Mulheres no poder

Cinco executivas muito bem-sucedidas dão uma aula de jogo de cintura e contam o que fazem para equilibrar a vida dentro e fora de casa

Um é pouco, dois é bom, três é melhor ainda. As executivas que Pedro Mandelli, consultor e colunista de VOCÊ s.a., chamou para a terceira edição de seu pinga-fogo acham que a família garante a tranqüilidade de que elas precisam para enfrentar os embates da carreira. São mulheres bem-sucedidas que conseguiram equilibrar o sucesso profissional com a demanda do marido e dos filhos. Elas demonstram na prática uma habilidade reconhecidamente feminina: a capacidade de lidar com várias coisas ao mesmo tempo. Nas próximas páginas, você vai ler o resumo da conversa — uma verdadeira lição de jogo de cintura.

Mandelli – Vocês acham que teriam mais sucesso profissional se fossem sozinhas?

Andrea – Não, de forma nenhuma. Meu marido me apóia em tudo o que faço. Estamos sempre estabelecendo acordos — é como se nossa vida fosse uma seqüência de vários projetos com começo, meio e fim. Às vezes, passo mais tempo com a família. Em outras, meu foco é o trabalho. Se estivesse sozinha, acho que ficaria insegura.

Sandra – Acho que nenhum ser humano é melhor quando vive sozinho. Estou no terceiro casamento e contei com o apoio de cada um de meus ex-maridos. O que aconteceu é que, num determinado momento, eu queria mais do que apoio, queria um parceiro que entendesse o que faço e por que faço. É por isso que meu casamento atual é o terceiro e último: nosso universo de trabalho é muito parecido. Cheguei à conclusão de que é muito mais fácil quando você tem um parceiro da mesma área profissional.

Sueli – Somos totalmente diferentes. Ele é economista, e eu, psicóloga. Chegou um ponto em que eu não tinha mais condições de tocar a escola sozinha porque não entendia nada da área financeira. Foi por isso que meu marido veio trabalhar comigo — nossos filhos também. Na época, muita gente comentou que não ia dar certo. Felizmente, estamos indo muito bem. O segredo? No trabalho, não agimos como se fôssemos uma família.

Adriana – A gente precisa de apoio, sem dúvida, mas acho que seria o que sou independentemente de ter marido. Estava casada há cinco meses quando abri a consultoria. Separei, já estou há oito anos com meu segundo marido e minha empresa continua crescendo. Gosto de ter um relacionamento estável porque isso me traz tranqüilidade, o que é fundamental para que eu trabalhe bem.

Elizabeth – Acho que meu ser profissional se manifestaria da mesma forma, mas teria sido muito mais complicado.

PARA PENSAR

A dois é melhor

Interessante é que a resposta de vocês é a mesma que os homens davam no tempo em que as esposas ficavam em casa. Isso me leva a concluir que, ao alcançar uma posição executiva, o homem e a mulher acabam concordando no que diz respeito a valores, casamento e relacionamento com a família.

Mandelli – De maneira geral, as empresas são machistas. Como vocês lidam com isso?

Adriana – Faz pouco tempo que há homens trabalhando na minha empresa. Acho que eles ajudam muito. Sempre tem aquela história de estar lidando com mulheres, o que os faz ser muito mais gentis no trato.

Sandra – Para mim, o machismo está dentro da cabeça e do comportamento da mulher. Somos nós que criamos maridos, colegas de trabalho e filhos machistas.

Andrea – Concordo com a Sandra. Nunca me senti discriminada, mas também não permito que isso aconteça, porque coloco limites muito claros na minha relação com os homens. Se for tratada de forma machista, não vou ficar quieta. E acho que meus colegas de trabalho não vão querer ser acusados desse tipo de comportamento. Acho que os homens, de maneira geral, têm admiração pela maneira como encaramos as coisas. Lá no trabalho, eles costumam parar para ouvir o que tenho a dizer.

Sueli – A escola também é um ambiente predominantemente feminino. Mas noto que os homens que trabalham lá prestam atenção no que digo porque respeitam essa história de intuição feminina.

PARA PENSAR

Acerte o foco

Esse é o melhor jeito de a mulher driblar o machismo na corporação. Focar o comum é preocupar-se com resultados, desenvolvimento pessoal e utilização das competências — assuntos que dizem respeito a qualquer profissional, independentemente do sexo. No âmbito pessoal, a mulher deve mostrar firmeza, perseverança e coragem.

Mandelli – Vocês não acham que o homem sempre foi, do ponto de vista executivo, mais articulador, e a mulher, mais direta?

