Os doutores executivos

Por que os advogados corporativos são profissionais em alta -- e o que é preciso para se tornar um deles

Os advogados estão em alta no Brasil e em particular na cidade de São Paulo. Nunca eles foram tão requisitados, incensados e ganharam tanto dinheiro como agora. Reflexo direto da globalização da economia e dos avanços tecnológicos, a escalada dos advogados, seja nas empresas, seja nos escritórios especializados, vem garantindo a esses profissionais status e salários de executivos. Mais ainda: eles ganharam voz ativa nas tomadas de decisões e no planejamento estratégico dos negócios. Não estão mais na retaguarda das organizações resolvendo problemas jurídicos, mas na linha de frente para evitar que eles aconteçam. Hoje, é praticamente impossível uma empresa assinar um contrato qualquer sem consultar seus advogados. Ou construir uma fábrica e não avaliar cada linha da lei de proteção ambiental. Ou ainda fechar um acordo internacional sem conhecer os artigos das leis tributárias e de defesa do consumidor do país em questão.

O mundo está mais complexo e, com isso, a carreira do advogado ganhou nova dimensão. A verdade é que ficou impossível sobreviver sem ele. Dentro dessa realidade, a capital paulista surge como a grande meca dos advogados no Brasil. Dos mais de 497 000 profissionais que atuam em todo o país, 158 000 estão no estado de São Paulo. Desses, 79 000 — a metade — trabalham na capital. É mais do que a soma dos profissionais dos estados de Minas Gerais (38 000), Rio Grande do Sul (24 000) e Goiás (14 000). Embora o mercado não viva mais a euforia de contratações a granel de 2000, quando muitas bancas duplicaram ou até triplicaram de tamanho, as boas oportunidades continuam aparecendo. O crescimento é menor, mas consistente. Em alguns casos, um gerente jurídico pode receber uma remuneração total de mais de 400 000 reais por ano. Esse valor chega a dobrar para diretores e vice-presidentes jurídicos, principalmente de grandes multinacionais.

Por outro lado, a responsabilidade do advogado vem aumentando na mesma proporção de sua valorização. Ele passou a ser visto como alguém estratégico na organização. Espera-se que seja capaz, entre outras coisas, de traçar uma estratégia para que, dentro da lei, a organização pague menos impostos. É imprescindível que saiba ler os contratos nas chamadas zonas cinza e alertar para os possíveis riscos jurídicos do negócio. Se tiver experiência internacional, melhor ainda. “O advogado que atua dentro de uma empresa se tornou uma espécie de gestor”, afirma Boris Gris, de 36 anos, gerente jurídico da Votorantim Papel e Celulose. “Tive de aprender a lidar com problemas políticos, corporativos e institucionais. Passei a ter, inclusive, metas individuais.”

Desde meados dos anos 90, as empresas passaram a terceirizar sua área jurídica. A idéia era manter apenas um profissional para fazer o papel de interlocutor com os grandes escritórios. Mais recentemente, optaram por um caminho intermediário. Voltaram a contratar advogados e a oferecer boas oportunidades de emprego, mas nada que sugira o inchaço do passado. Nos escritórios, por sua vez, o crescimento vem obrigando os donos do negócio (advogados de formação) a contratar administradores de empresas e economistas para cuidar da gestão. “O escritório que não partir para uma administração profissional vai correr sérios riscos”, afirma Ricardo Ariani, sócio-administrador do escritório Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados. “Nós temos 800 funcionários, e como qualquer empresa precisamos de pessoas capacitadas para cuidar de áreas como finanças, marketing, recursos humanos e até tecnologia da informação”, diz Ariani, que até 1993 ocupou a vice-presidência do grupo Sharp.

É bom quem dá lucro

O headhunter Alfredo Assumpção, da Fesa, empresa especializada no recrutamento de executivos para o mercado financeiro, diz que um bom advogado é capaz de fazer sua empresa ganhar dinheiro. “Ele não se limita a dominar a parte jurídica”, diz Assumpção. “Virou um homem de negócios: conhece a empresa, os produtos que ela fabrica, os detalhes técnicos, os concorrentes e o mercado como um todo.”

Boa parte do departamento jurídico das empresas passou a responder diretamente à matriz, que muitas vezes fica em países como Estados Unidos, Itália, França ou China. Por isso, o espaço para o advogado que só sabe se virar em inglês está cada vez menor. Ele precisa ser fluente e saber redigir bem em outros idiomas — e esse é um dos fatores que colocam São Paulo à frente das outras metrópoles na produção de profissionais qualificados. “A cidade reúne um pool de talentos culturais que não se encontra em nenhum outro lugar do mundo”, afirma Durval de Noronha Goyos Jr., do escritório Noronha Advogados. “Sempre é possível encontrar jovens que falam outras línguas, como chinês, árabe, coreano, polonês, italiano, alemão e francês.” O Noronha Advogados recebe em média 30 currículos por dia, a maior parte de jovens ainda na faculdade em busca da primeira oportunidade de emprego na área. “É uma das grandes profissões do momento”, afirma a headhunter Iêda Novais, da M&A Intersearch. Segundo ela, está surgindo uma geração de advogados que vem assumindo postos gerenciais cada vez mais cedo. “São profissionais agressivos, fluentes em mais de um idioma, com pós-graduação ou mestrado e experiência internacional”, diz Iêda.

