O preço dos benefícios descolados na equipe das empresas

Oferecer benefícios descolados virou moda nas empresas brasileiras, mas isso atrai um tipo específico de profissional. Resta saber se esse é o seu perfil

São Paulo – Mesa de sinuca, guitarra, baixo, bateria, teclado e uma geladeira recheada de cerveja. Poderia ser um bar, mas é um escritório. Poderia estar no Vale do Silício, nos Estados Unidos, mas fica em Salvador, na Bahia.

Na sede do JusBrasil, site de informação na área de direito do trabalho, ninguém anda de terno. Além do kit roqueiro, a empresa oferece jogos eletrônicos e happy hour às sextas-feiras.

“Desde o começo, queríamos que fosse uma empresa com pouca hierarquia, onde os estagiários tivessem acesso aos chefes sem problemas”, diz Rodrigo Barreto, de 30 anos, sócio e diretor financeiro e operacional. “A autonomia é tudo para nós”, afirma Rafael Costa, de 30 anos, CEO da companhia. 

A oferta de ambientes descontraídos tornou-se tendência nas empresas de tecnologia no Brasil e costuma despertar o interesse de jovens profissionais. Só em 2012, o arquiteto Edo Rocha, dono de um dos principais escritórios de arquitetura corporativa do Brasil, desenvolveu 26 projetos de escritórios descolados.

Empresas que colocam esse tipo de benefício à disposição do funcionário visam passar a mensagem de que se preocupam com o bem-estar de todos. Mas, conforme esses ambientes se popularizam, cresce a percepção de que nem todo profissional sente-se confortável neles.

A coach Taynã Malaspina, mestre em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, investigou em sua dissertação de mestrado quatro grupos distintos de profissionais, sendo um deles de jovens que trabalham em agências de comunicação e empresas de tecnologia. Para esses trabalhadores, o principal valor é a liberdade para pensar e agir.

“Companhias de tecnologia vendem uma possibilidade de autonomia, como personalizar seu horário e tocar seu projeto com independência”, diz Taynã. Mas, se à primeira vista a decoração cria uma atmosfera de liberdade, num segundo momento a sensação provocada é de frustração.


Segundo Taynã, os profissionais se ressentem de não aproveitar os benefícios divertidos. Como resultado, muitos acabam se desapontando e deixando o emprego após um tempo. “A proposta se torna incoerente, e eles preferem sair”, afirma Taynã. “Eles querem trabalhar num lugar onde haja identificação de valores.” 

Para uma ex-gerente do Buscapé, site de comparação de preços, produtos e serviços, se não for feito um trabalho com os gestores para que eles estimulem o clima de liberdade, não adianta oferecer opções de descontração.

A sede do Buscapé, em São Paulo, tem pebolim, pingue-pongue, cesta de basquete, redes para descanso e até um boneco de boxe para socar nas horas de estresse. A executiva diz que não regulava sua equipe, mas se lembra de ouvir outros gerentes criticando quando um funcionário deles descansava na rede. “Muitos achavam improdutivo usar a área de descompressão”, afirma a gestora. 

Boas intenções

Uma das consequências mais comuns dessa política de manter muitos atrativos na empresa é que as pessoas ultrapassam o horário regular do expediente. De acordo com Christian Barbosa, especialista em gestão de tempo e produtividade e fundador da Triad PS, de São Paulo, se por um lado os benefícios trazem felicidade ao escritório, por outro são uma maneira velada de a empresa manter os funcionários por perto.

“O intuito é que isso se traduza em produtividade, o que nem sempre acontece”, diz Christian. “Queremos tirar qualquer impressão do trabalho como um lugar ruim ou hostil. Os profissionais se sentem bem e nem querem sair daqui”, diz Rafael Costa, do JusBrasil.

