro fundo de investimentos de uma gestora independente, ou seja, administrado por uma empresa sem ligação com um grande grupo financeiro. Hoje, aos 31 anos, Alperowitch e Levi possuem clientes de verdade. Do escritório instalado num prédio próximo da avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, na zona sul, administram recursos que somam 100 milhões de reais.

Seguindo os passos da Fama, outras dezenas de gestoras independentes foram abertas em São Paulo. Só nos últimos três anos foram pelo menos 19 na cidade. Os fundos criados por esses novos empreendedores costumam ter um perfil diferente dos administrados pelas grandes instituições. Na Fama, a estratégia usada para multiplicar o dinheiro dos clientes é comprar ações de pequenas empresas que os gestores avaliam ter grande potencial de crescimento.

Profissionais dispostos a arriscar são peças fundamentais para a recente proliferação desses gestores de recursos de terceiros. O apetite pela aventura é encontrado geralmente entre os mais jovens. “Na época em que decidimos entrar nesse negócio, pensávamos que, se tudo desse errado, haveria ainda muito tempo para recomeçar”, diz Alperowitch. “Continuaríamos jovens para pedir emprego na porta de algum banco.”

A Fama é uma exceção no que diz respeito à falta de experiência anterior de seus sócios. A maioria das gestoras independentes é comandada por profissionais que, já tendo passado por algum banco ou por uma corretora, decidiram abrir o próprio negócio. São profissionais na faixa de 30 anos que vieram de instituições como JP Morgan, Opportunity e Pactual. “Dessa turma, 90% eu considero brilhante”, diz José Hugo Laloni, diretor operacional da LLA Investimentos, que analisa os fundos disponíveis no mercado e faz recomendações a clientes de acordo com a rentabilidade e o risco.

O economista Rodrigo Bresser Pereira, de 38 anos, filho do ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira, é um dos profissionais que abriram sua própria empresa depois de acumular experiência num banco. Rodrigo era responsável pela área de gestão de fundos do Banco Matrix. Com a extinção do banco, no ano passado, decidiu abrir sua gestora de recursos, a Argos. “Percebi que havia espaço para criar meu próprio empreendimento quando muitos de meus clientes vieram me perguntar se eu não estaria disposto a continuar administrando as carteiras deles”, diz Rodrigo.

O fato de ter trabalhado em outra gestora pode trazer algumas vantagens, como é o caso de Rodrigo. A captação de recursos, apontada como a maior dificuldade para quem está começando, tende a ser mais fácil. Mas os clientes não caem do céu. “Ter uma placa de um grande banco facilita muito, pois os investidores enxergam com mais confiança”, diz José Artur Bernardi, sócio-diretor da Focus, outra gestora independente de São Paulo. “Para atrair os primeiros clientes, nós precisamos provar que realmente somos bons.”

Atendimento personalizado

Para competir com os grandes bancos, os fundos independentes apostam no atendimento personalizado. “Aqui o cliente pode conversar diretamente com o dono da empresa”, diz Bernardi. “Nossa equipe é pequena, mas temos condições de atender nossos clientes sempre que precisarem.” As gestoras independentes também tentam se diferenciar pelo conteúdo, especializando-se em algum nicho do mercado. Atualmente, a maioria delas lida com derivativos — um reflexo do fato de muitos sócios terem se originado de tesourarias de grandes bancos.

Para os que entram nesse novo mercado, o retorno financeiro vem da taxa de administração. Os gestores costumam cobrar cerca de 1,5% do patrimônio administrado ou estipulam uma taxa de acordo com a rentabilidade. Os fundos de maior risco e os que tentam produzir índices superiores de rentabilidade exigem maior dedicação e são os que apresentam as taxas mais elevadas.

Mesmo oferecendo um serviço personalizado e uma taxa competitiva, o avanço das gestoras independentes vai depender da mudança de cultura do brasileiro, segundo Alperowitch, da Fama. “O investidor precisa perceber que quem entende de gestão de recursos são os que se dedicam exclusivamente a esse negócio”, afirma Alperowitch. Em sua visão, no futuro os bancos servirão principalmente para conceder crédito e administrar conta corrente. É uma projeção baseada no mercado americano, onde as empresas focadas na gestão de recursos dominam o negócio. Para Alperowitch, os bancos têm dificuldade de administrar um fundo com grande patrimônio. “Eles lidam com verdadeiros elefantes, difíceis de controlar pelo tamanho.”

Há quem diga que o mundo das administradoras de recursos se divide hoje em dois. “Há o mundo dos CDIs, onde não importa muito a rentabilidade e que é dominado pelos grandes”, diz Marcelo André Steuer, diretor da Reliance, empresa que analisa quais são os melhores fundos. “E há o mundo dos gestores independentes, onde a criatividade e a performance são fundamentais.” Atualmente, a divisão apontada por Steuer é muito desigual: menos de 2% do dinheiro depositado em fundos no país estão nas mãos de gestoras independentes. Do montante administrado pelos bancos, a maior parte está em fundos de DI, que têm como referência as taxas de juro.

A expectativa para 2003 é de crescimento do mercado. Além da esperada queda de juros, a fusão e a incorporação de bancos deverão estimular a abertura de mais consultorias de gestão de recursos — porque deverão sobrar profissionais na cidade. “Há muita gente perdendo emprego e que sonha em montar a própria empresa”, diz Alperowitch. Abrir uma empresa de gestão de fundos é uma das opções mais tentadoras para esses profissionais com experiência no mercado financeiro. Mas, assim como muitas empresas foram abertas nos últimos anos, outras tiveram de fechar as portas. Segundo Alperowitch, a principal dificuldade para quem começa, além de captar os recursos, é se adaptar a uma nova realidade. A experiência em grandes instituições pode fazer com que os profissionais cultivem alguns vícios ou se acomodem com certas facilidades. Alperowitch conta, por exemplo, o caso de um gestor independente que se empolgou em fazer, literalmente, negócios na China. Achava que, como na época em que trabalhava num banco, poderia ter correspondentes em todo o mundo. Seus custos rapidamente explodiram — e ele quebrou.