O que as ruas ensinam ao trabalho, segundo Roman Krznaric

O filósofo Roman Krznaric, da The School of Life, diz que, para ter sucesso no trabalho, é preciso trocar o individualismo por uma preocupação com as pessoas ao redor, como as manifestações populares no país trataram de mostrar

São Paulo – O filósofo australiano Roman Krznaric, um dos fundadores da The School of Life, a badalada escola inglesa que oferece cursos livres na área de humanidades, começou a se tornar conhecido no Brasil nos últimos meses após a publicação no país de dois de seus três livros.

O primeiro, Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida (Editora Objetiva, 176 páginas, 26,90 reais), resume um curso da The School of Life com o mesmo tema e pertence a uma coleção editada pelo filósofo Alain de Botton, principal nome da instituição.

Em Sobre a Arte de Viver (Editora Zahar, 376 páginas, 44,90 reais), recém-lançado no Brasil, Roman trata de sua principal bandeira, a empatia. O autor vai buscar nos livros de história lições sobre como aprimorar a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa .

Roman adota o termo outrospection, que ele inventou para ilustrar o que seria o oposto da introspecção. Em sua opinião, é a atitude necessária para viver no século 21. Para ele, durante os últimos 100 anos foi construída a ideia de que o profissional deve olhar para dentro de si para entender melhor quem é.

Agora, no novo milênio, nossa mente deve ter olhos para fora, ou melhor, para o outro. Para o filósofo, as manifestações que ocorreram em diversas cidades brasileiras em junho mostram quanto as pessoas estão interessadas em praticar a empatia, defendendo direitos que são de todos.

Essa capacidade de compreender o pensamento e os sentimentos alheios, de acordo com Roman, permite ao profissional circular com desenvoltura e cumprir bem suas tarefas. Em entrevista a VOCÊ S/A, o autor fala sobre o que é possível ganhar com essa experiência e sobre o que temos a aprender com os protestos, para aplicar no trabalho.

VOCÊ S/A – O que as manifestações de junho nos ensinam sobrenossa vida profissional?

Roman Krznaric – Os protestos revelam algo muito importante sobre a relação entre trabalho, empatia e valores comunitários. Uma das coisas que levam o povo às ruas, e que as pessoas descobrem quando estão lá, é a boa sensação de fazer parte de algo grande, de agir com solidariedade e de compartilhar a empatia com os outros cidadãos.

Perceber-se parte da sociedade é bom para o bem-estar pessoal, um caminho para a felicidade que se perdeu em muitos países onde o ativismo político esteve em baixa nas últimas décadas. O que podemos aprender com as manifestações é que dar alta prioridade a seus valores no trabalho pode aproximá-lo dessa experiência de bem-estar comunitário em seu cotidiano — o que é melhor do que experimentá-los apenas nos raros momentos de grandes protestos.

A grande lição das ruas é que, quando se trata de satisfação na vida, o “nós” é tão importante quanto o “eu”. Precisamos de mais “nós” na nossa rotina profissional.


VOCÊ S/A – O que a empatia pode trazer de positivo para a carreira?

Krznaric – No passado, as pessoas consideravam que a empatia tinha uma importância moral, algo que faz bem para as outras pessoas. Mas estudos recentes mostram que a empatia é boa principalmente para você. Ao reunir visões diferentes, o trabalho se torna mais rico e proporciona mais felicidade.

As companhias têm percebido que a empatia é uma habilidade importante para seus funcionários, pois permite um trabalho em equipe mais eficaz, uma vez que as pessoas se entendem e também compreendem os desejos e as necessidades dos clientes.

VOCÊ S/A – O ambiente de trabalho dá à empatia a devida importância?

Krznaric – Tradicionalmente a maioria das organizações não valoriza nem estimula relações empáticas. Em alguns setores há mesmo um estímulo à competição, ao individualismo e ao progresso com base na queda de outras pessoas. Mas acredito em fortes evidências de que a empatia pode tornar negócios e relações de trabalho melhores. Empresas que têm altos níveis de empatia mantêm os funcionários por mais tempo. 

