O mundo perfeito de João Doria Jr.

Por trás da imagem impecável do empresário e apresentador de tevê, há um profissional extremamente disciplinado e obcecado por detalhes, que fica quase 20 horas por dia no escritório

São Paulo – A imagem de João Doria Jr. reflete sua personalidade — gentil e educado, de fala suave, porém assertiva. Apresenta-se sempre impecável, do penteado ao sapato. Reza a lenda que mantém no escritório uma roupa igual à que está no corpo, tudo para garantir um alinhamento permanente. Em tudo o que Doria faz, o perfeccionismo transparece.

Em O Aprendiz, o reality show que comandou na Rede Record até o início de junho, pediu para trocar a música da vinheta, que, em sua opinião, não combinava com o espírito do programa. 

Aos 53 anos, Doria é dono de sete empresas, que organizam eventos, produzem programa de tevê e editam revistas. Suas marcas mais famosas são o Fórum Empresarial, o Lide – Grupo de Líderes Empresariais, o programa Show Business e a Casa Cor, evento de decoração no qual é sócio do Grupo Abril, que publica a VOCÊ S/A.

Todos esses empreendimentos trabalham em prol do real negócio de Doria: vender o ingresso a um ambiente de exclusividade, disputado por poderosos — empresários e políticos. Pense nele como o chef de um restaurante top. Seu trabalho é entregar um serviço de altíssimo nível a uma clientela idem — e cobrar caro por isso.

Custa no mínimo 90 000 reais a participação de três dias de um executivo (com esposa) no Fórum Empresarial, realizado anualmente na Bahia. Como os grandes chefs, Doria arrisca sua credibilidade em cada prato que serve. Para que tudo funcione perfeitamente, a tolerância a erros tem de ser zero.

Por isso, cuidar pessoalmente de cada detalhe é mais que uma atitude centralizadora: faz parte do instinto de sobrevivência. “Ele busca a perfeição em tudo”, diz Célia Pompéia, vice-presidente administrativa e financeira do Grupo Doria, que trabalha com o empresário há 15 anos.

Aos olhos de quem está de fora, todo esse perfeccionismo pode parecer neurótico e asfixiante. Doria o encara com naturalidade e afirma que viver nesse nível de exigência não o estressa. “Gosto muito do que faço”, diz ele, que aplica em si mesmo o rigor que cobra dos outros. Ele cumpre dedicadamente um extenso expediente que vai das 7h30 à 1h da manhã do dia seguinte.

É sempre o primeiro a chegar e o último a sair do escritório, localizado num prédio neoclássico na Avenida Faria Lima, em São Paulo. A rotina puxada exige três secretárias, que se revezam em três turnos para acompanhá-lo. Em média, Doria dorme quatro horas por dia — durante as gravações de O Aprendiz, diminuiu para três.

“Acostumei meu corpo a esse ritmo”, explica, numa afirmação no mínimo discutível. “Não bebo álcool, não fumo e me alimento bem.” As duas competências que Doria considera mais importantes para realizar tantas atividades são organização e disciplina. “São quase sinônimos”, diz ele.


Suas reuniões têm pauta predefinida, hora para começar e para acabar. Nos eventos, usa um apito para chamar a atenção dos líderes das empresas mais importantes do país. “Alguns não gostam”, conta um presidente. À disciplina e à organização, soma-se outra característica marcante de Doria: a polidez. “Ele é rígido, mas com educação”, diz Célia, o braço direito. “Nunca o vi gritar com ninguém.” 

O comportamento centralizador faz com que Doria assuma tarefas que deveria delegar. É assim desde que iniciou sua carreira. Nos anos 80, quando presidia a extinta Paulistur, órgão da Prefeitura de São Paulo responsável pela promoção de atividades turísticas na cidade, protagonizou um episódio até hoje lembrado pelo publicitário Walter Longo, vice-presidente de estratégia e inovação do Grupo Newcomm: no dia de um show no Parque do Ibirapuera, chovia muito e o serviço de manobristas não funcionava.

Para evitar que os figurões se molhassem, Doria vestiu um uniforme amarelo e ajudou a estacionar os carros. “Para as coisas acontecerem, ele é capaz de se doar de corpo e alma ao trabalho”, diz Walter Longo. “Essa marca é respeitável e admirável.”

Apesar de examinar os detalhes com minúcia, Doria é elogiado por manter o foco no que é importante. “Tem executivo que centraliza, trabalha muito e perde nos detalhes um tempo que poderia gastar com as coisas estratégicas. Com Doria isso não ocorre”, diz David Barioni Neto, ex-presidente da TAM e atual presidente do Facility Group, especializado na terceirização de serviços, como limpeza, alimentação e tecnologia.

“É difícil encontrar um executivo que consiga alinhar tão bem detalhismo com foco estratégico”, avalia David, que foi conselheiro de Doria em O Aprendiz. Persuasão é outra característica marcante. Segundo um presidente que vai a seus eventos, Doria tem uma capacidade incomum de convencer uma pessoa de que sua presença é indispensável, mostrando todos os benefícios que a participação pode trazer.

Em suma, é um ótimo vendedor. “Quando ele fala, você topa na hora”, diz Sônia Hess, presidente da confecção Dudalina e do Lidem, o grupo de mulheres empresárias que Doria organiza. “As pessoas sabem que os eventos são uma ótima oportunidade de falar com profissionais de altíssimo nível”, diz Doria.

Se a habilidade falha, ele ainda pode usar de um argumento antigo, mas ainda bastante eficiente, para convencer um presidente a comprar seu ingresso: o medo da concorrência. “Os executivos sabem que os concorrentes estarão lá, mesmo que eles não estejam. O jogo é limpo e todo mundo sabe disso”, completa.

Nas negociações, Doria também é conhecido pela rigidez. Dizem os presidentes que ele não abre mão de 1 centavo sequer do pagamento do evento. “Ele sabe exatamente o quanto valem seus negócios e, portanto, sabe o quanto precisa cobrar por eles”, diz Toni Sando, diretor-superintendente do São Paulo Convention & Visitors Bureau, fundação sem fins lucrativos que fomenta o mercado de eventos na capital paulista, do qual Doria é conselheiro. 

Toda essa obsessão pelo trabalho perfeito faz com que Doria tenha pouco tempo para a família. Durante a semana, seu contato com os três filhos se resume às três manhãs em que os leva para a escola. Restam os sábados, quando não trabalha, e os domingos até as 18h, quando o expediente recomeça e vai até a 1h da manhã da segunda.

“Ele abdicou da vida pessoal em nome do sucesso profissional”, diz um executivo próximo. “As pessoas o admiram e o respeitam pela determinação e excelência, mas dificilmente você vai encontrar alguém que inveje a vida que ele leva.”