As lições de carreira de um apresentador brasileiro nos EUA

O jornalista e ex-modelo Pedro Andrade fala sobre a carreira e como virou o primeiro apresentador brasileiro de um programa nacional da TV americana

São Paulo – O jornalista e ex-modelo Pedro Andrade, de 35 anos, vive atualmente o que muitos podem considerar um momento de sucesso. Nos últimos meses, Pedro tornou-se o primeiro apresentador brasileiro de um programa de rede nacional da televisão americana.

O diário The Morning Show (O show da manhã) estreou em outubro de 2013 no canal Fusion (parceria das redes Disney-ABC e a Univision) e a resposta do público foi imediata. Em março de 2014, o programa foi transferido para o horário nobre com novo nome: Fusion Live.

Pedro também comemora o sucesso do livro de viagem O Melhor Guia de Nova York (Editora Rocco; 59,50 reais), publicação que compila algumas das centenas de dicas que ele reuniu como integrante do time do programa Manhattan Connection, do canal GloboNews. No dia do lançamento do livro, na Livraria Travessa do Shopping Leblon do Rio, no fim de janeiro, as pessoas esperavam 2 horas na fila para receber seu autógrafo.

Nascido no Rio de Janeiro em 1979, Pedro estudou no colégio Santo Agos­ti­nho e cresceu nos bairros de Laranjeiras e Leblon, em uma família de classe média. Aos 17 anos, durante um programa de intercâmbio nos Estados Unidos, pegou um trem e conheceu Nova York pela primeira vez. Voltou ao Brasil com o sonho de um dia morar em Manhattan. Pouco tempo depois, entrou na faculdade de jornalismo. Escrever era outra predileção.

Pedro nunca obteve o diploma da profissão que hoje exerce. Sua graduação foi interrompida pelo convite que mudou sua vida. Certo dia, enquanto caminhava pelas ruas de Ipanema, Pedro foi abordado por Sérgio Mattos, diretor da agência de modelos 40 Graus, que vinha acompanhado do peruano Mario Testino, até hoje um dos principais fotógrafos de moda do mundo. Perguntaram se ele queria ser modelo.

“Nunca fui o bonito da escola. Achei que fosse uma brincadeira”, diz Pedro. “Era uma época de Kate Moss, uma coisa meio junkie, meio nerd. Não sei se eles me chamariam hoje, mas resolvi dar uma chance.”

O primeiro trabalho, um editorial para a revista de moda Visionaire, deu visibilidade, e os convites internacionais começaram a aparecer. Pedro trabalhou em Bangcoc, Atenas, Londres e Paris. “Sempre falo para quem está começando olhar grande para o futuro. E o Pedro foi um cara que realmente soube aproveitar as oportunidades”, diz Sérgio, cuja agência é famosa por ter revelado nomes como Cauã Reymond e Rodrigo Santoro.

Aos 22 anos, Pedro recebeu um convite para trabalhar numa agência de modelos em Nova York. Pelo sonho de morar na cidade, acabou aceitando sem ter nenhum apoio — foi para lá sem dinheiro, sobrenome, contatos ou amigos. A família foi contra a mudança. “Acredito que tudo o que fiz foi para me trazer até o presente. O que faço hoje é para me levar para outro lugar. Quando vi a oportunidade de ir para Nova York, não sabia se teria outra chance parecida.”

Nos Estados Unidos, Pedro trabalhou com grandes fotógrafos da moda, como Steven Klein e David LaChapelle, mas o trabalho de modelo masculino não dava muito dinheiro. Para complementar a renda, Pedro se virou como pôde. “Fui bartender, carregador de gelo, DJ, mas durante todo o tempo sabia que era um jornalista fazendo esses trabalhos para pagar as contas”, diz Pedro.

Quando as torres gêmeas caíram, nos atentados de 11 de setembro de 2001, Pedro trabalhou como voluntário. Desde que chegou, ele realizava testes para trabalhar como apresentador. Também recorria a um jornal de classificados local chamado Backstage, que anunciava oportunidades de dublagem. “Fui a 500 000 testes”, diz Pedro. “Nada na minha vida até hoje caiu do céu. Sempre me perguntam qual meu conselho de carreira.

Digo que não há atalhos.” Uma das seleções rendeu um bico como apresentador da noite nova-iorquina em um site microscópico que nem existe mais. Os trabalhos foram surgindo, e Pedro começou a subir na carreira e a chamar a atenção em Nova York e nos Estados Unidos. Enquanto isso, no Brasil, pouca gente fora do mercado de moda sabia quem ele era.

