O mito da motivação

Não se iluda: ela é a conseqüência de nossas escolhas, não a causa

CARO SIMON: O meu problema é que não tenho mais motivação para nada. Não me sinto uma pessoa determinada. Não consigo dizer “eu quero isto e ponto!” ou “vou passar neste concurso!” Estou perdido, sem objetivos, desmotivado com a faculdade, com o estágio e até na vida pessoal. Nem emagrecer eu consigo. Gostaria que me ajudasse com dicas, artigos, livros, cursos, qualquer coisa. (Leandro Silva Lima, por e-mail)

Caro Leandro: sua carta tem um tom bem pessoal e diz respeito a coisas que ultrapassam o objetivo desta coluna, que é discutir questões profissionais. No entanto, resolvi respondê-la por tocar num ponto que é muito importante do ponto de vista de qualquer carreira: a motivação. Eis aqui um mito a ser repensado. A crença de que a motivação é pré-requisito para obter resultados, tanto na vida profissional como na pessoal, é muito comum.

Mas a motivação não é o ponto inicial. Ela é, na verdade, um resultado de escolhas que fazemos na vida. Não é por ser motivado que fazemos escolhas certas, é por fazer escolhas certas que ficamos motivados e realimentamos nossa capacidade de realização. A falta de motivação não é causa, é conseqüência. E acreditar que é possível ficar motivado para depois conseguir sucesso é uma forma de se iludir.

Acredito que a questão mais importante no seu caso seja perguntar o que você quer, por quê, e o que deve ser feito para consegui-lo de forma prática. Você provavelmente ainda não decidiu, ou não encontrou, o que deseja para a vida profissional. Pode ser que o problema não esteja na sua falta de motivação, mas no fato de o concurso que você pretende fazer não estar ligado a seu talento ou ao caminho que você realmente gostaria de seguir. Qual é a sua formação? Será que você se formou naquilo de que gosta?

Outro risco é usar o jargão da motivação para tentar esconder de si mesmo algumas deficiências. Uma pessoa pode não passar num concurso ou não conseguir um emprego por falta de qualificação adequada — e não por falta de motivação. Nesses casos, é preciso estudar, preparar-se, melhorar. Dá um trabalhão. Mas freqüentemente caímos na armadilha de dizer “não estou motivado” em vez de “eu não sei” ou “não me preparei direito”. É uma forma de prestar contas a nós mesmos e também à família e aos amigos.

As questões psicológicas são importantes, sem dúvida. Mas a “psicologização” dos problemas da carreira pode ser um problema maior. Da mesma maneira que emagrecer requer acompanhamento médico, o impulso para o sucesso requer medidas práticas, que levarão depois a uma mudança de atitude interior. A motivação virá quando você tiver uma preparação adequada para disputar concursos ou empregos — ou seguir carreira na área artística e intelectual, por exemplo — que sejam realmente atividades de que você gosta, com as quais se identifica. Então, com a segurança de obter êxitos, você pode deslanchar.

Por isso, não fique esperando a motivação chegar nem acredite que com ela você será capaz de fazer coisas que não consegue fazer hoje. Defina seus objetivos. É por não tê-los que você se vê desmotivado. Suas capacidades, seu talento e suas eventuais deficiências não vão melhorar ou piorar num passe de mágica. Eles já fazem parte de você. Por isso, movimente-se, estude, prepare-se, escolha. Sobretudo, faça a escolha certa. A motivação virá depois, como um prazer suplementar ao êxito.

Simon Franco é presidente da TMP Worldwide para a América Latina.