O que há para você por trás dos microsseguros

Com serviços agrupados e mensalidades a partir de 3,5 reais, bancos e seguradoras começam a explorar os seguros de baixo custo. Saiba mais sobre eles para não cair numa roubada

São Paulo – Uma rápida passagem pela agência bancária e, quando se dá conta, você já sai de lá com um seguro de vida que traz no plano um sombrio auxílio-funeral. E, enquanto a sua hora não chega, você concorre mensalmente a um prêmio de alguns mil reais por um título de capitalização.

O discurso de venda do gerente não demorou mais do que cinco minutos, mas aconteceu antes mesmo de você pensar em fazer uma poupança para o futuro da sua família. O baixo valor da contribuição mensal, a partir de 3,50 reais em algumas seguradoras, faz com que o negócio seja fechado quase que instantaneamente.

No entanto, há necessidade de observar com cuidado quais são as condições e os valores oferecidos pela instituição financeira. De 2010 a 2011, o número de reclamações contra seguros de vida no Procon de São Paulo cresceu 34%, provando que nem sempre as regras estão tão claras.

O interesse nos produtos de baixo valor é tão grande que logo os chamados seguros populares devem ganhar um nome formal com a aprovação do marco regulatório, no fim de abril, e passarão a se chamar microsseguros, com força para se espalhar ainda mais pelo Brasil.

No caso dos seguros de vida, para um pagamento de sinistro entre 10.000 e 15.000 reais, a contribuição mensal não deverá ultrapassar 8 reais. Nas outras modalidades, como os seguros de residência, financeiro, prestamista, entre outros, a margem de variação é maior, mas a essência é mantida: o baixo custo.

“O segurador deverá ter a obrigação de prestar um serviço de qualidade similar ao dos seguros tradicionais”, afirma o advogado José Madson dos Reis, professor da Escola Nacional de Seguros e especialista em direito securitário do escritório Bastos & Schommer, em Curitiba.


O modelo dos microsseguros repete o conceito de microfinanças popularizado pelo economista bengali Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank, em Bangladesh. Segundo Luciano Portal Santanna, superintendente da Superintendência Nacional dos Seguros Privados (Susep), órgão do governo federal que regula o mercado de seguros no país, essa é uma tendência nos países em desenvolvimento.

“Estamos estudando o assunto há anos”, diz. O objetivo da Susep é encontrar ferramentas que possam baratear a operação das seguradoras, garantindo verba para o pagamento dos sinistros. “Somos conservadores quanto à sobrevivência desse modelo.” 

Função educativa 

Há pouco mais de dez anos, seguradoras vêm testando os seguros populares. A ideia inicial era atender a nova classe média, que vem atraindo a atenção de todos os setores da economia — de educação a seguros, passando por moda, turismo, entre outros.

No entanto, não é raro encontrar pessoas que não se encaixam nesse perfil e aderem à modalidade, como forma de complementar um seguro já contratado ou iniciar seus investimentos nesse tipo de produto. 

De acordo com Eugênio Velasques, diretor da Bradesco Seguros, o seguro de baixo valor tem funcionado também como uma ferramenta educativa para quem quer separar um dinheiro para emergência. Embora ainda esteja sendo feito um monitoramento sobre o perfil dos contratantes, a população de jovens de até 25 anos é relevante, ocupando 35% do universo de clientes.

Um dos produtos com conceito de microsseguro oferecidos pela instituição custa 3,50 reais mensais e oferece indenização de 20 000 reais no caso de morte acidental de segurados entre 14 e 70 anos. Até o final de 2011, havia sido vendido 1,3 milhão de apólices.

Enquanto o índice de sinistralidade é bastante similar em todas as categorias, o mesmo não acontece com a permanência do cliente. Eugênio explica que a necessidade de preservação do patrimônio familiar faz com que a taxa de retenção de clientes do perfil popular seja 30% maior.


“Quem começou cedo e conseguiu conquistar um padrão de vida para a família não quer regredir.” Outro diferencial está na participação do cliente, que chega a 14% dos contratantes.

Já o Banco do Brasil tem produtos que garantem, a 6,70 reais por mês, indenização de 15 000 mais auxílio-funeral. Bento Zanzini, diretor de riscos de pessoas do Grupo BB Mapfre, conta que as diversas demandas desse público trouxeram novos produtos agregados, como cesta básica, descontos em redes de farmácias, entre outros.

O volume maior de segurados garante o pagamento e a prestação de serviços de qualidade — são 2,5 milhões de clientes em seguros populares.

Antes de contratar

Hoje, a maior preocupação em torno dos seguros populares está na qualidade do serviço prestado. “Todos os direitos e condições devem ficar claríssimos para o consumidor”, diz José Madson. A atenção ao contrato proposto pela instituição deve ser redobrada. “Toda informação inexata ou inverídica precisa ser devidamente penalizada”, diz o advogado.

Além do Procon, há outras instituições de defesa do consumidor, como a Susep e o Sindicato dos Corretores (Sincor) de seu estado. José Madson ressalta que é importante checar a idoneidade da seguradora antes de assinar o contrato. “Verifique junto à Susep se já houve algum problema com a instituição escolhida”, aconselha.

Assim como a instituição, a idoneidade do corretor de seguros também deve ser verificada. Ele será o seu braço direito no mundo dos seguros e tem por obrigação profissional mostrar toda a variedade de opções e aconselhar sobre qual é a alternativa mais adequada ao seu perfil, defende Adevaldo Calegari, coordenador do Sincor-SP.