Por exemplo, durante uma conversa dura com seu chefe, ele pode aproveitar tais situações para ser terrível nas críticas ou para buscar entender o porquê de seu desempenho ter oscilado. Isso lhe ajuda a corrigir o que precisa, se você estiver interessado em crescer, e facilita ao líder entender como contribuir para essa melhoria.

Todo mundo funciona melhor quando a empatia faz parte da cultura de uma empresa. Quando pesquisei sobre o que as pessoas dão valor no trabalho, descobri que as amizades e as boas relações desenvolvidas figuram entre os principais fatores.

VOCÊ S/A – A empatia ajuda a crescer na carreira?

Krznaric – Passamos muito tempo aprendendo a ler e escrever, mas não somos ensinados a entender as outras pessoas e nos colocarmos em lugares diferentes. Se não entendermos como fazer isso, não seremos capazes de pensar em diferentes atitudes. No espaço do trabalho é possível aprender muito ao se colocar no lugar de qualquer colega. Esse tipo de pensamento imaginativo é essencial para melhorar a comunicação.


VOCÊ S/A – Qual é a principal mudança do trabalho no mundo atual?

Krznaric – Hoje, as pessoas veem significado no trabalho quando colocam seus valores em prática. Anos atrás, o dinheiro era a motivação principal. Desde o fim da Segunda Guerra a necessidade de ter significado no trabalho está crescendo. Uma das principais maneiras de obter isso é levar valores éticos, sociais e morais para o que você faz. Ao longo das últimas décadas, construímos a noção de que, se tivéssemos mais dinheiro, seríamos mais felizes, uma maneira mais individualista de avaliar o que é uma boa vida.

Pesquisas recentes em vários países apontam que a sensação de felicidade não cresce no mesmo ritmo que a renda. Não somos felizes na mesma proporção em que somos ricos. Você trabalha duro e compra coisas que proporcionam uma felicidade imediata e passageira.

Mas aí as expectativas aumentam e você deseja consumir mais para manter-se realizado. Isso traz ansiedade e frustração. Assim como a felicidade vem sendo atrelada a conquistas individualistas, a insatisfação com o trabalho anda pelo mesmo caminho.

O ato de olhar para fora de si pode ser uma maneira de sair dessa lógica. Ao ver a questão de outra perspectiva, você cria diferentes laços sociais e passa a se importar com as outras pessoas de maneira nova.

VOCÊ S/A – O que temos a aprender com a história sobre o trabalho?

Krznaric – O maior erro dos atuais conselhos de carreira é aquele que diz que há um trabalho perfeito para você. Isso não é verdade para a maioria das pessoas. Não há um único trabalho perfeito porque temos muitos traços de personalidade, uma identidade formada por diversos conhecimentos e interesses. A ideia de um “profissional de amplo espectro” é mais interessante como maneira de satisfazer mais objetivos.

Pensar nesse modelo de “portfólio” de atividades é bom não só por aumentar a satisfação com o trabalho. Trata-se de uma sábia estratégia num momento de recessão econômica e insegurança no emprego. Você distribui o risco e não fica com uma única carta na mão. Ser generalista, em vez de especialista, se torna importante.

VOCÊ S/A – É difícil ser generalista numa época em que o trabalho é altamente especializado.

Krznaric – A ideia clássica de sucesso e satisfação no trabalho indica que você alcançará esse estágio após se tornar um especialista em seu campo. Mas já houve períodos históricos, como a Renascença, em que o homem era considerado sábio quando dominava assuntos variados.

Acredito que isso voltará a ser importante hoje em dia. Estamos num momento em que as pessoas recomeçam a atuar em frentes múltiplas, como participar de projetos de curta duração paralelos à ocupação principal. As pessoas querem alimentar os muitos lados de sua personalidade.