Nem sempre ele é o vilão

Culpar o chefe por tudo é fácil. Mas a responsabilidade pelo clima e pelo sucesso do seu trabalho não é só dele, como alerta Elizabeth Zamerul, consultora da RH Realize - Desenvolvendo Inteligências, em São Paulo.

Autora do livro Corações Poderosos – Uma Visão Positiva das Emoções no Trabalho (Editora Realize), Elizabeth Zamerul diz que muita gente usa a figura do chefe-problema para se manter na zona de conforto. Se esse é o seu caso, é hora de mudar.

Você S/A -Em seu livro, você diz que alguns profissionais se acomodam porque têm um mau gestor e não empreendem esforços para se desenvolver. Isto é muito comum?

ELIZABETH ZAMERUL – Muito. Ainda é pequeno o número de profissionais que se julga responsável por sua carreira. A maioria assume o papel de vítima e não de protagonista. Ou seja, não são eles os responsáveis por seu destino. Eles acham que são vítimas do chefe, da empresa. Muitos não agem de forma coerente com suas vontades e ainda ficam esperando que a empresa ou o chefe reconheça suas qualidades e os premie com uma promoção, um curso etc.

Você S/A – Mas o chefe tem, de fato, bastante influência sobre a carreira do subordinado…
ELIZABETH – Sim, mas não toda. Um vilão precisa de uma vítima para o jogo de poder acontecer. O pai precisa de um filho para a relação paternal ocorrer. Muita gente trata o chefe como se fosse um pai, o responsável pelo bem-estar e o futuro do funcionário, o filhão. Isto explica a passividade de muitos liderados, que assumem um papel infantil na relação com a empresa e com o chefe. Esses profissionais estão à procura de um chefe do tipo “pai bom”. E é nesse contexto que eu questiono que as pessoas queiram mesmo um bom líder. Confunde-se facilmente um bom líder com um chefe bonzinho, legal, que faz o que o colaborador quer. O bom superior, na verdade, está mais para o que chamamos de líder-coach: é o que questiona, confronta (de forma saudável, claro), que estimula o liderado a se expandir, a sair da zona de conforto, a raciocinar e a utilizar cada vez mais os próprios recursos. Nem sempre ele é simpático ou agradável, mas funciona como um mestre, que enxerga longe e forma o profissional para ser um líder.

Você S/A – Como sair da zona de conforto na relação com o chefe-mala?
ELIZABETH –  O liderado precisa quebrar o círculo vicioso. Deve se observar e verificar quando age de forma infantil. Tendo a coragem de se olhar no espelho, você vai encontrar aspectos que passam essa mensagem: vai notar que em tal momento é passivo, aceita a superproteção, exige que o outro cuide de você ou se responsabilize. A atitude correta é a de ser protagonista: tenha uma postura clara, objetiva e sincera, mostre aonde quer chegar e quanto quer ganhar (ou entende que merece). O protagonista batalha, se dedica, mostra serviço coerentemente com o tamanho dos seus sonhos.

 

Você S/A – E se o chefe ou a empresa não estão dispostos a reconhecer os esforços que o profissional faz?
ELIZABETH – O protagonista persegue seu sonho, ele não fica numa eterna espera. Se percebe que a empresa ou o superior não estão colaborando, pega sua trouxa e vai embora.

 

Você S/A – É fácil falar…
Se a pessoa cede completamente à situação, está escolhendo esse caminho muito mais por causa do medo do que pelos seus objetivos na vida. Agindo assim, essa pessoa não está no papel de protagonista. O protagonista, vendo que o ambiente não propicia o que ele pretende, não adota uma postura de vítima. Ele começa a fazer um plano de ação para sair daquela empresa, sem colocar em risco suas responsabilidades. Ele tem atitude, mas não é inconseqüente.