Novela da Globo reacende debate: o que é coaching, afinal?

Polêmica envolvendo novela da Globo faz reviver uma confusão antiga: qual é a diferença entre coaching e psicoterapia?

São Paulo — Cenas da novela “O outro lado do paraíso”, exibida pela TV Globo, viraram motivo de debate e controvérsia entre psicólogos e profissionais de coaching nesta semana.

Em carta divulgada na última segunda-feira, o Conselho Federal de Psicologia afirmou que o folhetim presta um “desserviço à população brasileira” ao sugerir que a personagem Laura (Bella Piero), abusada sexualmente pelo padrasto na infância, poderia ser tratada pela advogada e coach Adriana (Julia Dalavia) com sessões de hipnose.

Para o Conselho, a novela trata o assunto “com simplismo e interesses mercadológicos”. A nota também afirma que “pessoas com sofrimento mental, emocional e existencial intenso devem procurar atendimento psicológico com profissionais da Psicologia, pois são os que têm a habilitação adequada”. 

Em meio à controvérsia, a Globo divulgou um comunicado reforçando que a novela é uma obra de ficção, sem compromisso com a realidade, e que a trama deseja mostrar “o processo pelo qual passa uma pessoa que precisa de ajuda, recorrendo a diferentes e variadas formas de apoio e terapias, das mais às menos ortodoxas”.

Um detalhe que ateou ainda mais fogo à discussão é que a cena em que a personagem Adriana fala sobre coaching foi uma ação de merchandising do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC).

O Instituto admitiu ao site VEJA que pagou pela ação promocional no folhetim da Globo, mas não divulgou o valor investido. Marcus Marques, filho do fundador do IBC, classificou a reação das redes sociais ao merchandising na novela como “exagerada”.

Na trama, a personagem teve um bloqueio de memória por causa da profundidade do trauma sofrido na infância. Ela não se lembra dos abusos do padrasto e não sabe dizer por que tem problemas sexuais com o marido.

“A advogada Adriana ainda não sabe que a garota tem um trauma, ela apenas se propôs a ajudar Laura com uma conversa”, disse Marques ao site VEJA.  “O IBC espera que ela encaminhe a menina para uma terapia, mais adiante na novela, quando perceber que a questão é séria”.

O site EXAME solicitou pronunciamento oficial do IBC, mas não obteve retorno até o momento.

Mas o que é coaching, afinal?

Recente no Brasil, a profissão do coach ainda é cercada por dúvidas e mal-entendidos. Pudera: entre 2010 e 2014, o número de coaches no país saltou 300%. Esse crescimento desenfreado atrapalha a reputação da profissão, que não é regulamentada no Brasil. Profissionais sérios muitas vezes são confundidos com charlatões — e vice-e-versa.

Além de tomar cuidado para não contratar um picareta, é preciso delimitar as situações em que o coaching é indicado.

De acordo com o coach João Luiz Pasqual, esse tipo de serviço é voltado para quem busca explorar situações do presente com o intuito de pavimentar um futuro desejável.  “O objetivo é trabalhar por um tempo pré-determinado para realizar uma transição, levar a pessoa do ponto A ao ponto B, algo que fica combinado desde o início”, explica ele.

Sessões de coaching são úteis, por exemplo, para quem precisa passar por uma transição na sua carreira ou vida pessoal.

A coach Eva Hirsch Pontes lembra o caso de uma cliente que trabalhou a vida inteira no mundo empresarial até que decidiu largar tudo para seguir carreira acadêmica. “Ela queria transformar algo na sua vida e precisava se preparar para isso”, explica. “Hoje ela está feliz como professora”.

Além disso, o coaching serve unicamente para desenvolver competências comportamentais. Ele não é serve para melhorar a sua oratória ou desenvolver raciocínio lógico, por exemplo. Por outro lado, é possível desenvolver aspectos como liderança, negociação, adaptabilidade, criatividade, automotivação e trabalho em equipe.

Em artigo para a revista VOCÊ RH, a psicóloga Vicky Bloch explica que “o coaching é recomendado em situações como mudanças de perfil da função do executivo, adaptação a novas culturas ou um novo momento da empresa, como reestruturações organizacionais”.

“Muitas vezes, o termo coaching é aplicado livremente, e até irresponsavelmente, para descrever qualquer atividade de aconselhamento. Esse uso indiscriminado da palavra dificulta o trabalho de quem atua seriamente no ramo e prejudica quem contrata o serviço”, escreve Bloch, que é sócia da Vicky Bloch Associados e professora nos cursos de especialização em RH da FGV-SP e da FIA.

O que não é coaching?

Em artigo para o site EXAME, Sofia Esteves, fundadora e presidente do conselho do Grupo DMRH, reforça que coaching não é “terapia ou psicoterapia, treinamento, aconselhamento nem mentoring”. “Saber disso é muito importante para que você não perca tempo, dinheiro e não atinja seus objetivos finais”, recomenda ela.

Os limites conceituais são motivo de confusão quando o assunto é life coaching, um enfoque da atividade mais ligada às questões pessoais do que profissionais.

Em entrevista à VOCÊ RH, Jorge Oliveira, ex-presidente da ICF (International Coach Federation) no Brasil, diz que o life coaching é um conceito muito próximo da terapia. “A diferença é que o terapeuta vai lidar num nível mais profundo e mais abrangente. Vai querer desatar os nós. O life coach vai lidar com questões mais específicas. É algo mais circunstancial, definido e delimitado. Um comportamento mais claro e operacional”, explica ele à revista.

