O sonho acabou?

O que mudou, depois dos atentados, nas expectativas de carreira de quem apostou em Nova York

Nova York nunca esteve entre as cidades mais acolhedoras do mundo. Os nova-iorquinos são reconhecidamente mal-humorados, o custo de vida é alto, o trânsito é caótico. Mesmo assim, sempre atraiu multidões de trabalhadores das mais variadas origens. Entre os imigrantes, os brasileiros formam um grupo graúdo: são cerca de 100 mil no estado de Nova York. Pessoas que, em sua maioria, voaram para a Big Apple com um objetivo fixo na cabeça: trabalhar – ou estudar – arduamente para alcançar o sucesso. Grande parte do magnetismo da metrópole está relacionada a Wall Street, considerado o coração financeiro e a maior vitrine profissional do planeta. Até 11 de setembro passado, sua propagada segurança e liberdade de expressão também eram fortes fatores de atração de talentos.

Depois do atentado ao World Trade Center, no entanto, Nova York é uma cidade assustada. A queda das torres gêmeas, onde mais de 400 empresas tinham escritórios, detonou na população o medo de prédios altos e de aviões. A cidade perdeu rios de dinheiro com a baixa do turismo, restaurantes foram fechados, companhias aéreas amargam prejuízos. Muita gente perdeu – e continua perdendo – o emprego. Nas últimas semanas, com a ameaça biológica, o pânico se instalou de vez nas atividades mais cotidianas, dentro de casa e no trabalho. No meio de tanta turbulência, como anda a vida dos brasileiros que apostaram em Nova York? Como ficam as expectativas para a carreira? O sonho acabou? Confira a seguir o depoimento de dois profissionais que insistem em ficar por lá.

Nem com 50 aviões

Felipe Batho, 32 anos, vive há oito em Nova York. Foi contratado pelo Citibank em 1993, assim que chegou à cidade, depois de terminar a faculdade de administração de empresas no estado americano de Delaware. Batho trocou o Brasil pelos Estados Unidos para seguir o pai, na época diretor da Dupont, transferido para a sede da empresa por três anos. A família fez o caminho de volta, mas ele decidiu ficar. Era jovem, queria aprimorar ainda mais o inglês e desenvolver uma carreira no mercado financeiro em Nova York. “Aqui há muitas oportunidades, mas o ambiente é realmente competitivo”, diz Batho, que considera o mercado nova-iorquino mais sólido do que o da América Latina em geral. “É possível arriscar mais porque há uma grande infra-estrutura na retaguarda”, acredita. Um dia antes do ataque terrorista, em 10 de setembro, o Citibank demitiu 5 mil funcionários em todo o mundo. “Foi uma coincidência fatídica”, conta ele, que escapou do corte. Por sorte, Batho recebeu seu greencard, documento que facilita a vida profissional dos estrangeiros nos Estados Unidos, em julho passado.

Com a segurança do greencard, Batho e sua mulher, a francesa Elizabeth, de 29 anos, estão certos de que o sonho não acabou. “Eu ainda acredito muito nessa cidade. Ela é cosmopolita e reúne as melhores cabeças em todas as áreas”, diz. “Não é possível abalar Nova York de uma hora para a outra, nem com 50 aviões derrubando 50 prédios.” Mesmo otimista, Batho foi forçado a mudar alguns hábitos depois do atentado. No metrô, por exemplo, está sempre alerta. Se percebe alguém em atitude suspeita, não hesita em saltar, mesmo estando longe de seu destino. É revistado sempre que entra e sai do prédio onde funciona o escritório do banco. Bolsas, pacotes e correspondências são verificadas com rigor. Apenas um outro sonho pode levar Elizabeth e Felipe Batho a mudar de Nova York: filhos. Quando chegar a hora, daqui dois ou três anos, eles pretendem morar no Brasil ou na França.

Nada é para sempre

Menos programada foi a aposta que a designer paranaense Clarissa Pawlowsky Patrianova, 25 anos, fez em Nova York. Ela não esperava uma acolhida tão positiva do mercado de trabalho quando embarcou para lá no ano passado. Hoje, trabalha na Vox Design, agência de publicidade que faz trabalhos para empresas como a Harley-Davidson. Clarissa foi para Nova York estudar três meses na School of Visual Arts. Apesar de ser a única estrangeira numa empresa de apenas dez pessoas, logo foi convidada a integrar o time. A empresa patrocinou seu visto e Clarissa se estabeleceu na cidade em março deste ano. Seu namorado, Rubens Requião Neto, 26 anos, chegou semanas antes dos atentados. Está estudando inglês e procurando emprego na área de marketing. Para segurar as pontas, não descarta nenhum tipo de trabalho, mas até as vagas de garçom ou vendedor estão difíceis.

Logo que a Big Apple foi atacada, o casal ficou muito assustado. “Achávamos que a cidade inteira seria bombardeada. Compramos água e enlatados para estocar”, conta Clarissa. “Na primeira semana, tive folga no trabalho e até cogitamos voltar para o Brasil.” Ao retomar a rotina, a idéia de ir embora da cidade, no entanto, foi abandonada. “Não dá para simplesmente jogar o sonho fora”, afirma a designer, que está disposta a enfrentar as adversidades. E ela sabe que não serão poucas. O ritmo de trabalho na Vox Design diminuiu e a agência já demitiu duas pessoas. Clarissa tem ainda um ano e meio de permissão para trabalhar nos Estados Unidos e pretende fazer o possível para conseguir a renovação do visto. “Tendo trabalhado aqui, todas as portas se abrem”, acredita. “Conviver com a insegurança é o preço de insistir no sonho, mas acredito que nenhuma situação dure para sempre.”