O caminho da aceitação

Uma morte inesperada na família foi o que motivou a publicitária paulista Fátima Torres, de 29 anos, a começar a olhar para dentro de si mesma. Seu pai faleceu com 65 anos num acidente quando estava de férias na praia, em fevereiro de 1998. Fátima perdeu o eixo e resolveu buscar ajuda. “Foi só então que me dei conta de que as pessoas morrem de uma hora para a outra”, diz. “Não conseguia me concentrar. O trabalho até saía, mas era de forma penosa.” Fátima experimentou vários caminhos. Fez curso de ioga, terapia, meditação indiana e até conheceu algumas linhas de budismo e da igreja messiânica. Hoje, mantém apenas as duas primeiras práticas. Apesar de “misturar tudo”, como define, diz ter começado um caminho sem volta. Acredita na mudança, mas também aprendeu a aceitar o que não pode ser mudado.

No ano passado, Fátima trilhou o Caminho de Santiago, uma rota de peregrinação entre a França e a Espanha. Na companhia de uma amiga, percorreu cerca de 750 quilômetros a pé. “Eu queria um tempo para mim”, diz. Ela andou, em média, 30 quilômetros por dia, façanha que conseguiu realizar graças a um bom planejamento. Atualmente, a publicitária, que é gerente de contas da Rappy Collins, empresa de marketing direto, estabelece até uma analogia entre o caminho e a própria carreira. “Para chegar a qualquer lugar, você precisa dar um passo depois do outro. Não tem muito o que pensar”, diz. Para Fátima, a grande virtude, tanto no caminho como na vida, é ter paciência. Para cumprir o objetivo de chegar a Compostela, Fátima consultou um nutricionista, um cardiologista e montou um plano de condicionamento físico aliado a uma dieta alimentar seis meses antes da viagem. Com a preparação encaminhada e o plano em mãos, fez uma ampla pesquisa em sites, livros e com pessoas que já haviam embarcado na aventura. Planejou minuciosamente o que comer e o que carregar na mochila. “Você aprende na prática o que é desapego”, diz Fátima, que levou apenas duas calças que se transformam em bermuda, três camisetas, um par de botas, um saco de dormir e fraldas para se enxugar (mais leves do que uma toalha de banho). No caminho, vivenciou de tudo um pouco: dor, impaciência, desentendimentos, negociações, persistência, espiritualidade. Passar um mês caminhando também a ajudou a encarar seu perfeccionismo. As limitações físicas foram a prova mais evidente de que não é possível ser sempre perfeito. “O caminho nunca acaba, ele é a própria vida”, diz.