Independentemente do enfoque, a atividade não é equivalente à psicoterapia. “Você vai trabalhar traumas, questões emocionais e situações do passado com um analista, não com um coach”, resume o coach João Luiz Pasqual.

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  1. Lilian Lessa

    COACHING NÃO É PSICOTERAPIA. Bem por aí. O coaching utiliza conhecimentos de diversas áreas sendo uma abordagem interdisciplinar que tem como objetivo o aumento da performance humana, mudança ou transformação.

    O que pode ocorrer é que COACHES MAL PREPARADOS podem não perceber alguns tipos de “bandeiras vermelhas” , ou seja, pontos que se referem a questões patológicas. Melhor dizendo, são sinais e sintomas eventualmente apresentados por seus coachees (clientes) que caracterizam enfermidades mentais.

    Essa falta de preparo adequado, pode acarretar prejuízos tanto para o profissional coach por exercer, sem possuir habilitação legal, a profissão de psicólogo, quanto para o cliente, que não estará sendo atendido por um profissional devidamente qualificado com nível superior em psicologia ou psiquiatria. O que pode, inclusive, agravar consideravelmente seu quadro, pois o processo de coaching exige uma certa dose de estresse para que as metas sejam cumpridas.

    Uma situação que pode ocorrer, por exemplo, é uma pessoa com depressão, mesmo que leve, ou seja, não detectável por um leigo, ser cobrada pela realização das tarefas e, devido a sua condição, não conseguir executá-las e começar a se sentir pior ainda em relação as suas capacidades, o que pode levar a um agravamento clínico. O coach, sem perceber o que se passa, pode continuar o processo sem encaminhar o cliente para profissional competente e tratamento adequado.

    Por outro lado, também existem situações para as quais as pessoas buscam atendimento psicoterápico e não alcançam os resultados que desejam, justamente por estarem precisando de uma abordagem mais diretiva. Se o psicólogo não for competente para perceber que seu cliente/paciente não apresenta qualquer transtorno e que existe o coaching que pode ser mais eficaz para o caso apresentado (assim como outras abordagens dentro da psicologia que são mais direcionadas ao alcance de objetivos, promoção da saúde, bem-estar e prevenção de recaída, ressalvadas as devidas diferenças de aplicação em relação a metodologia coaching), o cliente/paciente poderá também ser prejudicado e se antes não estava precisando de psicoterapia poderá começar a precisar, pois a frustração de recorrer a uma alternativa que acreditava ser apropriada para resolver seu problema terá falhado ou se demonstrado pouco eficiente o levando a desenvolver ou a reforçar crenças de incapacidade, por exemplo.

    O coaching pode ser muito mais efetivo para certos casos nos quais a pessoa quer emagrecer, mudar comportamentos, desenvolver novas habilidades, que podem melhorar seus relacionamentos, ganhos financeiros, qualidade de vida e até mesmo equilíbrio emocional, por meio do aprendizado da autoconsciência, um dos construtores da inteligência emocional, etc.

    O trabalho do coach é orientar a formulação de metas, ajudar o cliente a se manter focado e motivado, a planejar, a identificar e resolver problemas da trajetória, a observar e trabalhar questões psicológicas não patológicas que estejam dificultando o alcance das metas e fazer com que o cliente amplie a visão de mundo e de oportunidades, liberando o máximo do seu potencial.

    O atual crescimento do mercado de coaching no Brasil exige o aperfeiçoamento da formação de coaches e psicólogos. Os coaches necessitam conhecer mais detalhadamente sobre os casos de transtornos mentais em que não podem atuar e os psicólogos sobre a metodologia coaching para ampliarem seu campo de atuação e/ou compreenderem as diferenças e semelhanças entre as duas formas de trabalho e seus resultados.

    Dessa forma, como esforço em amenizar a celeuma que se criou em relação ao tema (psicologia x coaching), esclareço que, embora o coaching utilize como metodologia teorias da psicologia em seu embasamento, não significa que está autorizado a utilizar técnicas da psicologia para tratar problemas de ordem mental. A questão é o rigor do preparo do coach para compreender o limite de sua atuação e não ambicionar resolver demandas fora de sua alçada que podem surgir durante o processo. Deve-se ter certo acautelamento em relação a divulgação do rigor técnico e científico da prática do coaching, para que não corra o risco de distorcer o julgamento de telespectadores leigos sobre uma metodologia altamente eficaz e reconhecida quanto aos resultados positivos alcançados no desenvolvimento humano e em potencial para o desenvolvimento social.
    Lilian Vianna Lessa
    Coach

  2. Cintia Machado

    É de conhecimento geral que as novelas são obras de ficção formadoras de opinião e que a televisão é um veículo com grande alcance populacional, por tanto não podemos ignorar os impactos da influência de informações equivocadas exibidas nestas obras. Infelizmente parece que seus autores e diretores não possuem serias preocupações sobre tal influência.
    Desde 2009 atuo com coaching fiz duas certificações, algumas especializações e participei de congressos, sou membro e diretora executiva da principal organização global para excelência em coaching a ICF. Lamento que um espaço tão poderoso para informar a sociedade, se preste a desinformar. Coaching não é terapia!
    Coaching é uma tecnologia poderosa! Funciona como uma parceria entre o profissional (coach) e o cliente (coachee) em um processo de desenvolvimento humano que inspira o cliente a maximizar seu potencial pessoal e profissional quando este se propõem a descobrir, em si mesmo, novas formas de agir para construir o futuro desejado. Se quiser saber mais siga o link https://www.linkedin.com/pulse/coaching-como-alternativa-para-curar-trauma-cintia-machado/