O que fazer quando os robôs tirarem nossos empregos?

Veja exemplos do implacável e irrefreável processo de automação pelo qual estamos passando e que, tudo indica, apenas começou

Os Robôs Vão Roubar o Seu Trabalho, Mas Tudo Bem

Autor: Federico Pistono

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 248

Preço: R$ 49,90 e R$ 34,90 (e-book)

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Você, leitor, está considerando a possibilidade de que este texto tenha sido feito por um robô? Ou seja, uma máquina com processadores e algoritmos de aprendizado na qual foram carregados alguns padrões de textos e milhares de informações que podem ser “escritas” sem a ajuda de um ser humano?

Certamente não é o caso aqui, mas não duvide de já ter lido informações e notícias escritas inteiramente por máquinas — e nem ter reparado nesse “detalhe”. Os textos feitos por robôs estão se proliferando e se imiscuindo insidiosamente por sites do mundo inteiro sem que se revele a autoria mecânica. Empresas como a Automated Insights têm se dado muito bem no mercado produzindo exatamente isso: programas capazes de criar textos em grande quantidade para as mais variadas mídias sem que o leitor perceba que não há um autor humano.

Com sede na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, a empresa de inteligência artificial fez um grande negócio com a Associated Press, agência de notícias que espalha diariamente centenas de textos jornalísticos por todo o planeta: desenvolveu a plataforma Wordsmith capaz de fazer uma combinação de modelos de textos e informações jornalísticas para produzir milhares de matérias por segundo. O programa tem sido usado para a cobertura de todos os jogos da liga de beisebol dos Estados Unidos em que as informações têm sempre o mesmo formato e redação. Mas também em muitas outras matérias — é um programa em constante aperfeiçoamento, capaz de aprender com muito mais rapidez e eficiência do que um jornalista em formação.

Esse é só um exemplo do implacável e irrefreável processo de automação pelo qual estamos passando e que, tudo indica, apenas começou. Há outros exemplos impactantes. A China já está empregando uma técnica de construção que permite erguer um arranha-céu de 30 andares, com todos os confortos modernos, em apenas 30 dias e sem uso de mão de obra humana. Trata-se da técnica “contour crafting” em que guindastes gigantescos montam estruturas pré-fabricadas como um jogo de Lego. Já há quem afirme que os operários da construção civil pertencem a uma classe profissional fadada à extinção.

Não será a única. Pelo menos é o que concluem as pesquisas e estudos realizados pelo autor italiano Federico Pistono, jovem empreendedor e palestrante internacional que reuniu suas reflexões no livro Os Robôs vão roubar seu trabalho, mas tudo bem. Nele, há uma lista das profissões que estão fadadas a se extinguir devido à automatização, implantada por meio de máquinas robotizadas dotadas de uma complexa estrutura algorítmica.

A lista é grande e começa com “motoristas de ônibus e caminhões” que, segundo o autor, somam hoje, nos Estados Unidos, cerca de 4 milhões de profissionais. É difícil imaginar a sociedade contemporânea sem motoristas ou profissionais que operem ônibus e caminhões? Isso certamente não vai acontecer hoje, mas, tudo indica, esse dia chegará, inevitavelmente. A Alphabet, holding a qual o Google pertence, fechou negócio recente com a Lyft, uma concorrente do Uber, e já captou 500 milhões de dólares da General Motors para começar a produzir as primeiras frotas de carros autônomos.

Garçons, por exemplo, estão na mira da automatização. Nos Estados Unidos, já existe uma cadeia de restaurantes, a Eatsa, que opera apenas com um empregado da cozinha. O cliente faz seus pedidos por um iPad e busca seu prato numa esteira móvel. Paga com cartão de crédito e tem seus dados, suas preferências, seus horários registrados e processados por algoritmos inteligentes que aperfeiçoam o atendimento — cada vez mais rápido, mais otimizado, mais barato, melhor. Mas não é a mesma coisa, certo? Afinal, vamos a um restaurante não só pela comida, mas também pelo ambiente, pela companhia, pela socialização e até mesmo pelos garçons, ainda que o serviço não seja perfeito.

