O novo destino dos executivos brasileiros

Ao lado dos Estados Unidos, países latino-americanos são os que mais têm recebido executivos brasileiros expatriados

São Paulo – Uma pesquisa realizada pela Ernst & Young Terco com 810 executivos, de 21 setores, em 35 países, incluindo o Brasil, indica que até 2016 o número de altos gestores  enviados para trabalhar no exterior crescerá 20%, oportunidade considerada por muitos um passaporte para futuras promoções e aumentos no contracheque.

Uma das novidades nesse cenário é que um levantamento feito pela consultoria Emdoc, especializada em mobilidade global, apontou que, além dos Estados Unidos, os países para onde os profissionais brasileiros mais têm sido expatriados são Colômbia, Argentina e México.

“Com a crise na Europa, os países da América Latina se consolidam fortemente, principalmente pela ampliação dos negócios com o Brasil”, afirma Carolina Garutti, sócia da Emdoc e responsável pelo departamento de transferências para o exterior.

Vale lembrar que, enquanto o PIB brasileiro de 2012 fechou em 0,9%, a economia de México e Colômbia cresceu 3,9%, e a da vizinha Argentina teve um incremento de 1,8% em relação a 2011. Os setores que mais têm gerado oportunidades de expatriação para esses países são siderurgia, engenharia, cosméticos e área química. 

Embora muitos executivos brasileiros subestimem a oportunidade de uma expatriação para esses países — em relação a uma experiência na Europa —, os especialistas em carreira lembram que ela pode representar o primeiro passo para uma promoção a uma posição de liderança regional.

“Um grande desafio para a carreira pode ocorrer tanto na Colômbia quanto nos Estados Unidos, em Angola ou no Kuwait. O que importa de fato é o projeto, e não o lugar em si”, afirma o headhunter Marcelo Cuellar, da Michael Page. Essa possibilidade incentivou o engenheiro de produção mecânica Daniel Campos, de Indaiatuba, no interior de São Paulo, a assumir o cargo de gerente de compras da Embraco, no México, em 2011.


Daniel, de 32 anos, foi um dos escolhidos para estruturar uma nova fábrica da companhia em Monterrey, a 900 quilômetros da capital mexicana. “Além do ganho cultural, o enriquecimento profissional é indiscutível”, afirma o engenheiro, que comanda uma equipe de 20 pessoas, todos mexicanos. “Os brasileiros são bem recebidos, e a similaridade de culturas contribui para a fácil adaptação.” 

Para ele, ajudar na construção de uma nova unidade, em um país que vive um crescimento econômico acelerado, é uma oportunidade única de evolução na carreira.

De acordo com Thiago Pimenta,  headhunter e sócio da consultoria Flow Executive Finders, os brasileiros são reconhecidos pela facilidade de relacionamento e pelo jogo de cintura nos negócios, características forjadas com a necessidade de adaptação frente ao cenário de instabilidade econômica que o país enfrentou nas últimas décadas.

“Se alguém consegue bom resultado aqui, certamente está apto a assumir operações em outros países em desenvolvimento, assim como pode maximizar os ganhos em nações desenvolvidas”, afirma. Thiago acredita que o atual cenário internacional exige profssionais com competências que vão além de poder de decisão, criatividade e agilidade.

“Gerar resultados diante de ambientes adversos é um desafio para a maioria das empresas. Nesse quesito, os brasileiros são extremamente efcientes. São os curingas da gestão internacional.”

Ganho financeiro

Além do glamour que cerca as expatriações, a recompensa financeira também costuma motivar os candidatos. Carolina Garutti, da Emdoc, afirma que os expatriados costumam receber aumento salarial médio de 25% a 35%, mais bônus e benefícios.

Segundo Marcelo Cuellar, da Michael Page, esse cenário já foi mais interessante. Há alguns anos, o acréscimo no contracheque podiachegar a  80%, dependendo do cargo. “Financeiramente ainda vale a pena, mas, devido à crise global, os salários e os itens no pacote de benefícios têm sido mais frugais.”


Poliana Rosinha, de 37 anos, engenheira química da Braskem, conta que o fator fnanceiro realmente pesou na decisão de sair do país, em 2012. Mas o que determinou sua transferência de Porto Alegre, onde trabalhava havia 13 anos, para a unidade da empresa em Houston, nos Estados Unidos, foram os desafios do novo cargo.

“Cuido de exportações em um segmento bastante instigante e cheio de oportunidades no mercado americano”, diz. Para Poliana, a mudança teve um fator extra de complexidade: ela embarcou com o marido — que pediu um ano sabático no trabalho — e dois filhos pequenos.

Seis meses antes de viajar, a engenheira começou a adaptação das crianças, na época com 6 e 2 anos. “Elas passaram a estudar inglês todos os dias.” As primeiras semanas foram as mais complicadas, principalmente por não poder contar com a estrutura de avós e empregada, à qual estava acostumada no Brasil.

“Mas não houve confito ou grandes problemas, porque viver fora do país sempre foi um desejo da família”, afirma Poliana.

Para Carolina Garutti, o apoio familiar é fundamental para o sucesso da expatriação. “Desistências são incomuns nesse tipo de programa. Quando ocorrem, normalmente é porque o cônjuge ou os flhos não se adaptaram” diz. 

Promoção no retorno

Não existe regra, mas os contratos de expatriação costumam durar de dois a três anos. “Mas esses prazos são  negociáveis”, diz o headhunter Thiago Pimenta. A fase da volta, entretanto, pode ser delicada, por causa da expectativa de um novo salto profissional e da própria readaptação ao Brasil.

As grandes empresas costumam ter planos de carreira bem estruturados para quem saiu do país, já que o investimento nessas pessoas é alto. “Há exceções, mas quanto maior o tempo no exterior, assumindo cargos e projetos diversos, maior deve ser seu posto ao voltar”, afirma Marcelo Cuellar.

Pensando nisso, o administrador de empresas André Resende, de 40 anos, gerente de RH na indústria química Oxiteno, na Cidade do México, não tem pressa de voltar ao Brasil, apesar da saudade da família. Na capital mexicana desde 2010, ele espera fcar por mais dois anos.

Como executivo de RH, André sabe bem que nas multinacionais a regra do jogo é clara: cresce mais quem muda mais.