Os céticos ansiosos também meditam. Veja como a prática ajuda no trabalho

Após um ataque de pânico ao vivo na televisão americana, o jornalista Dan Harris descobriu a meditação. Em seu novo livro, ele desmistifica a prática

Em junho de 2004, o jornalista e âncora dos programas ­Night­line e Good ­Morning America, da rede americana ABC, Dan Harris, de 47 anos, passou por uma experiência que mudaria o resto de sua vida: um ataque de pânico ao vivo na TV.

Depois de ter trabalhado como repórter de guerra no pós-11 de Setembro — o ataque terrorista às torres ­gêmeas em Nova York em 2001 —, ele ficou deprimido e começou a se automedicar e a usar drogas, inclusive cocaína.

Com a crise de pânico em frente às câmeras, ele percebeu que continuar nessa toada não daria certo. “Foi o que me fez acordar e me colocar em uma jornada que, no fim, me levou à meditação”, afirma Dan, em entrevista a VOCÊ S/A.

Depois de contar sua história no livro 10% Mais Feliz (Sextante, 34,90 reais), nome também de seu podcast e de um aplicativo de meditação, Dan retorna com Meditação para Céticos Ansiosos, escrito em parceria com o professor de meditação Jeff Warren. “Percebi que muitos se interessavam pela meditação, mas não sabiam como iniciar ou manter a prática”, diz.

Por que pode ser tão difícil começar a meditar?

Criar hábitos saudáveis é difícil. Não somos programados para adotá-los porque a evolução não ligava para a saúde ou a felicidade do indivíduo no longo prazo, apenas em garantir que nosso DNA fosse transmitido à próxima geração. Além disso, a meditação foi vítima da pior campanha de marketing já existente. Normalmente ela é apresentada mostrando pessoas em estado puro de alegria, flutuando no cosmo, sem pensamentos nem problemas.

Mas qualquer ser humano normal que tente meditar percebe que, na verdade, é um louco e que sua mente está cheia de pensamentos opressivos e estranhos. E isso acontece porque é exatamente isso que nossa mente faz. Meditação não é sobre limpar a mente. Isso é impossível, a não ser que você seja iluminado ou esteja morto.

Qual é, então, o objetivo da meditação?

Meditação é sobre começar de novo. Você tenta manter o foco em algo, como o sentimento de inspiração e expiração, e se distrai um milhão de vezes. O verdadeiro ato de meditação é perceber essa distração e começar de novo e de novo. Perceber que você se distraiu, não é uma falha, pois você começa a notar quão louco você é e essa loucura vai ficando menos poderosa. O que fazemos na meditação é nos familiarizar com nosso clima interno, de forma que não sejamos controlados por todas essas tempestades.

Antes de praticar, você tinha preconceitos com a meditação. Como mudou de ideia?

Eu pensava que a meditação fosse ridícula e só esquisitos a praticassem — sabe, gurus e hippies. O que me fez mudar de ideia foi ler pesquisas científicas sobre o tema. A ciência ainda está nos estágios iniciais e às vezes jornalistas exageram os dados, mas há muita evidência sugerindo que doses diárias de meditação podem oferecer uma longa lista de benefícios à saúde, como reduzir a pressão sanguínea e melhorar o sistema imunológico.

A neurociência também sugere que a prática pode reprogramar partes-chave do cérebro, as que têm a ver com autoconsciência, estresse e foco. Outra coisa que me fez mudar de ideia foi perceber que, para meditar, não é preciso se sentar de pernas cruzadas ou se juntar a um grupo religioso. É um exercício simples e secular para o cérebro.

De que maneira a meditação o ajudou a se tornar mais consciente de suas motivações pessoais?

Quando você assiste à sua mente, você tem um senso mais claro sobre o que o motiva. Vemos, inclusive, motivações das quais provavelmente não temos orgulho. Todos somos capazes de generosidade, mas também de muita avareza e ódio. Uma vez que você vê isso, não precisa mais agir a partir desse lugar. Outra coisa é que, antes, eu gastava muito tempo me sentindo miserável e me estressando por querer estar à frente de tudo, por me comparar com os outros. Ainda faço um pouco isso, mas acho que estou melhor em ver que é possível jogar o jogo e ao mesmo tempo saber que é apenas um jogo.

O que você acha de as empresas criarem espaços para seus funcionários meditarem?

É ótimo, se feito da maneira correta. Primeiro, não deveria ser obrigatório. E acho que as empresas devem fazer com que a meditação seja fácil e conveniente. Se você realmente quer que as pessoas levem isso a sério, precisa ser o modelo e mostrar como a prática pode ajudar. Há muita evidência que afirma que a meditação pode torná-lo mais focado e, consequentemente, mais produtivo e menos reativo emocionalmente. Além disso, ela está ligada à construção de relacionamentos mais positivos, o mais importante em nossa vida e carreira. Mas pode haver coisas em seu ambiente de trabalho que sejam intoleráveis, como assédio, salário desigual ou racismo, e não acho que a meditação deva torná-lo passivo em relação a essas questões. Mas ela pode trazer clareza para ver que esses problemas existem e que você precisa ir para outro lugar.