Só que Marshall Brain, um futurologista profissional, autor de uma antologia de ensaios chamada Robotic Nation, faz previsões implacáveis. Que tal ser atendido por uma garçonete holográfica, linda e simpática, que oferece serviço perfeito e é capaz de conduzir conversações bastante complexas, como falar de política e futebol e fazer referências ao seu passado de estudos ou namoros? Segundo Brain essa garçonete estará funcionando a partir de 2025.

Prevê, também, que a primeira grande onda de robôs trabalhadores começará por volta de 2030, quando ocuparão posições na indústria de fast food, zeladoria, serviços domésticos e atendimento primário em hotéis, motéis, shopping centers, parques de diversão, cinemas. Quantos empregos roubarão? Milhões, diz ele, num prazo de cinco ou dez anos. Em 2055, Brain prevê que metade da força de trabalho dos Estados Unidos estará desempregada.

Um aspecto importante deste processo de automação abordado por Pistono é o que se convencionou chamar de “a internet das coisas”, ou seja, os objetos do nosso repertório cotidiano que, graças aos sensores wireless, inteligência artificial e nanotecnologia, estão conectados à web, interagindo construtivamente com os algoritmos. Carros, geladeiras e TVs já estão se conectando. Mas o conceito abrange todos os utensílios que usamos, até roupas.

No livro Second Machine Age, os autores Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee afirmam que a “Internet das coisas”, juntamente com outras tecnologias, promove uma revolução industrial da mesma escala que o advento das máquinas a vapor e da eletricidade. Com uma diferença: em vez de produzir empregos, elimina-os. Os estoques industriais diminuem, as lojas desaparecem, os espaços se reduzem, a economia é otimizada e trabalho que é bom, nada.

Outro aspecto é a educação, ou seja,a capacitação técnica,a formação intelectual, e o preparo cognitivo da média da população. O raciocínio é simples: se as máquinas e a tecnologia tomarão o lugar das profissões mais braçais, resta-nos as atividades intelectuais e técnicas. Mas a grande maioria da força de trabalho está longe de poder assumir funções desse tipo. Segundo Pistono, 87% da população ativa dos Estados Unidos é incapaz de executar tarefas moderadamente complexas, como ler e entender um artigo, 22% são analfabetos funcionais e 60% não sabe o significado de “60%” — os números são parecidos em muitos países desenvolvidos, como Itália,Reino Unido, Bélgica, Austrália e Canadá.

No Brasil, a cena, claro, é muito pior. Segundo o INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional), apenas 8% dos brasileiros aptos a trabalhar são considerados plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Os computadores não só têm mais informações como, também, muito mais facilidade de aprender, preconiza Pistolo e, continua: “se não temos condições de assumir tarefas intelectuais e somos substituíveis nas tarefas braçais, o que nos resta fazer?”

Pistono aprofunda a ideia de “menos trabalho e mais fruição” e entra na parte do livro correspondente à fração “mas tudo bem” do título. Embora nessa parte o conteúdo ganhe aspectos de auto-ajuda, há uma certa consistência nas suas propostas de uma nova vida em uma sociedade dominada pela automação — e, consequentemente, pelo desemprego. Sem ter a ambição de questionar o capitalismo e de propor outras formas de organização social e econômica, Pistono dá conselhos simples e de fato pertinentes para conviver com a dominação robótica. Tais como diminuir o consumo, abandonar o carro, dedicar-se a estudos e à espiritualidade, esforçar-se para educar os outros, dedicar-se a trabalhos como autônomo e, definitivamente, trabalhar menos — até porque trabalhar mais não vai ser uma opção.

É uma proposta de vida materialmente mais enxuta e simples cujas características se aproximam muito daqueles que defendem ideias ambientais e sustentáveis. Pistono cursou a Singularity University, que oferece disciplinas e conteúdos típicos do Vale do Silício, como “tecnologia exponencial” e o progresso científico baseado na nanotecnologia e na biotecnologia. Aqueles que saem de lá pertencem a grupos que participam startups que podem tanto revolucionar o mercado como ser um retumbante fracasso. São pessoas que planejam e constroem o futuro — ou, pelo menos, tentam. Para Pistono, o desemprego provocado pelos robôs e uma nova proposta de vida não parece nem um pouco com um exercício equivocado de futurologia.