Adriana – Não acho que saber pontuar as coisas tenha a ver com o fato de ser homem ou mulher. Isso é muito mais uma questão de personalidade, do perfil de uma pessoa que alcança postos executivos.

Andrea – Concordo com a Adriana.

Mandelli – Uma boa parte das mulheres de sucesso teria esse perfil? Mas isso não se aplica aos homens…

Adriana – Como antes só os homens alcançavam as posições mais altas, havia entre eles os que fugiam desse perfil. Agora, é a vez das mulheres que não pedem passagem e que, no máximo, falam um “dê licença”.

Andrea – Essa questão envolve o papel que a mulher exerce na sociedade. Nós temos muito mais capacidade de administrar várias coisas ao mesmo tempo. Nunca vou esquecer de um dia em que cheguei em casa completamente exausta. Assim que coloquei o pé na sala, a empregada falou que ainda não havia feito o jantar. Minha filha tinha febre e meu filho, que era um bebê, estava aos berros. Enquanto isso, meu marido lia calmamente o jornal. Bastou eu chegar em casa para o mundo cair em cima de mim.

Mandelli – Vocês tentam gerenciar a vida e a carreira do marido? Os homens sempre fizeram isso com as esposas…

Elizabeth – Lá em casa adotamos o modelo colaborativo — um ajuda o outro na medida em que for solicitado.

Adriana – Se meu marido me conta um problema, minha tendência é dar a solução. Mas ele dificilmente aceita. Acho que, no fundo, o que ele quer é alguém para ouvi-lo.

Elizabeth – Tocamos num ponto que considero crítico: quando estamos na empresa, também não queremos que ninguém nos dê soluções. Sabe aquela história de aprender a trabalhar em grupo, da importância de pensar com outras pessoas? Muitas vezes, a intimidade da relação a dois nos faz ultrapassar essa linha, o que costuma ser mais difícil de acontecer no trabalho.

Sandra – Eu procuro não interferir, mas gosto de trocar informações. Detesto só ouvir, quero falar também, mas não quero ninguém que venha com soluções prontas. Acho que o casamento pressupõe essa troca. Senão, acaba. Aprendi a duras penas que é preciso manter uma certa cerimônia no relacionamento a dois. Se a gente tratar o marido como aquele namorado com quem gostamos de estar, o casamento tende a ser mais duradouro. Por isso, quando ele vier com aquele papo chato — e, às vezes, eles vêm mesmo –, você deve pensar: se ele me falasse isso quando a gente namorava, eu daria atenção.

PARA PENSAR

Faça cerimônia

Na organização, é preciso buscar e manter certa cerimônia com os colegas. Geralmente, as pessoas adotam esse comportamento nas relações profissionais porque costumam cuidar mais do que é menos duradouro. Mas é preciso preservar a estética em todas as relações, inclusive na vida a dois.

Mandelli – Como vocês acham que fica o casamento quando um dos cônjuges dispara profissionalmente?

Adriana – No meu caso, não houve isso porque crescemos juntos.

Elizabeth – É uma situação difícil. Acho que o segredo está na maturidade para entender como serão as coisas mais na frente. Eu nunca passei por isso, mas não acredito que o parceiro em “desvantagem” tenha ciúme ou inveja. Talvez sinta acanhamento por não poder acompanhar o outro. A negociação e o compromisso são muito importantes nessa hora para que as coisas se resolvam em outro plano, maior do que esse da carreira.

Sandra – Também não passei por essa experiência. Meu primeiro marido não tinha nada a ver comigo do ponto de vista profissional. O segundo era 20 anos mais velho e tinha a carreira consolidada. Hoje, eu e meu marido estamos no mesmo patamar de idade e de conquistas profissionais.

Andrea – Meu caso é diferente: eu e meu marido somos psicólogos. Estudamos juntos e começamos a carreira juntos. Depois é que tomamos rumos profissionais diversos e tivemos de fazer o aprendizado da diferença. Hoje, ele trabalha num hospital e eu numa empresa. Meu salário é maior. Sei que ele gosta da vida que leva, mas poderia viver muito bem com muito menos. Meu marido é meu contraponto. É óbvio que eu também sou o mesmo para ele. O trabalho é apenas uma parte da minha vida — uma parte que me traz muito prazer, é verdade, mas que é só um pedaço.

Adriana – Acabamos de falar sobre um assunto que eu acho fundamental: admiração pelo parceiro. Sem isso, o casamento acaba.

Sandra – A única certidão de casamento válida é a admiração e o respeito.