Nos escritórios paulistanos a realidade não é diferente: exige-se cada vez mais dos advogados. Hoje eles não têm mais tempo para pesquisas demoradas dos casos em questão. São sabatinados online por clientes que querem respostas de bate-pronto. Diante disso, os escritórios de advocacia passaram a optar por profissionais altamente especializados. Em vez de um único advogado atender o cliente-empresa, um time de profissionais está sempre à disposição — e cada um deve conhecer sua área nos mínimos detalhes. “Os escritórios de ponta exigem especialização e mestrado”, afirma o advogado Enrico Gianelli, professor de direito civil da PUC de São Paulo e sócio do escritório de advocacia Fischer & Forster. “Quem não tem isso no currículo acaba tendo de se contentar com escritórios de segunda linha.” Para um jovem que está começando a carreira numa grande banca paulistana, a remuneração mensal varia de 1 500 a 2 500 reais — valor que pode subir em proporção geométrica de acordo com o talento e a evolução profissional.

No escritório Pinheiro Neto, um dos maiores do país e que está completando 60 anos de atividades, jovens talentosos têm conquistado rapidamente lugar de destaque na equipe. Muitos chegaram à posição de sócios, como é o caso de Bruno Balduccini, de 32 anos. Recrutado quando estava na metade do quinto ano da faculdade, em 1991, começou como estagiário e foi subindo aos poucos. Incentivado pelos superiores, fez mestrado (o International Banking Law Studies, uma espécie de MBA dos advogados) na Boston University, nos Estados Unidos. Ainda seguindo as coordenadas do pessoal do Pinheiro Neto, fez de 1999 a 2000 um estágio em Nova York no escritório Sulivan Cromwel. Em 2001, voltou ao Brasil já como advogado sênior do escritório paulistano. Meses depois, recebeu o convite para tornar-se sócio. “O advogado que busca o sucesso tem de ser profundo conhecedor do assunto”, afirma. “Todos nos sentimos permanentemente pressionados a buscar a qualidade e a excelência profissional.” Como Balduccini, outros sete advogados foram promovidos a sócios no último ano, o que representa uma conta bancária bem mais recheada: além dos 13 salários convencionais, passam a ter participação anual nos lucros e nos resultados mensais do Pinheiro Neto. Nesse ritmo, os sócios podem receber o equivalente a dois ou até mais salários por mês.

Celeiros de bons profissionais, os escritórios tradicionais de advocacia ganharam um desafio extra só conhecido até há pouco por empresas do setor privado: a retenção de seus talentos. Tornaram-se alvo dos headhunters, que em boa parte dos casos surgem com propostas quase impossíveis de ser cobertas. “Não é fácil segurar nossos talentos e competir no aspecto salarial com as multinacionais e instituições financeiras, pois elas chegam de forma bastante agressiva”, afirma Clemência Beatriz Wolthers, sócia-gerente do escritório Pinheiro Neto. Isso não impede, no entanto, de a banca manter uma boa taxa de crescimento ao longo dos últimos anos.

Outro fenômeno bastante comum é o de empresas de outros estados que buscam a assessoria dos escritórios em São Paulo. A contratar profissionais de suas próprias cidades, preferem o atendimento especializado das bancas paulistanas. “O advogado de São Paulo tem um intercâmbio maior de informações, inclusive com empresas estrangeiras que possuem escritórios por aqui”, afirma Enrico Gianelli, do escritório Fischer & Forster, que nos últimos cinco anos cresceu a um ritmo de 20% ao ano.

Quantidade x qualidade

Apesar do grande número de advogados no país, há uma carência de profissionais qualificados. A razão é simples: as faculdades de direito não param de proliferar. Hoje, há cerca de 450 instituições, muitas delas observadas com certa reserva pelas empresas e pelos grandes escritórios de advocacia. A preocupação tem sua razão de ser. No último exame da Ordem dos Advogados do Brasil, teste obrigatório que garante o registro profissional para quem deseja advogar, mais da metade dos 47 800 candidatos foi reprovada. Em São Paulo, o índice de reprovação superou a casa dos 71%. O resultado é que a caça aos bons talentos tem início já na própria universidade. Ninguém quer deixar um profissional relativamente escasso e precioso cair nas mãos do concorrente. “Começamos a avaliar os candidatos no segundo ano e contratamos praticamente todos os que chegam ao fim do estágio”, afirma Goyos Jr., do Noronha Advogados.