O menino do táxi

O Manhattan Connection entrou na vida de Pedro de maneira inusitada. Em meados dos anos 2000, Pedro havia conseguido um emprego como apresentador num programa chamado First Look, do site LXTV, que trazia informações locais de cultura e lazer em Nova York. O canal na internet foi comprado pela rede NBC, que passou a transmitir o First Look em telinhas de aviões e táxis.

Lucas Mendes, apresentador do Manhattan Connection, assistiu às reportagens de Pedro várias vezes até descobrir, por meio de sua mulher, que se tratava de um brasileiro. Lucas pediu que a produção o convidasse para fazer uma participação no programa, que na época buscava justamente alguém para falar sobre cultura e dicas de Nova York. A resposta da audiência foi tão boa que Pedro acabou sendo convidado para fazer parte da equipe do programa.

Está lá há cinco anos. “O Pedro é fácil e agradável. Deu, literalmente, uma rejuvenescida no programa”, diz Caio Blinder, jornalista e colega de bancada, que costuma pedir dicas ao colega quando quer ir a um restaurante. Depois das gravações, as conversas e as discussões que iam ao ar geralmente continuavam em algum point da cidade.

Em 2013, Pedro, que seguiu apresentando programas na NBC, recebeu um convite da concorrente ABC, a maior rede de TV do mundo, para ser âncora de um programa matinal no Fusion, um canal novo que a rede estava criando em parceria com a Disney e a Univision, a rede latina, com o objetivo ambicioso de atrair a audiência do público abaixo dos 30 anos.

Apaixonado por Nova York e morador da cidade havia 12 anos, Pedro titubeou diante da ideia de se mudar para Miami, mas acabou aceitando. Fez bem. Em março, a Fusion transferiu o programa para o horário nobre devido ao sucesso de audiência. “O Pedro trouxe vários talentos. Ele tem amor por política, economia, cultura e é antenado”, diz David Shenfeld, diretor de talento do Fusion.

A rotina de Pedro é puxada. Durante seis meses, o jornalista teve de acordar às 3 da manhã para conseguir entrar no ar às 7 horas. Com a transferência do programa para o horário nobre, os horários não ficaram mais relaxados. Ele acorda às 6 horas, tenta se exercitar por 40 minutos e dirige até os estúdios da ABC.

A primeira reunião editorial acontece às 8h30. Ao longo do dia, ele grava segmentos, produz reportagens, agenda filmagens, estuda e atualiza o site pessoal. “Não sei fazer nada pela metade ou de forma preguiçosa”, afirma Pedro. Ele conta que hoje em dia não fica mais nervoso como antigamente.

“Curto a adrenalina sutil que o programa ao vivo proporciona e canalizo essa energia para meu desempenho no ar”, diz. O programa ao vivo vai ao ar das 20 às 21 horas. Pedro também é correspondente de dois outros grandes programas da NBC: o Good Morning America e o Nightline. E ainda vai para Nova York a cada 15 dias gravar pautas para o Manhattan Connection. 

Questionado sobre a rotina exaustiva, Pedro diz que ama o trabalho e não se imagina fazendo outra coisa. “Talvez por isso não reclame da carga horária desumana. Vou para os estúdios com um sorriso no rosto­ todas as manhãs”, afirma.


A visibilidade ainda rendeu o convite para ser embaixador da marca de luxo Gucci. “Fui apresentado ao Pedro por amigos durante um evento em Nova York e tive a oportunidade de conhecê-lo melhor, apesar de já acompanhar seu trabalho há algum tempo”, diz Roberto Paz, presidente da Gucci na América Latina. “Automaticamente identifiquei que seu perfil tem muita similaridade com a marca.”

O fato de ser brasileiro, na opinião de Pedro, nem ajudou nem atrapalhou sua carreira no exterior. “Acho que realmente paguei meus pecados, tive de ralar quinhentas vezes mais do que um americano para provar que também posso ser uma ‘arma’ útil para a emissora.” Para o futuro, o jornalista ainda não sabe o que quer.

Diferentemente do que foi divulgado na mídia, ele nunca chegou a ser convidado para apresentar a versão brasileira do programa musical The Voice, mas não descarta a possibilidade de voltar para o Brasil.

Animado com o momento atual, Pedro espera não ter chegado a seu máximo. Sua expectativa é continuar trabalhando em lugares que o permitam ter voz. “Não tenha medo de errar. Aprenda a lidar com rejeição. Não veja crítica construtiva como ofensa e seja humilde. Sempre há espaço para aperfeiçoar nossos talentos”, afirma.