O lado financeiro da virada

O consultor de finanças pessoais Gustavo Cerbasi mudou o rumo de sua carreira três vezes. Neste artigo, ele conta como se preparar financeiramente para uma guinada

São Paulo – A maioria dos profissionais que conheço está continuamente em busca de mudanças. Eles fazem cursos, leem conteúdos inovadores e assistem a palestras de gurus. O objetivo é  alcançar um degrau mais alto na carreira e na vida. Se você quer mudar de trabalho ou de atividade, sua estratégia financeira deve estar de acordo com seu estágio de vida.

Prepare-se para ralar

Um jovem de 20 anos, por exemplo, tem de lidar com obstáculos como falta de reservas financeiras, de experiência e de certezas em relação a suas escolhas. Porém, a juventude traz qualidades como a liberdade de não ter filhos para manter na escola, flexibilidade para mudar de vida sem atrapalhar a carreira do cônjuge e uma maior tolerância em relação à sua natural inexperiência.

Perguntar não é demonstrar ignorância, mas, sim, vontade de aprender. Por isso, não espere trabalho fácil. Estude o que for possível sobre sua função e sobre a dos outros. Se você quer partir para o desconhecido, prepare-se para trabalhar muito, fazer o que não gosta e ganhar menos do que merece. Mas faça da melhor forma possível o que for sua incumbência, para adquirir reconhecimento.

Com ele, vêm as propostas de novas oportunidades e as possibilidades de escolha. Com as escolhas, vem o prazer e o aumento da remuneração.

Patrimônio em risco

Quem busca mudanças na faixa dos 30 anos, por outro lado, precisa se preocupar em preservar o patrimônio que conquistou. Se a mudança traz renda incerta, é preciso ter patrimônio certo para se manter pelo tempo necessário à desistência e à retomada da carreira anterior.


Uma sólida reserva financeira será seu plano B, para se manter enquanto acerta a carreira, caso seja obrigado a voltar atrás ou a fazer nova mudança. Se você for casado e a mudança impactar a vida dos dois, é preciso avaliar a reserva do ponto de vista da necessidade de manter o casal, mesmo que um dos dois não consiga mais retomar a carreira anterior — situação comum em expatriações.

Portas abertas

Aos 40 anos, somos mais remunerados pelo que sabemos do que pelo que fazemos.  Uma mudança na carreira significa abandonar uma história que fez seu currículo adquirir um grande valor, talvez uma grande marca. Por isso, tenha certeza de que você irá manter seu padrão de vida e sua segurança previdênciária com as reservas financeiras que tem, ou então assegurar condições contratuais que garantam a criação de uma reserva dessa natureza.

Aos 40, é provável que o casal tenha filhos e, com eles, que exista a necessidade de arcar com gastos fixos elevados. Deixar um emprego para empreender um negócio, por exemplo, envolve risco elevado e deve ser cogitado somente se contar com recursos suficientes para dois anos de atividades do negócio, além dos recursos para sustentar a família nesse período.

É muito dinheiro e exige um plano de negócios detalhado para garantir crédito. Por outro lado, quem deixa para trás uma carreira a essa altura deve também tomar o cuidado de, com um bom networking, deixar portas abertas para uma possível retomada.

Meus três ciclos

Minha vida e minha carreira se transformaram tanto nos últimos anos que tudo o que quero agora é um pouco de rotina. Quero compartilhar as mudanças por que passei, três grandes delas em minha carreira. A primeira foi em 1998, recém-formado em administração pública, aos 24 anos. 


Eu procurava a estabilidade de um bom emprego, queria aprender muito, ganhar bem. Decidi prestar um concurso para a Receita Federal — estabilidade certa e com grandes chances de eu passar, pois cobrava exatamente o que eu havia aprendido na faculdade. Mas um pedido de um amigo e a falta de grana me levaram a fazer um bico como consultor, o que prejudicou meus estudos para o concurso e transformou meus planos.

Não passei e me vi na necessidade de mudar da estabilidade da carreira de servidor para a incerta vida de profissional liberal. A mudança, apesar de não planejada, deu certo porque eu tinha horários flexíveis, trabalhava remunerado por hora e, no princípio, com carga horária leve.

Dedicava-me mais do que consultores mais experientes, o que me fez subir na carreira e ganhar bem. Estava satisfeito com os ganhos, mas não com a sobrecarga de trabalho. Foi quando surgiu o convite para me tornar sócio de uma importadora no Canadá, a segunda grande mudança em minha vida — de profissional liberal a empresário.

Para mim era a oportunidade de interromper um ciclo altamente desgastante quando ainda estava no auge. Tinha reservas financeiras para me manter por mais de quatro anos e um bom projeto nas mãos. 

Em seis meses, percebi que o empreendimento evoluiria em um ritmo muito menor do que eu planejava. Ao mesmo tempo, recebia convites do Brasil para dar palestras sobre meu primeiro livro. Fiz alguns contatos com editores, universidades, clientes que atendia à distância e amigos, e vi que era possível retornar com diversas cartas na manga.

Era a terceira grande mudança em minha vida profissional. Não tinha uma proposta de carreira de nenhuma empresa ou instituição, mas havia a possibilidade de iniciar cerca de uma dezena de atividades com algum potencial de crescimento. Como tinha reservas financeiras, pude assumir a condição de recomeçar. Com o tempo, foquei no que gostava mais. Hoje, vivo de meus investimentos e da atividade que 100% das pessoas que consultei disseram que não me sustentaria: escrever livros.