Ambiente informal, jogos e alimentação saudável amenizam o peso das tarefas e a pressão por resultados e fazem o profissional passar mais tempo no escritório, restringindo as relações pessoais aos colegas da empresa. Quem opta por essa rotina acaba se esquecendo de que a vida não é só trabalho.


“O ambiente traz conforto, inclusive emocional, dentro dos laços que são criados”, diz Elton Moraes, consultor do Hay Group, de São Paulo, e coautor do livro O Inimigo do Engajamento Profissional (Editora Campus/Elsevier).

Por isso, é importante garantir contato com o mundo fora da companhia. “Caso contrário, pode ocorrer de faltar consciência do papel social e da própria identidade”, diz Elton.

“A obrigação de estar envolvido com tudo da empresa pode ser pesada.” Com toda a sensação de flexibilidade proporcionada por mobilidade e trabalho remoto, o que se vê, segundo Taynã, é o hábito de trabalhar o tempo todo. “As pessoas nem percebem que não estão fazendo intervalos porque, de certa forma, conseguem ter mais conforto enquanto produzem”, diz Taynã. 

Uma tendência?

O arquiteto Edo Rocha aponta para um aumento de empresas que imitam o estilo do Vale do Silício. Para ele, a necessidade de maior liberdade e estímulo criativo no trabalho está diretamente relacionada ao comportamento ligado à tecnologia. No entanto, Edo faz críticas.

“A ideia da liberdade é pasteurizada nesses escritórios. O Google daqui é igual ao dos Estados Unidos, é um carimbo. O resultado é uma liberdade controlada.”

No Peixe Urbano, site de compras coletivas com sede no Rio de Janeiro, a pesquisa anual de clima demonstrou, por três anos seguidos, que o ambiente de trabalho é o motivo número 1 por trás da retenção dos profissionais, acima de salário e outros benefícios.

Para Julio Vasconcelos, CEO e fundador do Peixe Urbano, o ambiente é apenas parte do todo. “Acredito que o layout e a decoração de um escritório sejam reflexo de algo muito maior, que é a cultura e a identidade da empresa”, diz Julio. 


Ambientes divertidos não tiram a seriedade da empresa. “Não somos um parque de diversões”, diz Mônica Santos, diretora de RH do Google, de São Paulo, que está em primeiro lugar no ranking da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Executivos 2013, realizada pelo Grupo DMRH e Nextview People com mais de 4.100 empresários, presidentes, diretores e gerentes seniores de todos os setores.

Na empresa, o ponto negativo é a pressão da carga excessiva de trabalho, segundo o Guia VOCÊ S/A — As Melhores Empresas para Você Trabalhar 2012. Os jogos, o clima informal e as festas existem para aliviar tensões e para que as pessoas recarreguem as energias. “Temos uma expectativa de realização alta e acreditamos que mudanças vêm de objetivos audaciosos”, afirma Mônica. 

O funcionário pode perder a noção do que é vida pessoal e profissional, mas isso não é um incômodo para todos. É um casamento entre perfil pessoal e identidade da companhia. “O empregado pode usufruir desses ‘artifícios’ oferecidos pela empresa e ficar satisfeito”, afirma Elton, do Hay Group.

“A qualidade da vida pessoal e da profissional tem mais a ver com as escolhas do indivíduo.” Antes de se encantar com pufes coloridos ou mesas de pingue-pongue, é preciso atentar para a maneira mais produtiva de trabalhar de acordo com seu perfil profissional.

O vínculo se torna confortável quando se dá pela identidade e quando se percebe que os valores da organização são os “seus” valores. Joel Dutra, professor da FEA-USP e coordenador do Programa de Estudos de Pessoas (Progep), alerta para um cuidado necessário, por mais consciente, adaptado e confortável que o profissional esteja:

“Se a pessoa fica muito imersa na organização, perde a capacidade crítica sobre o trabalho e a própria criatividade”, diz Joel. Portanto, é importante mergulhar no trabalho sem esquecer de buscar inspiração fora da empresa.