PARA PENSAR

Admire o parceiro

Um casal jovem e no começo de carreira geralmente tem o mesmo sentido de luta, uma causa comum. Depois é que aparece a admiração mútua. O relato da Andrea mostra isso: ela e o marido têm causas diferentes, mas sentem muita admiração um pelo outro. Nossos pais não experimentaram isso. Quando se casaram, tinham uma causa em comum que, via de regra, era criar bem os filhos. Certamente, só um deles obteve sucesso profissional — o outro virou apêndice. Hoje, esse modelo não funciona mais. Nossos parceiros não são pessoas submissas, que olham o sucesso do outro e se limitam a dizer: que bom que ele/ela conseguiu!

Mandelli – Quanto mais sucesso vocês tiverem, menos tempo sobrará para se dedicar à vida pessoal. Como administrar isso?

Elizabeth – Ainda bem que muitas empresas já descobriram que funcionários felizes são muito mais produtivos.

Andrea – Eu acho que as empresas modernas prezam a qualidade de vida dos funcionários. Caso contrário, quem sai perdendo é ela. Porque, se alguém vai embora todos os dias às 10 da noite e volta às 8 da manhã, não vai trazer nada de novo para a organização. Eu não trabalharia numa empresa que não respeitasse meus limites.

Sandra – Para mim funciona assim: alta performance é moeda de troca.

Adriana – Tem momentos em que é mesmo preciso dar mais atenção ao trabalho. Depois você compensa a família. Ainda bem que meu marido não faz esse tipo de cobrança, pois também trabalha muito. Atualmente, meu maior compromisso é com minha filha de 4 anos. Um jeito de ficar mais próxima dela é responder meus e-mails em casa. Coloco meu laptop ao lado do computador que temos lá e, enquanto ela brinca, eu trabalho. Muitas vezes, não posso ficar nas festinhas, mas sempre dou um jeito de buscá-la. Porque ela vai se lembrar da minha ausência a vida inteira, e o meu cliente, não.

Sueli – É muito importante viver a vida dos filhos na idade em que eles estão, porque eles nunca mais voltarão àquele ponto. Muitos problemas que existem hoje dentro da escola acontecem pela ausência dos pais em certas situações.

PARA PENSAR

Trabalhe primeiro, peça depois

Sandra, você tem toda a razão: a alta performance é mesmo uma moeda de troca. Portanto, se o seu desempenho no trabalho é mediano, nem pense em impor limites ou pedir algo. É preciso ser realmente parceiro do desafio da empresa — isso muda completamente sua imagem profissional com chefes, pares e subordinados.

Mandelli – Que recado vocês dariam aos leitores? Com o que eles precisam se preocupar?

Adriana – Com a carreira e o autodesenvolvimento, porque trazem liberdade. E só com independência é que alguém se torna dono de suas escolhas — incluindo aí a opção de manter o casamento.

Andrea – Não deixe que o mundo corporativo deturpe seus princípios.

Sandra – Não permita que outros interfiram em suas escolhas pessoais e profissionais. Caso contrário, você irá culpar essa pessoa por sua frustração. Isso é fatal para o casamento e para a carreira.

Sueli – Zele por seus valores. Quando você faz isso, consegue respeito.

Elizabeth – Invista em autoconhecimento. E não se preocupe, se ocupe. Ocupe-se de sua vida pessoal, de sua carreira. É um erro achar que o casamento e a carreira dependem de outros.

PARA PENSAR

Seja egoísta

Notaram que as respostas estão centradas em vocês mesmas? O parceiro e a empresa são transitórios. Por isso, é preciso exercer um egoísmo saudável.

Mandelli – E com que as pessoas não devem gastar suas energias?

Adriana – Elas não devem se importar com o cargo, por exemplo. Acho que, se você for bom, isso é conseqüência. Também acredito que ninguém deve deixar de fazer o que deseja, pois sempre vai haver algo que pode ser usado como desculpa para adiar os planos. Toda vez que você assume outro patamar, não deve esquecer que volta à estaca zero naquele estágio. Você dominou o que está para trás, o futuro ainda precisa ser dominado.

Sueli – Se você não tiver desafios, nunca vai subir na carreira e na vida, nunca vai apostar para ver se dá certo ou errado.

Andrea – Toda vez que a gente toma uma atitude ousada, pode errar ou acertar. Por isso, cada um tem de encontrar sua medida, seu limite.

PARA PENSAR

Não deixe para depois

Devemos preservar a cerimônia nas relações, manter a independência e o apoio que a família nos proporciona para equilibrar a vida profissional e a pessoal. Também é preciso coragem para tomar decisões, fazer escolhas.