No livro, você descreve uma viagem que fez com Jeff Warren para ajudar as pessoas a começarem a meditar. Quais foram seus aprendizados nessa experiência?

Percebi que o principal problema das pessoas é a falta de tempo. Então, vou dar meu discurso pronto sobre isso: você tem boas notícias e notícias melhores ainda. A boa notícia é que só são necessários de 5 a 10 minutos de meditação para ter todos os benefícios. É o que as evidências sugerem, é uma estimativa com base científica, embora não saibamos ao certo. A notícia melhor ainda é que fazer apenas 1 minuto na maior parte dos dias é um ótimo começo.

E teve algo que você aprendeu para sua própria experiência na meditação?

Sim, teve uma frase que Jeff me ensinou: “Bem-vindo à festa”. Eu sou muito autocrítico, mesmo dizendo às pessoas que elas não deveriam se deixar levar pela autocrítica. Isso me faz um grande hipócrita porque digo aos outros que tudo bem eles se distraírem, mas eu sempre me sinto um perdedor quando faço isso. Jeff ensinou uma técnica que permite reconhecer meu “eu nervoso”, essa voz que fica me gritando essas coisas, sobre comer demais, não fazer exercícios o suficiente ou ter falado aquilo para minha esposa. Em vez de tentar lutar contra essa voz, Jeff me disse para dar um abraço e dizer: “Bem-vinda à festa”. A única forma de desarmar seu bullying interno é não lutar contra ele.

Muitos defendem o pensamento positivo e a mentalização de coisas boas como formas de meditar. O que acha disso?

É preciso distinguir entre ser uma pessoa positiva, o que acho saudável, e o poder do pensamento positivo, que é algo que muitos gurus de autoajuda defendem. A ideia é que você pode mudar a realidade através dos pensamentos, e isso simplesmente não é verdade. Dizer às pessoas que tudo que precisam fazer é pensar sobre arco-íris e então poderão curar o câncer… é muito perigoso. Mas quero deixar claro que ter uma atitude positiva e tentar ser grato pode ser muito bom.

A meditação é útil para criar uma consciência de si mesmo. Existe uma diferença entre o fato de que você pode experimentar raiva e a história que você conta a si mesmo sobre o porquê disso. Você percebe que está bravo e não precisa fazer algo, como dizer coisas das quais se arrependerá depois ou então comer 75 cookies. Você simplesmente percebe a raiva chegando e permite que ela passe para que, depois, possa tomar decisões melhores.

Eu gostei desta frase no livro: “Meditar não é a respeito de se sentir de certa forma, mas de se sentir da forma que você se sente”.

Essa frase é incrível. É importante saber disso, porque as pessoas se sentam para meditar e querem ficar imediatamente calmas. E acham que, se não se sentirem calmas ou se distraírem, então falharam. Mas simplesmente perceber como você se sente é a primeira vitória. Quando você tem essa clareza, em vez de afundar nas ondas da vida, você pode surfá-las. Mas uma coisa que queria acrescentar é que não é porque medito há anos que nunca mais perdi a calma. Você não vai ser perfeito, você só vai ficar 10% melhor e isso vai se acumulando, é uma habilidade que vai desenvolvendo ao longo do tempo.

Você se lembra como foi a primeira vez que meditou e como se sentiu?

Eu me senti como se estivesse tentando segurar um peixe vivo na minha mão. A mente é tão escorregadia e eu estava tomado por todos esses pensamentos e emoções, como “isso é estúpido”, “sou uma fraude”, “o que tem para o almoço?” Eu percebi todo esse caos, mas, como tinha lido o suficiente para saber que o caos era o objetivo, consegui ver valor naquilo.

Como saber se a meditação está trazendo resultados?

Para mim, uma ótima forma de avaliar é se você se torna uma pessoa melhor e mais fácil de conviver. Se está sendo menos imbecil consigo mesmo e com as pessoas que vivem com você, é um bom indicativo. Uma das primeiras coisas que aconteceram comigo, antes de perceber qualquer benefício, foi ouvir minha esposa dizendo numa festa que eu estava sendo menos idiota desde que começara a meditar. O ponto não é se tornar melhor na meditação, e sim se tornar melhor na sua vida.

Olhando em retrospecto, como se sente sobre seu ataque de pânico na TV? Como acha que teria sido se não tivesse passado por isso?

Não sei se já pensei sobre isso antes, mas foi provavelmente uma das melhores coisas que me aconteceram. Em primeiro lugar, isso me tirou das drogas — como tenho uma personalidade aditiva, eu teria continuado com elas, o que poderia ter sido problemático. Em segundo lugar, isso me colocou na jornada para a meditação, que tem sido muito útil. Sou um meditador atípico. Como comunicador, consegui ajudar outros céticos a abrir a cabeça para essa prática. Algumas pessoas já me pararam na rua para me contar que haviam lido meu livro e que depois começaram a meditar e o efeito que isso teve na vida delas. É incrivelmente gratificante.   

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